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domingo, 13 de fevereiro de 2011

ReVirando a Tropicália



nada melhor do que poemas do paulo leminski e torquato neto para meditar sobre esse obscuro momento da cultura oficial neste país de fogo e palha


todo louco tem um bairro
que o bairro o trata bem
só falta mais um pouco
para eu ser tratado também

o paulo leminski
é um cachorro louco
que dve ser morto
a pedra a fogo
a pau a pique
senão é bem capaz
o filha da puta
de fazer chover
em nosso piquenique

entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração comercial
alterna

quando olho nos olhos
sei quando um pessoa
está por dentro
ou estar por fora
quem está por fora
não sustenta
um olhar que demora
diante do meu centro
este poema me olha

ali
se alice ali se visse
quando alice viu e não disse
e alice ali se dissesse
quanta palavra veio
e não desce
ali bem ali
dentro da alice
só alice com alice
ali se parece

paulo leminski


lets play that´s

quando nasci um anjo torto
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo louco torto
com asas de avião
e eis o que o anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre os dentes
vá bicho desafinar o coro dos contentes

e desde que eu sai de casa
trouxe a viagem de volta
cravada na minha mão
enterrada no meu umbigo
dentro fora assim comigo
minha própria condução

todo dia é dia dela
pode ser pode não ser
abro a porta ou a janela
todo dia é dia D

há urubus nos telhados
a carne seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa
só escapo pela porta de saída

todo dia mais um dia
de amar-te a morte morrer
todo dia menos dia
mais um dia
dia D


Literato cantabile


agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto pode ser o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:
a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do mim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.

agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim

do seu início:
Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.
Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:
só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:
não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento



Andar Andei

não é o meu país
é uma sombra que pende
concreta
do meu nariz
em linha reta
não é minha cidade
é um sistema que invento
me transforma
e que acrescento
à minha idade
nem é o nosso amor
é a memória que suja
a história
que enferruja
o que passou
não é você
nem sou mais eu
adeus meu bem
(adeus adeus)
você mudou
mudei também
adeus amor
adeus e vem
quero dizer
nossa graça
(tenemos)
é porque não esquecemos
queremos cuidar da vida
já que a morte está parida
um dia depois do outro
numa casa enlouquecida
digo de novo
quero dizer
agora é na hora
agora é aqui
e ali e você
digo de novo
quero dizer
a morte não é vingança
beija e balança
e atrás dessa reticência
queremos
quero viver


cogito

eu sou como eu sou
pronome pessoal
intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

sou como eu sou agora
sem velhos segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

sou o que sou presente
desferrolhado
indecente
feito um pedaço de mim

sou o que sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

torquato neto

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