segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

olga savary



“Sou refém de sexo, mas não de homem; me viro muito bem sozinha”

MAR I

para ti queria estar
sempre vestida de branco
como convém a deuses
tendo na boca o esperma
de tua brava espuma.
Violenta ou lentamente o mar
no seu vai-e-vem pulsante
ordena vagas me lamberem coxas,
seu arremesso me cravando
uma adaga roxa.

MAR II

Amo-te, amor-meu-inimigo,
de mim não tendo piedade alguma.
Amo-te, amor-sol-a-pino,
feroz, sem nenhuma sombra.
Estás inteiro em mim
e vou sozinha.
Ao ver-te, amor, minha sorte ficou
como se diz: marcada.
Mar é o nome do meu macho,
meu cavalo e cavaleiro
que arremete, força, chicoteia
a fêmea que ele chama de rainha,
areia.

Mar é um macho como não há nenhum.
Mar é um macho como não há igual
¾ e eu toda água.



SUMIDOURO I


Tocas a fímbria dos desfiladeiros
fruindo a cor do figo e da romã
no nascente e secreto sumidouro.
É tarde nas folhas e nos muros,
nas sombras do tanque de lodo e musgo,
é tarde já, é noite - e o sol vem vindo
e a primavera vindo onde a água
é o mel feroz de pássaros em tua língua,
onde o amor deságua em delta e tudo é fogo.


SUMIDOURO II

Direi então: amor é onde
e junco alto e as dunas soam mais brando
e os frutos cheiram mais e são mais doces,
onde há embriaguez e uma tensão
de corda esticada no limite
e tudo é lasso, onde
as abelhas perdem a ferocidade
sendo mais mel,
onde tudo é ordem e labirinto.


SUMIDOURO III

E onde é o sol mesmo na sombra
porque tudo arde na grama
quando a língua em chama sobe a fonte
do delta das coxas, onde
a vida é prometida nos dardos,
nas setas e espadas.
E é com o mel da tua espuma
que se encontra a arqueologia
dessa água intemporal.
Dou a noite a quem merece o dia
e é com sabedoria que me matas
no claro interstício dessa faca.



Olga Savary

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