segunda-feira, 19 de abril de 2010

I Festival de Teatro aberto de Campos








De 29 Abril a 2 de Maio
veja toda programação aqui http://goytacity.blogspot.com/
Poemas ao Mar: Convocação: saiba o que é aqui:
http://barkaca.blogspot.com/
Márcio Almeida Prestreia em Germina confira:
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/prestreia_mar10.htm

se for poema fogo do desejo: May Pasquetti e Artur Gomes
filmados por Jiddu Saldanha no Parque das Ruínas




a lavra da palavra quero
quando for pluma mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
onde a lavra explora
se é saudade dói mas não demora
e sendo fauna linda como a flora
lua Luanda vem não vá embora
se for poema fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

arturgomes

http://pelegrafia.blogspot.com/

Trilhos Urbanos


Entre por esta porta agora



Os olhos das crianças....

Olhemos os olhos das crianças, que eles encerram mistérios;
dentro de suas pupilas moram selvagens bons,
pairam neles lendas de terras desconhecidas.

Olhemos os olhos das crianças;
quando com eles cruzamos nossos olhos,
há reconhecimentos súbitos e reminiscências que revivem.

Que ausência de ouro e prata existe neles!
Que verdes potros relincham em suas colinas!
Que indiferença pelas arcas ricas!
Como se parecem com os olhos dos poetas!

Olhemos os olhos das crianças,
desprevenidos de crimes e borrascas,
inconscientes entre Bem e o Mal
sempre transparentes como a água e o mel.

Olhemos os olhos das crianças,
com seus horizontes claros, claros,
capazes de deixas transparecer
o avô curvado e trêmulo
o pai de sobrecasaca e a menina mãe.

[...] Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de pátrias distantes
e as constelações que já morreram.


JORGE DE LIMA

poesia tem perna curta

teu segredo é publicado
na escrita feita em senha
profunda ferida que tenha
tem teu sangue coagulado
se a verdade ainda é rara
e a superfície imaginária
no meu poema descarado
o teu segredo se declara
feito bêbado apaixonado
que com amor se depara

rodrigo mebs
overdose sonora em santa Teresa


sorocaba blues


cairo trindade e deniziz trindade - a dupla do prazer


rio em pele feminina



narciso acha feio o que não é espelho


o amor tem caminhos estranhos -


palvrARte até a morte – artur gomes e igor fagundes filmados por jiddu saldanha


may interpreta artur gomes – um filme de jiddu saldanha


juninho gênio


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Alimentação Básica


acordei com um sopro
que pensei poema
era tão claro, tão definitivo
nunca poderia esquecê-lo
não o escrevi de pronto
escovar os dentes cuidar do gato
ouvir as notícias
quando vi já não estava
foi-se em forma e sentido
e me deixou deserta
eu, que tanto peço água


Lição

Eu ria dos solitários.
Quem tem a si já tem alguém.
Mas ontem não escrevi
nem anteontem e há tempos.
Reluto em dizer: não escrevo.
E coragem: não escrevo mais.
Isso é solidão.
E é mais que solidão
é ser nenhum
nenhuma
nada
ninguém.


Providencial

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Fernando Pessoa


No auge da tristeza arrebatada
um soneto: queixa e desabafo.
Qual queixa
qual desabafo
qual soneto
Eis que a providência me levanta:
não queiras combater o teu contrário.
Segue o rumo da existência
como a água procura o estuário.
Ama teus belos amigos
que os tens sempre, novos e antigos
e saibas a cada novo dia:
a verdade não anda só contigo.


Helena Ortiz


Beatriz a Faustino

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.

pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora

quinta-feira, 15 de abril de 2010

à falta que me sobra


quando bate a saudade
me apanha
em toda parte
essa cidade me acompanha


Rodrigo Mebs
http://frutafarta.blogspot.com/

Do tal amor

É coisa de outro mundo
Esse amor fecundo
Que tange no ventre

É coisa de outro mundo
Esse amor profundo
Que range os dentes

É lisura, é orgasmo
Quando o tal amor palpita
Nada classifica
A genuinidade dessa esfera

É fissura, é espasmo
Quando o tal amor precipita
Nada explica
A gravidade dessa fera

Cris de Souza
http://tremdalira.blogspot.com/

A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant'Anna

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.

Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.

Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.

Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em “ Poesia Reunida” L&PM, 1999, v.2)


ESPANTOS

molhar a palavra
por onde ela poreja
numa nuvem movimento

sangre, paisagem,
— livre do corpo —
sem forçar a vista para ler
a praia pura e sem vestígios

por onde a dura
duna declina o mantra
do vento e seus íntimos

eventos a se precipitar
num por-de-sol salmão
por todos os lados do ser

chiado de mar, estóica
estática,
estátuas esmeraldas, suadas,
baixando os olhos brancos

na face simultânea do agora.
e este, em seus caprichos,
suspenso num fio claro
de fala que se demora

mais, ainda mais, na mão
aonde o passado
beija o presente
e diz a senha
e entrega a pista:

a luz parando numa parede.

Rodrigo Garcia Lopes
http://estudiorealidade.blogspot.com

Sinto que o mês presente me assassina

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino

O Poeta Mário Faustino
Gilfrancisco

A rigor, Mário Faustino dispensa apresentação, mas nunca é demais insistir na sua permanente atualidade e no seu alto nível de realização literária. Jornalista, poeta, tradutor, crítico literário e advogado provisionado, foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Escritores do Pará, pertenceu ao Conselho Nacional de Economistas, ocupou o cargo de chefia na superintendência do Plano de Valorização Econômica da amazonas. Mário Faustino dos Santos e Silva, nasceu em Teresina-Piauí, a 22 de outubro de 1930.

Em 1956, passa a morar no Rio de Janeiro, sobrevivendo como professor de várias matérias na Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. Concomitantemente, passou a assinar a página Poesia-Experiência do suplemento Dominical do Jornal do Brasil, mantida de 23 de setembro de 1956 até 1º de novembro de 1958. Somente em 1977 parte destes artigos foram compilados pelo crítico Benedito Nunes e publicados em livro, prefaciado por esse mesmo crítico, pela Editora Perspectiva.

Em 1959, Mário Faustino foi incorporado ao quadro de redatores do Jornal do Brasil. Em dezembro do mesmo ano, segue para os Estados Unidos para trabalhar na ONU, onde permanece até 1962. Tendo estagiado em vários jornais da América do Norte, Faustino falava fluentemente o inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. Realizou importantes trabalhos de interpretação para o Museu de Arte Moderna e continuava ligado a ONU como diretor-adjunto do Centro de informações, em Nova Iorque.

Ainda em 1962, foi editor-geral da Tribuna de Imprensa por curto período. Sua vida, bruscamente interrompida a 27 de novembro daquele mesmo ano, quando o avião em que viajava com destino ao México, em missão jornalística, chocou-se com uma montanha em Las Palmas, subúrbio de Lima-Peru, depois de uma escala.

Suplemento Literário – Matutino fundado no Rio de Janeiro a 9 de abril de 1891, o Jornal do Brasil sofreu a primeira reforma gráfica na gestão de Rui Barbosa, que trocou o “z” de Brasil por um “s”. Seis meses depois da fundação, Joaquim Nabuco assumiu a chefia da redação e escreveu uma série de artigos (As ilusões republicanas e outras ilusões) que provocaram o empastelamento do jornal.

