terça-feira, 15 de setembro de 2009

um dia
a gente ia ser homero
a obra nada menos que uma ilíada
depois
a barra pesando
dava pra ser aí um rimbaud
um ungaretti um fernando pessoa qualquer
um lorca um éluard um ginsberg
por fim
acabamos o pequeno poeta de província
que sempre fomos
por trás de tantas máscaras
que o tempo tratou como a flores

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito

eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

o paulo leminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filha da puta
de fazer chover
em nosso piquenique

acordei bemol
tudo estava sustenido
sol fazia
só não fazia sentido

nunca quis ser
freguês distinto
pedindo isso e aquilo
vinho tinto
obrigado
hasta la vista
queria entrar
com os dois pés
no peito dos porteiros
dizendo pro espelho— cala a boca
e pro relógio
— abaixo os ponteiros

quando eu tiver setenta anos então
vai acabar esta adolescência
vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência

um dia desses quero ser
um grande poeta inglês
do século passado
dizeró céu ó mar ó clã ó destino
lutar na índia em 1866
e sumir num naufrágio clandestino

todo bairro tem um louco
que o bairro o trata bem
só falta mais um pouco
para eu ser tratado também


vendi meus filhos
a uma família americana
eles tem carro eles tem grana
eles tem casa a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar um sol em Copacabana


bom dia poetas velhos
me deixem na boca
o gosto de versos
tão fortes que não farei
dia virá que vos saiba
tão bem que os cite
como quem tê-los
um tanto feitos também
acredite


entre a dívida externa
e a dúvida interna
meu coração comercial
alterna

quando olho nos olhos
sei quando uma pessoa
está por dentro
ou está por fora
quem está por fora
não sustenta um olhar
que demora
diante do meu centro
este poema me olha

ali se Alice ali se visse
quando Alice viu e não disse
se ali Alice dissesse
quanta palavra veio
e não desce
ali bem ali
dentro da Alice
só Alice com Alice
ali se parece

Paulo Leminski

Um comentário:

  1. Ai ai ... adorei, a sequência tudo...
    Foi você quem organizou?

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