quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A poética de mais e menos

direto do JB ON LIne

Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, zero ponto zero, de Igor Fagundes, sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendose dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado pela obra do autor dotao de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro dos três anteriores (os quais já apresentavam pontos plausíveis).

Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas.

Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Trata-se de um poeta a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.

O livro realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr, vagar das páginas”, diz “plano cartesiano”.

A maioria dos 65 textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o “ponto zero”, o que subverte a numeração convencional.

O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o p o s i t ivo ) .

Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro –

“de um livro quase todo em formas fixas
espera-se o equilíbrio, a simetria
e como se negasse a própria sina
aponta para o oposto dessa trilha”

– no do sujeito –

“calculados de acertos
meus pecados:
erro-me assim
tão exato”

– e no da existência, em sentido mais amplo –

“e a vida morre quando se dá conta
em matemática, tão certa, falha”.

Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original, “questionamento”), destacase uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica.

Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores.

Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de

“dois”:

“não à preguiça de pensar dicotomias
como se tudo fosse antônimo e simplista
(...) sim ao limite em que começa e não termina
a comunhão das coisas, gentes, como rimas
sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar
ao singular plural e ao filho que culmina
sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se
e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.

Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, termo de baixo calão para a poesia contemporânea:

“curta seu love, tire uma casquinha
amar é sair junto, ao cine e após
tomar um ice cream numa pracinha
e nele derreterse, ao sol, e a sós”.

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

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