Em 1892, a sua propriedade passou a uma sociedade anônima. A 21 de maio de 1893, Rui Barbosa assumiu a direção de redação, que logo foi forçado a deixar, asilando-se na embaixada do Chile. O jornal passou, então, à propriedade de Fernando Mendes de Almeida, transferindo-se em 1918, para o conde Ernesto Pereira Carneiro, que o conservou até a morte em 1954, quando o controle foi assumido por sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches Pereira. Após sua morte em 1983, assumiu a presidência M. F. do Nascimento Brito.

Mesmo o Jornal do Brasil, tradicional periódico especializado em anúncios classificados, não escaparia ao surto da modernidade desenvolvimentista do país. Desta forma, é que, em 1958, sob a responsabilidade do poeta maranhense Odylo Costa Filho (1914-1979), o JB passa por mais uma mudança.

De layout novo, teve em Reinaldo Jardim e no artista plástico Amílcar de Castro os operadores da modificação, que sob as ordens do signo construtivista, direcionavam-se para a criação de novo modelo gráfico-visual.

Lançado a 3 de junho de 1956 o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil –SDJB, a primeira fase foi preparatória e anunciadora da reformulação geral de 1958. A segunda fase, que terminaria na virada de 1959 para 1960, sentiu o ápice de importância, ao padronizar sua diagramação e pauta em torno das questões da vanguarda concretista, da ensaística e da tradução de inéditos textos críticos acerca da literatura e das artes.

A página-seção Livro de Ensaios – dividida em boxes que representam páginas de livros – surge para prover essa rápida atualização, revelam críticos como Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos que manifestam os seus pontos de vista. Ezra Pound, Mallarmé, Sartre, Segui Eisenstein, Henry James, Beckett, Apollinaire freqüentam, semanalmente as edições dominicais.

As mudanças aceleradas do SDJB no espaço jornalístico e da cena cultural brasileira, chegam através da arrojada página Poesia-Experiência, dirigida por Mário Faustino entre 1956 e 1958, que teve atuação importante como poeta e crítico de poesia, é um autor de feição moderna, renovador e aperfeiçoador de formas herdadas da tradição, inventor de formas novas flexíveis.

Eclética como o próprio suplemento, propõe-se promover os novos poetas e operar uma ampla revisão da poesia antiga, mostrando o moderno que existe tanto em Lucrécio quanto em Mallarmé. O lema, estampado na página, é “Repetir para aprender, criar para renovar”. Esse credo de origem poundiana “make it new”, capaz de re-atualizar as formas do passado em função das exigências do presente, praticado com rigor por Mário Faustino, reveste-se de um tom grave que é próprio das diversas experiências artísticas da década.

Aprendendo e ensinando foi o principal papel da página Poesia-Experiência, uma peça importante na construção da modernidade. Pois Mário Faustino cumpriu esse papel com eficiência, estampando “exemplos” a cada semana em suas páginas, preenchendo os requisitos de racionalidade e economia para atingir a “eficácia” poética.

Poesia – Poeta circular, que se reescreve retomando os mesmos temas fundamentais, e que também reescreve a poesia, Mário Faustino tem uma obra pontilhada de referências. Não é só um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros, mas também um poeta por excelência, modelar, por ser o poeta da experiência do poético, da essência da poesia como participação e amplicidade, como um complexo emaranhado de textos e biografias.

Considerado um poeta de síntese e de confluência de linguagem, cultor de versos inventivos, é detentor de um estilo pessoal e inconfundível, que confere unidade e esta variedade de tratamentos formais,fazendo com que cada poema sempre remeta ao conjunto, à totalidade de sua obra. Ou seja, como seu vasto campo de referências ampliando o próprio espaço da linguagem, Mário Faustino, nos remete a um tema que continua atual e presente.

Não há dúvida que o concretismo provocou uma quase radical transformação na maneira como Mário Faustino abordava o poema. E é fácil verificar tal transformação ao se confrontar os trabalhos do seu primeiro livro publicado em 1955, O Homem e sua Hora. Com suas últimas produções, reunindo toda a experiência de um poeta que se sobressai por sua cultura extraordinária e um alto sentido de pesquisa da linguagem, elevando o verso àquela tensão decorrente de um conceito de que a poesia é concentração, é alta voltagem.

Sobre essa influência, Mário Faustino esclarece: “ Não, não sou concretista. Minha formação é muito parecida com a dos poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos e José Lino Grünewald, mas certos aspectos e maneira dessa mesma formação, bem como, e sobretudo, certas condições pessoais, nos colocaram e nos colocam em posição bem distintas, por mais que pareçam aproximadas aos menos informados. Os poetas acima são nitidamente inventores, no sentido poundiano, por mais que este ou aquele venha a ser também um mestre”.[1] Portanto, a poesia de Mário Faustino é leitura obrigatória a todo jovem que se disponha a exercer uma vocação para a qual não basta o talento, a inteligência, a experiência.

Livro Póstumo – Foi através do poeta/ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003) que fiquei sabendo da existência dos originais da “Evolução da Poesia Brasileira”, publicado por Mário Faustino em Poesia-Experiência, Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, entre 31 de agosto a 21 de dezembro de 1958, em dez números consecutivos, que se encontrava em poder do escritor e professor da Universidade Federal do Pará, Benedito Nunes.

Em outubro de 1989, na qualidade de pesquisador da Fundação Casa de Jorge Amado e participante do X Encontro Nacional dos Estudantes de Letras –ENEL (9 a 13 de outubro), que se realizaria em Belém do Pará, recebi incumbência do editor desta instituição, Claudius Portugal, para convencer Benedito Nunes a ceder os originais para publicação em forma de livro, a ser incluído na coleção Casa de Palavra da FCJA.

Em 5 de janeiro de 1990, recebo a primeira correspondência de Benedido Nunes, a cerca dos originais: “... está sendo datilografado o trabalho de Mário FaustinoEvolução da Poesia Brasileira – para os cadernos. Quando estiver pronto, um amigo meu lhe enviará. Sigo amanhã para os Estados Unidos: Universidad de Vanderbilt, Nashville, Tennessee – Department of Spanish and Portuguese”. Vinte meses depois, receberia a segunda correspondência, datada de 20 de setembro de 1991: “Eis o escrito de Mário Faustino. Estou à sua disposição para esclarecer qualquer dúvida e, se for o seu interesse, apesar da demora na remessa, mando-lhe cordial abraço”.

Graças a minha insistência de baiano, após várias conversas por telefone e cartas, consegui finalmente os originais do poeta/tradutor Mário Faustino, que foram publicados em noite de autógrafo de 23 de agosto de 1993, com a presença do próprio Benedito Nunes. Evolução da Poesia Brasileira, reúne treze artigos de Mário Faustino, que de cada vez ocupava uma página inteira, ou seja, o espaço todo do folhetim Poesia-Experiência.

Como bem observou o crítico Benedito Nunes “A crítica de Mário Faustino, escrevi na apresentação de Evolução da Poesia Brasileira que a Fundação Casa de Jorge Amado acaba de editar, é uma crítica que fez de um legado poético a resguardar; anti-tradicionalista, pela sua inclinação inventiva e descobridora, a ir ao encontro do presente, pondo-se a serviço da inovação que abriria essa linguagem para as suas possibilidades futuras. Talvez se possa falar nos mesmos termos, como um misto de tradicionalismo e anti-tradicionalismo – o que tentarei fazer aqui – da poesia de Mário Faustino, da obra poética desse crítico de poesia”. [2]

Obras – Embora falecido aos 32 anos de idade os apreciadores de sua obra estranham a raridade de menções para com o legado qualitativo deste poeta e crítico aguçado, tanto em relação à nossa literatura, quanto em relação as literaturas inglesa e francesa, das quais foi grande estudioso. Mário Faustino deixou-nos ricos ensinamentos, igualmente no campo jornalístico ao colaborar, desde os dezesseis anos de idade (1946), numa coluna diária no jornal Província do Pará, e na Folha do Norte, onde foi diretor de redação e publicou seus primeiros poemas e traduções da poesia norte-americana, inglesa e francesa.

Ao viajar por longo período pelos Estados Unidos da América estudioso obsessivo como era, pode colher intensa experiência literária e vivencial que, conseqüentemente, ajudou-o a elaborar uma poesia densa e elevada, forjando-o crítico audaz e seguro.

Mário Faustino continua sendo subestimado, pois raros foram os artigos publicados até hoje a respeito deste poeta. Após sua morte foram publicados cinco livros que ajudam a revelar sua grandeza:
O Homem e sua Hora, Ed. Civilização Brasileira, 1955;
Cinco ensaios sobre Mário Faustino, ( texto: Assis Brasil), Série Coletânea, nº2, Editora GRD, 1964;
Poesia de Mário Faustino, antologia poética (textos: Paulo Francis e Benedito Nunes), Editora Civilização Brasileira,1966;
Poesia-Experiência, (Texto: Benedito Nunes) Editora Perspectiva, coleção Debates nº136, 1977; Poesia Completa-Poesia Traduzida (texto: Benedito Nunes), Editora Max Limonad, 1985;
Os Melhores Poemas de Mário Faustino (texto: Benedito Nunes), Global, 1985, 2ª ed. 1988;
Ezra Pound- Poesia (tradução Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino), Editora da Universidade de Brasília, 1983;
Evolução da Poesia Brasileira (texto:Benedito Nunes), Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

Dentre os trabalho publicados sobre o poeta Mário Faustino, destacamos: Mário Faustino-Poeta e Crítico, J.L. Grünewald. Rio de Janeiro, Correio da Manhã, 15.dez.1962;
Cinco ensaios sobre poesia, J.L. Grünewald. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 19.dez.1964;
O poeta e sua vida, Haroldo Maranhão. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966; Introdução ao Fim, Benedido Nunes. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966;
A poesia de Mário Faustino, Foed Castro Chamma. Rio, Leitura, Ano XXIV, nº106/107 –mai/jun. 1966;
Últimos Livros, Wilson Martins. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 14.jan.1967;
A Nova Literatura-II Poesia, Assis Brasil (A tradição da Imagem). CEA/MEC, 1975;
Oficina da Palavra – Ensaio intertextual, Ivo Barbieri. Rio de Janeiro, Edições Achiamé, 1979; Tradição & Modernidade em Mário Faustino, Albeniza de Carvalho e Chaves (tese de Mestrado em teoria literária). Piauí, 1986;
Mário Faustino ou a importância órfica, Haroldo de Campos. Cadernos de Teresina, Ano I, nº1 abr.1987;
Uma peça na construção da Modernidade, Antônio Manoel Nunes. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil (idéias Ensaios), 7. jan.1990;
Mário Faustino, J.L. Grünewald. Folha de São Paulo, 2.dez.1992;
Literatura Piauiense no Vestibular, Alcenor Candeira Filho. Parnaíba –Piauí, 1995;
Poesia de Mão Dupla, Benedito Nunes. Salvador, Exu Documento – Fundação Casa de Jorge Amado, 1997;
Mário Faustino, poeta e crítico subestimado, Carlos Frydman. São Paulo, O Escritor, fev.1998.
[1]
Mário Faustino, Poesia-Experiência. São Paulo, Editora Perspectiva, col. Debates nº136, p. 279, 1977.
[2]
Benedito Nunes, Poesia de Mão Dupla. Salvador, Exu Documento, Fundação Casa de Jorge Amado, 1997.

Aracaju. Jornal da Cidade, 25/26.dez.2003.

Sobre o autor:
Gilfrancisco é jornalista, pesquisador, escritor, com alguns trabalhos publicado, e professor universitário.
E-mail: gilfrancisco.santos@ig.com.br

Cogito

eu sou como eu sou
pronomepessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim


Torquato Neto




Ind/Gesta 3


http://collagensfulinaimicas.blogspot.com/





pOEsia tesão
teu nome
trans forma
ritual & gesto
não presto
porque te AMO
te
AMO
porque NÃO presto

OiTI cica
Sendo fica
COSMO COCA
dAndo
ouro branco
língua rica
quanta Arte
no meu


Federico Baudelaire
ViAgens Insanas pelos INcravos da Rosa
http://federicobaudelaire.blogspot.com/




Ócio preguiçoso
Ocioso tempo [
Movi] Mente anti-
a inércia dos antropo-
ilógicos
ou dos astro-
relógicos
na ir-regularidade


Karol Penido
Juras secreta 18

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos

e as rendas íntimas que vestias
sobre os teus pêlos ficção
todos os laços dos tecidos
e aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o baton da tua boca
e o sabor da tua língua
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes
para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado

se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa

Jura secreta 43

afora em mim grafitemas
nenhuma figuralidade
frutas legumes verduras
quem cala a fala consente
houve um dia que a dita/dura
calou a fala da gente

grafito em tua carne de pedra
medusa de sete patas
poema de sete cabeças
miragens do amor que enlouqueça
apóstolos na santa ceia

miró brincando de circo
de olho na lua cheia

Jura secreta 16

fosse esta menina monalisa
ou se não fosse apenas brisa
diante da menina dos meus olhos
com esse mar azul nos olhos teus
não sei se michelangelo da vinci
dalí ou portinari te anteviram
no instante maior da criação
pintura de um arquiteto grego
quem sabe até filha de zeus
e eu narciso amante do espelho
procuro o espelho em minha face
para ver se os teus olhos
já estão dentro dos meus

Jura Secreta 55
para Ana Gusmão

xangô é parte da pedra
exu fagulha de ferro
ogum espada de aço
faz do meu colo teus braços
oxossi carne da mata
iansã é vento fogo tempestade
yaemanjá água do mar
oxum é água doce
oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse
um novo deus em liberdade


Mar de Búzios

vaza sob meus pés
um rio das ostras
enquanto minha mãos em conchas
passeiam o mangue dos teus seios
e provocam o fluxo do teu sangue
os caranguejos olham admirados
a volúpia dos teus cios
quando me entregas o que traz
por entre as praias e permites desatar
todos os nós do teu umbigo
transbordando mar de búzios
- oceanos
atrlântico pulsar entre dois corpos
que se descobrem peixes
e mergulham profundezas
seja qual for a hora
em que ser beijam num pontal
em comunhão total com a natureza


Viagem Tropical

Ah! Meu amor
que maravilha!
apesar dessa quadrliha
tudo aqui vai muito bem
tudo aqui nada vai mal
isso aqui ainda é Brasílha
ou já é novo Pantanal?

a ostra e o vento
p/Branca Lima

fosse marcela uma ilha
deserta atlântica
maravilha
iria eu lá naufragar
fosse só algas e peixes
pérola ostra
armadilha
cabelos fossem só vento
seus olhos fossem só mar

Jura secreta 56

tens uma menina vadia
entre os teus olhos de ninfa
e o vulcão no teu umbigo
flor de lótus pele roxa
alguma alga marinha
na preamar das densas coxas
aberta mulher ao cio
desejo-te enquanto bebe come
onde provas do gozo ri e chora
teus beijos água de rio
mistério que me devora

Curto/circuito

quem disse que amor
é mudo
surdo
cego
não sabe o que carrego
em meu estado de surto

biologicamente fulinaímica falo

sensualidade em tua boca é mato
cama em que me basta e pasto
quando um deus fiat-lux
tendo a pólvora fez o fósforo
e deu-se a primeira explosão
bola de fogo sem limites
e nos espermas de uranos
michele sato já me disse
germinou-te eva e afrodite
o ser da tropicália a tropicanAlice
e sendo adão homem primeiro
deu-me as mãos para o direito
em devorArte pela arte inteira
vênus qualquer sendo de marte
tens dentro da carne brasileira
poderosas fibras na textura
santa mulher nossa senhora
a profanação pela loucura
para equilibrar o planeta onde mora

Injúria secreta

suassuna no teu corpo couro de cor compadecida ariano sábio e louco inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho gumes de atalhos na pedreira menina dos brincos de pérola palavra acesa na fogueira pós os ismos tudo é pós na pele ou nas aranhas na carne ou nos lençóis no palco ou no cinema a palavra que procuro é clara quando não é gema até furar os meus olhos com alguma cascata de luzd evassa em mim quando transcende lamparina que acende e transforma em mel o que antes era pus



poema/invenção/poema
poema/invenção/poema
inventar o nada por de trás da tarde se é savary em olga tudo é quanto arde se em césar castro anjo antropofágico radiografando o trágico no corpo do pivete gol de letra do moleque federico serAfim
reinventar enfim com ferocidade como fogo em brasa pra não morrer de tédio por morar numa cidade onde nem a minha casa não mora mais em mim.

fulinaimicamente

do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente
no improviso do repente
do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente

brasileiro sou bicho do mato
brasileiro sou pele de gato
brasileiro mesmo de fato
yauaretê curumim carrapato

em rio que tem piranha
jacaré sarta de banda
criolo tô na umbanda
índio fui dentro da oca
meu destino agora traço
dentro da aldeia carioca

jackson do pandeiro
federico baudelaire
nas flores do mal me quer
artur rimbaud na festa
de janeiro a fevereiro
itamar da assunção
olha aí zeca baleiro
no olho do mundo cão


fulinaíma

misturei meu afro reggae a muito xote
do xaxado ainda fiz maracatu
maxixe frevo já juntei ao fox trote
quando dancei bumba meu boi em pernambuco

fulinaíma é punk rock
rasgando fados em bossa nova
feito blues
para pintar a pele branca de vermelho
e repintar a pele preta de azuis...

botei sanfona no rufar desse baião
tambor de minas capixaba no lundu
no paraná berimbau de capoeira
dancei em noites de lual no maranhão

mas em são paulo pedras quando rolam
pelos céus de nossas bocas meus irmão
fulinaíma azeita o caldo da mixtura
para fazer o que não jazz ainda soul

porção de restos de alguma partitura
que algum músico com vergonha recusou
por ser estranho o que naquilo descobriu
mas se a gente canta no cantar essa ternura
é que mamãe mamãe mamãe macunaíma
ainda chora pelas matas do Brasil

Goytacá Boy

gosto de cumer
a traça
e se és parte da raça
nesta selva
vira caça
se és humana
e ultrapassa
a espécie
do que caço
estás salva
dos meus dentes
mas se ainda
és curuminha
por onde vais e caminha
entre a cidade
e o matagal
pode inspirar
meu samba/enredo
e desfilar
entre os meus dedos
onde tudo é carnaval

drummundana itabirina

fedra margarida a resolvida
decidira desfilar pela última vez
portando falo
resolvera desnudar de vez
a sua outra mulher
brazílica amanheceu incrédula
cartazes faixas manchetes vozes vozerios
por todas as vias multmeios multvias
voziferavam: Não ao Sim
e margarida flor impávida
lá foi beira-mar contando estrelas no cruzeiro
e césar que não é castro
continuou a pigmentar seu mastro
no outro lado da tela
e um dia fedra sorrindo
com o pênis/baton da louca
foi ao boca de luar da Fedra
e voltou com o luar na boca

SagaraNAgens

guima meu mestre guima
em mil perdões eu te peço
por esta obra encarnada
na carne cabra da peste
da hygia ferreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta

ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a morte em vida Severina
teu grande serTão vou comer

nem joão cabral severino
nem virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino
roubei do mestre drummundo
que o diabo giramundo
é o narciso do meu ser


lua cheia

tenho traficado como um bardo
farejado como um cão
coyote vira lata
por estas ruas de março
nesta cidade vadia
namorando a lua cheia
quando baixa no leblon
na sola do meu sapato
devorando a claudia raia
e mastigando este barato

olho de lince

onde engendro
a sagarana

invento
a sagaranagem

entre a vertigem
e a voragem

na palavra
de origem

entre a língua
e a miragem


mordendo: o vírus da linguagem
no olho de lince do poema



Engenho

engenho na palavra
é Arte

Arte na palavra
engenho

tenho a vida
como Arte

Arte como a vida
tenho


Detrito Federal

profano as tetas da vaca
e dou descarga na coisa privada
para limpar a coisa pública
estou aqui na república
império das empreiteiras
navios bancos fantasmas
laranjas vampiros de fato
dos esgotos surgem os ratos
nos palácios senados congressos
poeta não é o bobo da corte
poeta é pedra no sapato
governabilidade é o cacete
política não é só panfletagem
um país não é só a sacanagem
que se varre para baixo do tapete

dia d
,
furai
a pele das partículas dos poemas
viemos das gerações neoabstratas
assistindo a belos filmes de Godart
inertes em películas de Truffaut
bebendo apocalipses de Fellini
em tropicâncer genocidas de terror
,
sangrai a tela realista dos cinemas
na pele experimental do caos urbano
,
tragai
Dali pele entre/ossos
Glauber rugindo enTridentes
na língua do veneno o gozo das serpentes
nos frascos insensíveis de isopor
,
caímos no poder do vil orgânico
entramos no curral dos artefatos
na porta de entrada os artifícios
na jaula sem saída os mesmos pratos
Querido Artur
Você é umas das mais bonitas provas do quanto a virtualidade é o mais concreto dos mundos. O que me tocou quando te conheci foi a sua forma de ressignificar as palavras. Cansada de ler “batatinhas quando nascem”, sempre desejei alguma coisa nova...
Alguma criação revolucionária que pudesse sair da mesmice, que pudesse mudar a vida, reinventando a paixão.
Suas palavras enlouquecem verbos, deliram na musicalidade de quem ama e deve também fazer estragos aos quadradinhos que querem rotular tudo numa corrente literária, sem compreender as energias que transcendem escolas. Dizer que admiro você, frente a este contexto, parece pouco:
EU DELIRO POR VOCÊ!!!!
Michèlle Sato


Leminski Ana 9
para Marisa Francisco

o estado pode ser de choque
ou quem sabe até de surto
o soco pode ser no estômago
a facada for ferir o fígado
o bandido me assaltar na via
o sangue explodir na veia
a vodka só me der asia
todo instante que vier eu curto
a palavra que pintar eu furto
tudo o que faço é poesia.

anjo torto

meninas para mim
serão sempre meninas
jóia rara coisa fina
cássia eller zélia duncan
marisa monte ana carolina
adriana calcanhoto

não sou mário sá carneiro
nem nasci em fevereiro
eu sou eu não sou o outro
não sou pilar da ponte de tédio
mas posso ser o intermédio
pra amenizar teu desconforto

não há fórmula nem remédio
eu sou mesmo o anjo torto


um tiro oculto na gramática 2

poeta diabo de 5 letras
uma metade homem
outra metade cometa
iluminado como sol
na garganta do futuro
espírito santo na boca
em cada palavra que procuro

Retalhos Imortais do SerAfim

atiro contra o tédio infame pedaços do meu corpo em prumo poemas refazendo em transe retalhos de um tecido em partes seguindo por segundo a trilha na etérea construção da arte

Foto.Grafia Urbana

entre a lâmina e o perfume
as garras do tigre nos teus dentes
entre a língua do lagarto
e o olho das serpentes
entre o amor e o ciúme
à flor da pele
no tecido que seduz
ou na foto que revele.

amor de telenovela

amei uma mulher que não era
mas era como se fosse
como se fosse terra
como se fosse água
como se fosse fogo
como se fosse ar
como se fosse mata
como se fosse mar
como se fosse céu
como se fosse chuva
como se fosse chão

não era uma vera ficher
mas era como se fosse
não era a débora secco
mas era como se fosse
nem carolina dickman
mas era como se fosse
não era nicole kidman
mas era como se fosse
nem marieta severo
mas era como se fosse

não era uma imperatriz
mas o nosso castelo
era como se fosse
as Minas do Rei Salomão

amei esta mulher feliz
que era como se fosse
atriz de televisão.


20 de fevereiro

fosse quântico esse dia
calmo
claro
intenso
inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio a tarde
tempestades trovoadas
insanidades
guerras frias
iniquidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias
até quando esperaria?

até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria


LadyGumesAfrincan'sBaby
para Samaral in/memorian

meto meus dedos cínicos
no teu corpo em fossa
proclamando o que ainda possa
vir a ser surpresa
porque amor não tem essa
de cumer na mesa
é caçador e caça
mastigando na floresta
todo tesão que resta
desta pátria/indefesa.

ponho meus dedos cínicos
sobre tuas costas
vou lambendo bostas
destas botas neoBurguesas
porque meu amor não tem essa
de vir a ser surpresa
é língua suja/grossa/visceral/ilesa
pra lamber tudo o que possa
vomitar na mesa
e me livrar da míngua
desta língua portuguesa


Meta Língua

onde falo sagarana
leiam sagaranagem
junção de gana e garagem
engrenagem que move o mundo
músculo do automóvel
extirpado do sub-mundo
da grafia
da gramática
poema não matemática
linguagem prosa no verso

dos campos beijo as galáxias
em serAfim o concreto
revejo as liras de antes
em guimarães o projeto.


coragem mamãe
numa canção do lenine o peixe está na rede o mar está com sede o rio agora chora onde esta cidade pedra veracidade medra eu te esfinjo drama onde a ferocidade fedra eu te desejo deda eu te devoro dama pensando a trama do torquato eu disse mamãe coragem a vida é sagaranagem fulinaíma é viagem te levo na minha bagagem não chora mamãe não chora

Baby é Cadelinha

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob o esterco de vênus
onde me perco mais me encontro menos
de tudo o que não sei
só fere mais quem menos sabe
sabre de mim baioneta estética
cortando os versos do teu descalabro

visto uma vaca triste como a tua cara
estrela cão gatilho morro:

a poesia é o salto de uma vara

disse-me uma vez só quem não me disse
ferve o olho do tigre enquanto plasma
letal a veia no líquido do além
cavalo máquina meu coração quando engatilho

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os demônios de eros
onde minto mais porque não verus
fisto uma festa a mais que tua vera
cadela pão meu filho forro:

a poesia é o auto de uma fera

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os panos
quem incesta?
perfume o odor final do melodrama
sobras de mim papel e resma
impressão letal dos meus dedos imprensados
misto uma merda a mais que tua garra
panela estrada grão socorro:

a poesia é os fausto de uma farra

poÉtica

tudo o que há em mim
é canto
tudo o que há em mim
é fala
por isso
mesmo quando Mudo
o que há dentro de mim
não cala.

Foto.Grafia anti Nuclear


meu objeto concreto
é um poema abstrato
impressionista
realista
quem sabe até
neo concretista
poderoso artefato
uma bomba de hiroshima
uma rosa parafina
ou quem sabe uma menina
que conheci
só no retrato

VeraCidade

porque trancar as portas
tentar proibir as entradas
se já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija-flor risca no espaço
alguma letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e esse asfalto sob a sola dos meus pés
agulha nos meus dedos

quando piso na augusta
o poema dá um tapa
na cara da paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário

joão guimarães rosa
caio prado martins fontes
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
são paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora

guimarães/rosa


a rosa de guimarães
não é apenas palavra prosa
muito menos pura poesia
ave palavra magma
grande sertão sagarana
veredas do mato dentro

a rosa de guimarães
é grande jardim planetário
na construção do espaço/tempo
que ainda hoje cultivo
no meu quintal imaginário
e colho dessa matéria
o essencial elemento.

sagração da primavera

se sou teu vinho
me beba
se sou tua carne
me coma
para matar a tua sede
para aumentar a tua fama
me leva
pra tua rede
me leva
pra tua cama.

elemento/fúria

teus dentes instigam
meus instintos
trama
em que a língua
tara
trafego tuas trilhas
e tramo a telha
que me der na tralha
palavra é instrumento solto
entre sorriso e dentes
enquanto língua em minha fala.


carNAvalha

beberei em teu sorriso
licores do céu da tua boca
mesmo suja de baton ou louca
em nossa sede visceral
quero teu cio baby
tuas dádivas de Vênus
amor é mais nunca de menos
que seja a vinho gin ou coca
que seja a ópio ou serpentina
lança perfume ou cafeína
beber teus olhos minha sina


FlorBela

fosse apenas uma menina
mesmo assim a rima
desce no mais íntimo
fundo do teu íntimo
muito pra lá de onde
a tua boca chora
onde a lágrima é brasa
e acende a chama quente
como um beijo líquido
no teu cio aceso
entre os teus seios entre
é onde falo no teu corpo agora


Indiscreta

outras imagens outras
se escrevesse ou me dissesse
e Clarisse ainda me disse
teu fogo inda me devora
arde queima consome
tua língua lambe meu nome
na bruma branca das horas


anjo em transe 1
fosse o que apenas já foi dito escrito falado pensado não fosse tudo o que já foi maldito e nada do que nunca foi sagrado falo em tua boca enquanto um anjo em transe me ilumina tanto que mesmo mudo em tua língua canto como um diabo que subindo aos céus tentou muito mais de uma vez quem sabe gregório ou quem sabe castro descendo aos infernos como sempre fez talvez camões no corpo de um astro me lance infinita a chama da pornoGráfica lucidez

Marina de La Riva
voz de onde me vem Marina mar de corais e sais ilhas tropicais em si em sóis em lá de onde me veme sta mulher em sons vocais e sendo ainda de la riva eu vi menina com tua iris feminina nos verdes campos canaviais

Jura Não Secreta

quero dizer que ainda arde
tua manhã em minha tarde
a tua noite no meu dia

quero dizer que ainda é cedo
ainda tenho o samba enredo
é só vestir a fantasia

quero ser teu mestre sala
e você porta/badeira
quando chegar na quarta feira
a gente inventa outra fulia

Jura secreta 45

de Dante a Chico Buarque todos poetas já cantaram suas musas beatriz são todas beatriz são tantas beatriz são muitas beatriz são quantas algumas delas na certa também já foram cantadas por este poeta insano e torto pra lhes trazer o desconforto do amor quando bandido beatriz são nomes mas este de quem vos falo não revelo o sobrenome está no filme sagrado na pele do acetato na memória do retrato beatriz no último atoda divina comédia humana quando deita em minha cama e come do fruto proibido

Black billy

ela tinha um jeito gal – fatal vapor barato
toda vez que me trepava as unhas como um gato
cantar era seu dom chegava a dominar a voz
feito cigarra
cigana ébria vomitando doses do seu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos na pele de insetos
praticando a luz incerta no auge do apogeu

a morte não é muito mais que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha na carne inicial
de quem morreu

Pornofônico confesso

se este poema inocente
primitivo natural indecente
em teu pulsar navegante
entrar por tua boca entre dentes
espero que não se zangue
se misturar o meu sangue
em teu pensar quando antropo
por todas bocas do corpo
em total porno grafia
na sagração da mulher

me diga deusa da orgia
se também tu não me quer
quando em ti lateja e devora
palavra por palavra
por dentro e por fora
em pornofonia sonora
me diga lady senhora
nestes teus setenta anos
se nunca gozou pelos ânus
me diga bia de dora
num plano lítero/estético
qual cibernético ou humano
que te masturba ou te deflora

Brasília

goi áis cerrado bordado
vestido de cora coralina
as vezes me deixa encantado
outras vezes me alucina
me transforma em leopardo
nas garras da tua menina

piqui fruto do mato
olho de boi visgo de jaca
jaraguá jaquatirica
ceilândia olho de vaca
taguatinga em meu retrato
brasília em mim significa

sabor de carne mordida
lambida até o caroço
na boca da bia morena
que mora em meu poema
sem alarde
alvorada ou alvoroço

bolero blue

beber de conhac
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entre os dentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai

vôo rasante

desce
ao mais secreto
ao submerso
submundo
desse mundo
que o amor
é mais propfundo
não cabe em superfície
só no fundo

Jura Secreta 54
moro no teu mato dentro não gosto de estar por fora tudo que me pintar eu invento como o beijo no teu corpo agora desejo-te pelo menos enquanto resta partícula mínima micro solar floresta sendo animal da mata atlântica quântico amor ou meta física tudoo que em mim não tem respostas metáfora d´alquimim fugaz brazílica beijo-te a carne que te cobre os ossos pele por pele pelas tuas costas os bichos amam em comunhão na mata como se fosse aquela hora exata em que despes de mim o ser humano e no corpo rasgamos todo pano e como um deus pagão pensamos sexo.

Sangração das Minas

quando penetrei teus Montes Claros
rocei os pêlos das montanhas brancas
flocos de neve entre as tuas coxas
onde a boca me engolindo falo/dedos
como se as Minas
no pátio não houvesse trancas
nem nos currais cancelas
como se o esperma
do meu corpo quente
fosse somente
o alimento delas
mastigado entre seus dentes
de jaguatirica
sangrado fui teu Ouro Preto
quando devorei tua Vila Rica

nina & louise

quando meus olhos te vêem
com àquelas meias listradas
e o vermelho nariz de palhaço
brinca em meu peito a infância
que nunca deixou de existir
guardada em algumas gavetas
das sete vértebras humanas
razão do ser que vivi

Esfinge 3

érica alice por quanto mais
eu não a visse estava ali
uma miragem
sem que eu fingisse
só voragem
uma mosca em minhas costas
tatuagem quase oposta

a mulher que em carne eu visse
me olhando bem de frente
com teus olhos de serpente
azuis que de repente
devoravam-me no que disse

lavra palavra

a lavra da palavra quero
quando for pluma
mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
quando a lavra explora
se é saudade dói
mas não demora
e sendo fauna
linda como a flora
lua luanda
vem não vá embora
se for poema
fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

Avatar

avatar/esfinge
o que importa?
se aberta a tua porta
me transporta para o mar
e a janela por detrás
das tuas costas
mostra a linha do horizonte
que divide o equador
estrada/ponte
que me leva
seja lá por onde for

sobre as ondas teresina

se queres que eu grite
a morte da natureza morta
antes pense Magritte
a natureza reta
de alguma palavra torta
sobre o sangue a flor da pele
Michelle nua me entorta
em ondas de mar e lua
Gisele levita atrás da porta

Funk Dance Funk
a noite inteira invento joplin na fagulha
jorrando cocker na fornalha
funkrEreção fel fala
fábio parada de Lucas é logo ali
trilhando os trilhos centrais do braZil.

rajadas de sons cortando os ínfimos
poemas sonoros foram feitos para os íntimos
conkretude versus conkrEreção
relâmpagos no coice do coração.

quando ela canta eleonora de lennon
lilibay sequestra a banda no castelo de areia
quando ela toca o esqueleto de Lorca
salta do som em movimento enquanto houver
e federika ensaia o passo que aprendeu com mallarmé

punkrEreção pancada onde estão nossos negrumes?
nunkrEreção negróide nada.
descubro o irado Tião Nunes
para o banquete desta zorra
e vou buscar em Madureira
a Fina Flor do Pau Pereira.

antes que barro vire borra
antes que festa vire forra
antes que marte vire morra
antes que esperma vire porra,
ó baby a vida é gume
ó mather a vida é lume
ó lady a vida é life!


Drummundo

eu sou drummundo e me confundo
na matéria amorosa
posso estar na fina flor da juventude
ou atitude de uma rima primorosa
e até na pele/pedra quando invoco
e me desbundo baratino
e então provoco umbarafundo cabralino
e meto letra no meu verso estando prosa
e vou pro fundo do mais fundo
o mais profundo mineral
guimarães rosa


Marçal Tupã
meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock and roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi-bumbá
a veia de curumim
é coca cola & guaraná



engenho 484
para Jiddu Saldanha
arrancar do gesto
a palavra chave
da palavra a imagem xis
tudo por um risco
tudo por um triz
o trem bala
cospe esqueletos
no depósito da central
fuzil pode ser nosso brinquedo
- novo enredo -
para o próximo carnaval.

e pelas mãos do tempo levarei as tuas como cara/velas de um mar sem tempo ou eras quando a primavera ainda flor de lótus ou a flor do lácio quando abrir teus cios esta flor em pétala quando em teus cabelos pele flor e pêlos eu navegar teus rios te levarei por mares nunca dantes navegados lá onde descobrirei o mistério do azul nestes teus olhos planeta que ainda hei de habitar por dentro lá onde o centro do universo mora e meu verso ficará plantado em todos os segundos que viver na tua hora

EntriDentes 2

paixão é fome fogo festa
quando a foto traz o nome
quando o nome o fogo empresta
o vermelho na parede
o carnaval em tuas unhas
acende a fogueira de lácio
e olivácio salto em transe
no trampolim da tua boca
rasgando a carne que transpunha
as tuas roupas de bruxa
entre pêlos e tecidos
no espaço dos mistérios
na lâmina entre os dentes
a palavra em tua língua
na saliva das serpentes
como o veneno
mais profundo
lambendo os olhos do teu corpo
sob os lençóis do meio dia
enquanto o que pesa
é quanto vale
onde com sangue
escreveria

: se não fosses Eva quem seria?


Dani-se morreale
Se ela me pisar nos calos
Me cumer o fígado
Me botar de quatro
Assim como cavalo
galopar meus pêlos
devorar as vértebras
Dani-se
Se ela me vier de unhas
Me lascar os dentes
Até sangrar meu sexo
Me enfiar a faca
Apunhalar meus olhos
Perfurar meus dedos
Dani-se
Se o amor for bruto
Até mesmo sádico
Neste instante lírico
Se comédia ou trágico
Quero estar no ato
E Dani-se o fato
Deste sangue quente
Em tua boca dos infernos
Deixa queimar os ossos
E explodir os nossos
Poemas
Pós modernos


Profanalha Nu Rio

a flecha de são sebastião
como ogum de pênis/faca
perfura o corpo da glória
das entranhas ao coração

do catete ao largo do machado
onde aqui afora me ardo
como bardo do caos urbano
na velha aldeia carioca

sem nenhuma palavra bíblica
e muito menos avária

: orgasmo é falo no centro
lá dentro da candelária


Metáfora

cavalo passo em tua janela e sem rédeas arreios ou celas alazão que sou de selvagens pradarias lagarto a soltar a pele depois de 40 dias me verão eu tigre expulso das jaulas farejando a caça pelos becos das tardes onde estão os alucinados da cidade enquanto ardendo ao sol a carne do meu corpo de estrelas cadentes e luas menstruadas despeja sobre teus olhos uma enchurrada de palavras como as cachoeiras que ainda não conheces e delas ainda não provou do líquido que teima em escorrer entre as tuas coxas onde minha língua há de beber um dia em que os sentido me despertem e eu vá olhar os lírios nos pântanos.


Unplugged(não ria é sério)

quero botar no teu orkut
um negócio sem vergonha
um poema descarado
ta chegando fevereiro
e meu Rio de Janeiro
fica lindo mascarado

quero botar no teu e-mail
um negócio por inteiro
que eu não sou zeca baleiro
pra ficar cantando a mama
que ainda tem medo do papa

meu negócio é só com a mina
que me trampa quando trapa
meu negócio é só com a mina
que me canta ouvindo o rappa


Met/Áfora 2

não me verás lugar algum enquanto os dentes não forem postos e na mesa tenha espaço para todos esse país que atravesso corpo devasso grito na cara do silêncio na boca dos escravizados eu que venho das profundezas desse tempo escuro onde as caras soterradas no asfalto onde os homens de verde desejavam chumbo sobre nossas palavras não me verás lugar algum o rosto que em mim verás agora é uma máscara que o tempo se encarregou de moldurar sobre o pescoço.


Pétala em Transe: tipo graficamente
em alguma esquina da tarde vejo em alguma vitrine que o sangue é vermelho em quem arde tipo graficamentee leio em teus olhos d´água em transversal transcendente a palavra: diagramação e deda é onde te beijo dédala mais tarde logo depois diante o computador no poema li teus olhos na tela quando um beija-flor me revela: não és pedra ou matéria in/odor és sim: pétala em transe e paixão as letras escorrem em teus dedos nas menchetes de um jornal semanário sem querer descobri teu diário onde já estão lá os segredos deste amor que me é profissão onde deito em teu corpo os vinhedos e em teu ser já deixei minhas mãos

antropofagicamente
this is the question
se é para matar a fome aline
se é para matar a sede alice
se é para cumer teu nome
metáfora tropicana
lambe a tropicAnalice
e com a letra que restar do sobrenome
reInvento a tropicália
vais me ter em sagarana
mordo teus lábios de cigana
e só tua boca me define

indicativo presente

olho dentro do teu olho
para que olhe na minha cara
e cara a cara me diga
a quantas anda a nossa briga
do nosso amor pela ética
se é tão estranha a poética
do só pensar lá na frente
que eu já até perdi a conta
nesse pretérito faz de contas
das quantas vezes
que já votei pra presidente
e o nosso país do futuro
que nunca chega no presente


Flor de Lótus

Eva é quando chegas
e te apossas dos meus lábios
por inteiro
como se arte fosses
e teu corpo flor de lótus
nascendo aqui na minha cara
quando me vens
com tais palavras
e me vira pelo avesso
Eva que enfim foste o começo
quando a maçã em mim devora
fogo do amor não tem segredo
chama que queima a qualquer hora

Luz do Sol

fosse-me então matéria prima
sendo mulher mais que uma rima
Vanessa artéria me atravessa
a veia aorta
e me transporta
a outros climas no cinema
e sendo nega
não me nega
a luz na pele
e sendo pele me revela
o quanto és gente
e sendo gente
me aporta
enquanto vela
e sendo ela
acende a chama
pelos mares que atravessa


terra/mãe

agora que pairas sobre o tempo
quando o tempo ainda é tempo
ou quando invento no meu corpo
este teu tempo de existir
e reInvento o que ainda não existe
ou quando o tempo já se foi
sem sequer se existisse
ou se não visses tudo em ti
se já passou

agora mãe
é quando terra ainda me lembro
de algum tempo
na ferrugem que ficou
roendo os ossos dos meus dedos
não tenhas medo
de dizer que ainda é cedo
se alguma lágrima
sai do tempo que brotou


Estrela de Fogo

Atiçais
tudo que em mim
ainda queima e arde
fogo com o sol da tarde
carne de maçã em desalinho
lua quando chega noite
por estas noites de março
entre os lençóis e o linho
um mar em nossa janela
estrela quando brilhante
acende meus olhos em brasa
e exalas por toda casa
até na matéria bruta
perfume de mulher
como açoite
faminto que sou como a fruta
e bebo teus lábios de vinho


terceiro ato

ana quando a vida não for sacana
a gente engendra a sagarana
inventa a sagaranagem
não te preocupes luisa
com o elo da nossa engrenagem
com a direção do vento norte
ou se vem do sul esta brisa
embaixo da tua camisa
palpitam dois lindo seios
e as minhas mãos alcançam em cheio
nas cenas que já escrevi
com os sonhos que prometeu
mas que agora não são mais teus
eles ficaram por aqui

anjo em transe 3
débora é Évora pela arte inteira flor que entrou na carne não por pura brincadeira mesmo se esvai é quando fica em todo o corpo o que é dela teus portugais em mim significa o quanto canta ou quando cala e aos meus olhos se revela tua linguagem em minha fala não quero nada que não queiras se não quiser palavra inteira te canto de outra maneira mesmo mudo surdo cego quero tudo de ti: não nego como a cor da tua peleque em minha pele passeia e o fluxo do teu sangue circulando em minha veia

Beatriz a Faustino

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.

pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora

quarta-feira, 14 de abril de 2010

MÁRCIO ALMEIDA, O ASSASSIGNO DAS PALAVRAS




Márcio Almeida nasceu em Oliveira (MG), em 1947, e foi muito influenciado por Sebastião Nunes, de quem é compadre e parceiro em vários projetos. Formado em Letras pela UFMG, é professor universitário, publicitário, jornalista e escritor, com vários prêmios na bagagem, entre eles o 1º Prêmio de Poesia Emílio Moura (1977) e o 2º lugar no Concurso de Contos do Paraná (1972).
Ele iniciou sua carreira poética nos anos 60, com o ex-grupo de vanguarda Vix (o poeta Hugo Pontes era um dos membros), por onde publicou o “1º Caderno Mostra”, “Ocopoema”, “ReVIXta” e a revista “Frente”, com diversos autores.
Nos anos 70, publicou “Lavrário” (1971), “Antologia Poética” (1977, em parceria com Pascoal Motta, Geraldo Reis, Antonio Barreto e Ronald Clavel), “As Canções Adiadas dos Nossos Soluços Medrosos” (1979), “Previsão de Haveres na Terra do Puka” (1978) e “O Não Nosso de Cada Dia”.
Nos anos 80, deixou a poesia escrita de lado para dedicar-se à poesia visual, tendo publicado “Não Haverá Míssil de 7.º Dia” (1983), “Orwelhas Negras” (1985, que teve uma edição especial pela Editora Boulder, dos Estados Unidos, em 1986), “Falúdica” (1987) e “Vler” (1988).
A partir de 1986, começou a apresentar-se em performances poéticas com o Grupo Tropa Mineira pelo circuito de bares de Belo Horizonte e em cidades do interior mineiro.
Membro da Comissão Mineira do Folclore, Márcio Almeida foi responsável pela inclusão na Enciclopédia Barsa, em 2002, de um verbete sobre o personagem “Cai n’água”, considerado a maior tradição do carnaval de Oliveira, sua terra natal.
Segundo matéria publicada na Revista da Comissão Mineira de Folclore n.º 21, o poeta fez um registro histórico do Cai-n’água desde sua origem na Antigüidade Clássica. “Àquela época, a máscara era usada nos festins dionisíacos, e chegou, com a história, ao Brasil, através de dois importantes eventos barrocos – o Triunfo Eucarístico, em 1733, realizado em Ouro Preto, e o Áureo Trono Episcopal, em Mariana, em 1748”, explicou Márcio Almeida.
“O Cai-n’água tem origem religiosa: sua indumentária lembra o encapuzado das procissões da Semana Santa em Sevilha, na Espanha, que perdura desde a Idade Média naquele país. O escritor Graciliano Ramos faz referência ao Papangu em sua obra e tudo indica que é o nosso Cai-n’água. Pois ele, agora, é cidadão do mundo em pleno anonimato de sua entidade”, brincou.

ASSASSIGNO
Nas fileiras das estantes
s-obram palavras e traças:
não reverse o veio dantes
e por melhor que o faça.
A linguagem só se inventa
E joga com dado lance:
Não poete de requenta,
Por mais ilusão alcance.
Não amArele rolls-joyce,
Não faça mallarmelada,
Não eufemíssil à coice,
E não cante por cantada.
Não reboque barrocávila,
Não confisque mais de cláudio
Nunca re(x)clame dah! Vida,
Não se corrompa por gáudio.
Não panfleteie ideologia,
Não holografe em atari,
Não loversonhe as marias,
Não palavre: signatari.
Não venha com requevedos,
Não lenhe em tom de gregório,
Não ordenhe ofício do aedo,
Nem o público-notório.
Não saque a 45
Não inverse poema-processo
Não use mel, goma ou, em vinco,
Divã-guarde retrocesso.
Não provencie a goliardo
Não reenlouqueça os ar(t)naudt,
Não faça da fala fardo,
Não insume com o cocô.
Não vá, não fique na onda,
Não caia naquela ou de porre,
Não refaça plagioconda,
Não suje o marfim da torre.
Não publique o poetego,
Não bajule a panelinha,
Não se desdenhe de cego,
Não fale nas entrelinhas.
Não Tradúzia o neo dos campos
Não antifugue bachstianunes
Não entre – linguagem é grampo,
Não julgue a poesia impune.
Não oswaldolatre perjuras,
Não vá de bandeira-dois,
Não relate as escrituras,
Não esqueça do nome aos bois.
Não leréie pounderação,
Não geléie de cummings-kaze
Não restréie rimar em Ão,
Não coquetéie a nova fase.
Não se distraia, lendo vico,
Não se traia, sendo ovídio ou
Subtraie obra do pinico,
Não vaie nunca versuicídio.
Não bissexte pelo reto,
Não se iluda sem ver gílio,
Não discursobre o concreto,
Não purguevara ou idílio.
Não almaminhe vaz camões,
Não redobregue huidobro,
Não prosopopeie os sermões,
Não estruturalize o adobo.
Não transuje o blanco-paz,
Não urbanize joão cabral,
Seja per-verso: abra o gás.
E cheire as flores do mal.
Não drummondeie substantivo,
Não se cordeire em escola,
Não academize ledivo,
Não stanislauda o que assola.
Não sugarana de rosa,
Não chanteie a éluard,
Não diz que a rosa é a rosa,
Não liberte que será tarde.
Não dê uma de alcagoethe
Resousândrade o discurso,
Não best-seller ou verbete,
Não desmaiakovski os russos.
Não envie desc-arte postal,
Não deixe de re-leminski,
Não derrame ode em sarau,
Decubo-versal, kandisky.
Não pseudografe pessoa,
Não freudelire breton,
Não escreva, a sério ou à toa,
Não unte a língua de baton.
Não faça kilkerrelease,
Não passe por elliotário,
Não (se) banalize em silk.
Não suplemente literário.
Não passe replei, desista,
Não há vítima ou lição:
Versejar, ora!, não insista,
O melhor poema é o não.
contatos com o autor: