terça-feira, 21 de setembro de 2010

sampleAndo

SampleAndo



por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas dde amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim adirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
é fato. bagana acesa sobra do cigarro
é sarro. dentro do carro
ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll

pra colher lírios
há que se por o pé na lama
a seda pura foto-síntese do papel
tem flor de lótus
nos bordéis Copacabana
procuro um mix da guitarra de Santanna
com os espinhos da Rosa de Noel.

arturgomes
http://blogdabocadoinferno.blogspot.com/



Fulinaimagem


Isdora

onde teus pés bailarina dançam
cato os vestígios do tempo
onde teus olhos bailarina olham
um gato passeia no teu colo
e na vidraça o giz derrama poesia
escritas com punhos de ontem
em tua cidade de serras
onde teus braços bailarina
sustentam tuas mãos que colhem uvas
coloco águas de chuva
para que teus vinhedos não cessem
e deles brotem a flor o fruto sagrado
e os teus segredos guardados
entre os teus lábios de vinho

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

a flor da pele


Viagem interpoética


A lavra da palavra



Porrada llírica


esfinge

o amor não e apenas um nome
que anda por sobre a pele
um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a pele do teu nome
consome a flor da minha pele

cravado espinho na chaga
como marca cicatriz
eu sou ator ela esfinge
clarisse/beatriz

assim vivemos cantando
fingindo que somos decentes
para esconder o sagrado
em nosso profanos segredos
se um dia falta coragem
a noite sobra do medo

na sombra da tatuagem
sinal enfim permanente
ficou pregando uma peça
em nosso passado presente

o nome tem seus mistérios
que se esconde sob panos
o sol e claro quando não chove
o sal e bom quando de leve
para adoçar desenganos
na língua na boca na neve

o mar que vai e vem não tem volta
o amor e a coisa mais torta
que mora lá dentro de mim
teu céu da boca e a porta
onde o poema não tem fim

artur gomes
http://juras-secretas.blogspot.com/





IMERSÃO

Imerso em águas
mares
reconsidero a permanência
na inconstância
do sal
sobre o corpo: imerso
em águas
doce
na decomposição
do corpo
ao estado
inicial

frágil em minha
permanência.

(Pedro Du Bois, inédito)

http://pedrodubois.blogspot.com/

http://nanquin.blogspot.com/


May interperta artur gomes num filme de Jiddu Saldanha



Jura Secreta 41

porque te amo
e amor não tem pele
nome ou sobrenome
não adianta chamar que ele não vem
quando se quer
porque tem seus próprios códigos
e segredos

mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razãode estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijomesmo breve
porque te amo
no sol no sal no mar na neve

Artur Gomes
http://youtube.com/fulinaima


Mário faustino



Jura Secreta 106

ontem sonhei com você noite inteira
teus seios pulsavam em mim
não sei quando então começou
mas sei quando então foi assim

quanto mais pensava dormindo
sabendo meu ser acordado
fizemos amo dois alados
na cama imortal do jardim
os anjos do inferno rezavam
num gozo de nunca ter fim

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/



VeraCidade

por quê trancar as portas
tentar proibir as entradas
se já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija-flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e esse asfalto sob a sola dos meus pés
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista

flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário

João Guimarães Rosa Caio Prado
Martins Fontes um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na Cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua Aurora

Artur Gomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre pontes que voam

Vagu
ei s
obre águ
as
per
didas,

e des
cobri
que
já tinh
am s
ido

as p
artes
que
sem
pre
bus
que
i

qu
ando
ando
busc
ando
o in
teiro

desc
ubro

o quan
to me
frag
men
tei
.
.
.

Mauro Veras.

Este poema consta do meu livro “bocadotempo”, de 2001, que será relançado em breve, com algumas atualizações. Ao reler os textos, tive vontade de dividi-los ... espero que gostem!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

do silêncio dos poetas

arturgomes - http://collagensfulinaimicas.blogspot.com/








o poema
recolhe-se
a escuridão
das frestas
enquanto
palavras perambulam
pela cerâmica fria
despedaçam-se
contra a louça suja
acumulada na pia
nem Beethoven
e sua 7ª. sinfonia
nem a eternidade
e sua
falsa homilia
apenas palavras
e silêncio
velas sem ventania
entregues ao sabor
da calmaria
palavras sem morada ou teto
sem significado abstrato
ou concreto
traídas no horto
sedentas de rumo
saudosas de porto
em busca de um poema
seja qual for a métrica
ou o tema
não precisa
ser elegia ou soneto
eu juro
eu prometo
pode ser
em verso livre
como a poesia que vive
na mansão e na rua
pode falar do sol
pode falar da lua
da minha dor
ou da tua
não precisa
ser poema chique
quero apenas
que chegue e fique

Fernando Freire
Samambaia, 05.09.2010




Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
Todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Drummond
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

Hilda Hilst

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

jura secreta in saquarema



meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

fulinaimagem

vestígios do homem no planeta


Fulinaimagem


1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas dde amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim adirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com/



Pus o meu sonho num navio
e o navio em cima do mar;
- depois, abri o mar com as mãos,
para o meu sonho naufragar


Minhas mãos ainda estão molhadas
do azul das ondas entreabertas,
e a cor que escorre de meus dedos
colore as areias desertas.


O vento vem vindo de longe,
a noite se curva de frio;
debaixo da água vai morrendo
meu sonho, dentro de um navio...


Chorarei quanto for preciso,
para fazer com que o mar cresça,
e o meu navio chegue ao fundo
e o meu sonho desapareça.


Depois, tudo estará perfeito;
praia lisa, águas ordenadas,
meus olhos secos como pedras
e as minhas duas mãos quebradas.


cecília meireles

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A poética de mais e menos

direto do JB ON LIne

Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, zero ponto zero, de Igor Fagundes, sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendose dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado pela obra do autor dotao de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro dos três anteriores (os quais já apresentavam pontos plausíveis).

Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas.

Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Trata-se de um poeta a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.

O livro realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr, vagar das páginas”, diz “plano cartesiano”.

A maioria dos 65 textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o “ponto zero”, o que subverte a numeração convencional.

O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o p o s i t ivo ) .

Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro –

“de um livro quase todo em formas fixas
espera-se o equilíbrio, a simetria
e como se negasse a própria sina
aponta para o oposto dessa trilha”

– no do sujeito –

“calculados de acertos
meus pecados:
erro-me assim
tão exato”

– e no da existência, em sentido mais amplo –

“e a vida morre quando se dá conta
em matemática, tão certa, falha”.

Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original, “questionamento”), destacase uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica.

Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores.

Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de

“dois”:

“não à preguiça de pensar dicotomias
como se tudo fosse antônimo e simplista
(...) sim ao limite em que começa e não termina
a comunhão das coisas, gentes, como rimas
sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar
ao singular plural e ao filho que culmina
sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se
e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.

Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, termo de baixo calão para a poesia contemporânea:

“curta seu love, tire uma casquinha
amar é sair junto, ao cine e após
tomar um ice cream numa pracinha
e nele derreterse, ao sol, e a sós”.

Quarta-feira, 25 de Agosto de 2010

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

além da janela

sobre o guarda noturno
que vigia minha
rua
sobre o traficante
que vende na mesma
rua
sobre o mendingo
ruminando uma miséria
que é tão sua
três estrelas brilham
esculpem silêncios
num céu que sussurra nos tímpanos da
eternidade
além da janela
de meu quarto
guardas noturnos
traficantes
e mendingos
amam e deixam de amar
vivem e morrem
odeiam e deixam de odiar
assim como o casal
que se beija ao meu lado
ou
como o garçon de olhar cansado
que me traz a cerveja
enquanto a vida
extirpa o coração
dos sonhos
nos altares da
realidade
e nos lábios da mocidade
no olhar dos velhos
que esperam
deuses natimortos
ofertam-nos preces
de morte reciclada

Fernando Freire
Gama, - DF -18.08.2010



Riverdies
21 de agosto – Garage – Praça da Bandeira - Rio


Fulinaimagem



Fulinaimagem

1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas dde amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim adirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos


onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem estejam sempre em meus caminhos e deles brotem da flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
é fato. bagana acesa sobra do cigarro
é sarro. dentro do carro
ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll

pra colher lírios
há que se por o pé na lama
a seda pura foto-síntese do papel
tem flor de lótus
nos bordéis Copacabana
procuro um mix da guitarra de Santanna
com os espinhos da Rosa de Noel.

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/


É das uvas roxas que abocanho
em tua boca e em teu fruto exposto
que faço meu vinho, meu sangue,
que para ti como um rio corre,
minha paixão, muso do meu canto
vindo do fundo da terra,
basalto e magma, esperma
de fundas furnas e de grutas
e das fendas submersas
de onde atocaiado tu me espias,
para ti meu canto, um também roxo canto
uivando das entranhas, mãos, garganta
a me dizer: vida
a ser trazida
entre os dentes
atravessada
tal uma faca.

Olga Savary


entriDentes


olhei a cara do tempo
ela estava fechada
não me dizia nada

pensei as sagaraNAgens
que o tempo fazia comigo
peguei do tempo o umbigo
cortei na ponta da faca

e a tua cara de vaca
sangrei sem nenhum remorso
porque isso o tempo não tem

agora o tempo sorri
me mostra os dentes da boca
e a tua cara de louca
é a minha cara também


jura NÃO secreta

quero dizer que ainda arde
tua manhã em minha tarde
a tua noite no meu dia

tudo em nós que já foi feito
com prazer inda faria

quero dizer que ainda é cedo
ainda tenho um samba-enredo
tudo em nós é carnaval
é só vestir a fantasia

quero ser teu mestre/sala
e você porta/bandeira
quando chegar na quarta feira
a gente inventa outra fulia

unplugged


quero bota no seu Orkut
um negócio sem vergonha
um poema descarada

ta chegando fevereiro
e meu rio de janeiro
fica lindo e mascarado

quero botar no seu e-mail
um negócio por inteiro

que eu não sou zeca baleiro
pra ficar cantando a mama
que ainda tem medo do papa

meu negócio é só com a mina
que me trampa quando trapa
meu negócio é só a mina
que me canta ouvindo o rappa

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

vazio

onde era vôo de pássaros
(os pássaros estavam quietos).
Uma febre roía meus ouvidos:
voltei mais velha (exilada)
com um toque de infância entre meus dedos,
reserva de sal dentro dos olhos.

Olga Savary



a esperança me o-
briga a caminhar
em círculo em tor
-no do globo em tor-
no de mim mesmo em
torno de uma mesa
de jogo
até que o zodíaco
pára e a noite costura-
me a boca a
retrós preto/ mas
eu fico impresso
no olho do dia obsoleto
viagem em círculo
sem ida nem vinda
sem nenhuma avenida
adeus com a mão esquerda/ amanhã
recomeço
minha lida
entre um e outro
julho entre um e outro crepúsculo a
cidade que busco
como hei de encon-trá-la
ouço-lhe a
fala mas estou na
outra sala/ amanhã
sem endereço
recomeço
o meu começo

a esperança é um círculo
no zodía-co na ciranda na
roleta na rosa do
circo na roda do
moinho amanhã recomeço
meu caminho

E me pergunto:
em que lado do glo-
bo terá
cessado o
diálogo da ovelha
e do lobo ?

II

a esfera em torno
de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera
me ensina de novo
a esperança na esfera

a esfera em torno
de si mesma me ensina
a espera a espera
me ensina a esperança
a esperança me ensina
uma nova espera
a nova espera me ensina
uma nova esperança
na esfera a esfera
em torno de si mesma
me ensina a espera
a espera me ensina
a esperança a esperança
me ensina uma nova
espera a nova espera
me ensina uma nova
esperança na esfera

Dedé Muylaert

Meu mestre, senhor da poesia, to louco pra montar alguma loucura contigo.
espero que vc esteja bem e produzindo bastante. Vê se vc gosta:

1

Enquanto escrevo
o poema me renega
digo o que não devo
escrevo o que não traço
e ocasionalmente faço

A Linha do provável
ultrapasso .
Frequentemente
Às vezes, lasso
não escrevo nem faço
nem passo nem fico
identifico
e aí sou eu mesmo
de braços abertos
preso num abraço
como um escuro do cinema
perante o meu dilema:
pau no poema ou é só cena
poeminha diadema?

Dedé Muylaert

terça-feira, 20 de julho de 2010

rock blues poesia

Dia 6 agosto 21:00h – MPBar
Rua Afonso Coelho da Silva, 34 – Flamboyant
Campos dos Goytacazes – RJ
Luizz Ribeiro + Sérgio Máximo +
Clara Brito + Artur Gomes + Lolô




IndGesta

uma caneta pelo amor de deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
quero um computador
nem que seja pós moderno

vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a lídia
que a mediocridade desta idade mídia
não coca cola mais
nem aqui nem no inferno

arturgomes/luizz ribeiro
canibália city
http://goytacity.blogspot.com/

Mania de Saúde Arte e Cultura
Nosso Jornal é Mensal mas nosso Blog é diário

Nos próximos dias 5, 6, e 7 às 21:00h no Teatro de Bolso, e no dia 8 às 20:00h, Sidney Navarro e Thiago Eugêgio, encontra-se no palco interpretando, respectivamente Helena Beatriz e Maria Eduarda, na comédia É A Mãe, vejam os vídeos promocionais no blog Mania de Saúde http://mania-de-saude.blogspot.com/ leia ainda Regulamento e Programação do Fórum Latino americano de Fotografia, realizado em São Paulo pelo Itau Cultural, e Regulamento do Prêmio Porto Seguro de Fotografia 2010, além de uma entrevista com Silvano Motta, Diretor de Eventos do Cine Teatro São João, integrante do Grupo de Teatro Nós na Rua, e responsável pelo Festival de Inverno de Cultura de São João da Barra.

AGENDA MPBAR:

QUARTA E QUINTA (21H) - LOLÔ (MPB)
SEXTA (21H) - LOLÔ E EROS (MPB E POP)
SÁBADO (21H) - MARIA FERNANDA E TICO FLORIANO (BOSSA NOVA)
DOMINGO (14H)- QUARTETO REGRA TRÊS (CHORO)

DIA 6/8, 21H,
BLUES, POESIA, HUMOR E AFINS
NA NOITE DO ENCRAVO E A ROSA.
COM LUIZZ RIBEIRO, ARTUR GOMES, SÉRGIO MÁXIMO E CLARA BRITO

NÃO PERCAM NOSSA I NOITE CAIPIRA!
DIA 20/08, 21H
. FORRÓ AO VIVO

MPBar – Rua Alonso Coelho da Silva, 34 - Flamboyant




poema da boca fehcada
Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago
enviado por George Coutinho

sábado, 17 de julho de 2010

PÁTRIA A(R)MADA








só me queira assim caçado
mestiço vadio latino
leão feroz cão danado
perturbando os eu destino

só me queira enfeitiçado
veloz macio felino
em pêlo nu depravado
em tua cama sol à pino

só me queira encapetado
profanando àqueles hinos
malandro moleque safado
depravando os teus meninos

só me queira desalmado
cão algoz e assassino
duplamente descarado
quando escrevo e não assino


Artur Gomes
In Couro Cru & Carne Viva - 1987
Prêmio Internacional de Poesia
Universidade de Laval – Quebec - Canadá
http://goytacity.blogspot.com/

segunda-feira, 28 de junho de 2010

cine video urbanidades





jura secreta 112

a faca entre
os teus dentes
na gengiva sangra
trafego em angra
pela ilha grande

e
os teus olhos
ainda estão na praia
arraia fêmea
prenhe pelo macho

re/leio olga

algas me roçando
as coxas
me lambendo acima
do umbigo
embaixo

Arturgomes
canibália city
http://goytacity.blogspot.com/
SampleAndo
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quinta-feira, 24 de junho de 2010

louvação




singela oração aos blogueiros desocupados

1

no dia 6 de agosto
cachorro que soy louco
com gosto
vou louvar o meu
senhor

2

salve-me
santíssimo salva/dor
da dor
do horror desta cidade
que um dia foi
dos goytacazes
mortos por urubus
da terra alheia

3

santíssimo
salva/dor
salve-me da santa ceia
salve-me
das virgens de pedra
das santas que não são fedras
as “padroeiras” do Brasil

4

salve-me
santíssimo salva/dor
da feracidade horrorosa
sal-ve-me
do encravo e da rosa
dos carnavais
no mês de abril

5

pro diabo
não sou santo
nem visto o corpo com manto
soy
couro cru & carne viva
soy
carne viva & couro cru
não tenho a língua
que medra
soy carNAvalha
na piedra
my sagrado y profano
aprendiz de los hermanos
canibais lá do xingu

6

não tenho amor pelas santas
meu sangue corre nas plantas
em minhas mãos
esmeril
mas tenho amor pelas putas
a prostituta que pariu

7

santíssimo
salva/dor
salve-me da dor
do desgosto
de desfraudar mês
agosto
bandeiras tropicanalhas
salve-me
das catequeses
dos evangélicos pastores
de amores
de sacristia
salve-me da hipocrisia
planalto central
céu azul

salve-me
deste país
e deste estado de surto
se é pra xingar
não me furto
na flor da pele não tem panos

salve-me
destes tiranos
dos campos
da américa do sul

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/
canibália city
http://goytacity.blogspot.com/




experimentações/interlinguagens

1

hoje em ti
amanheci
ana/brasília
mesmo
não sendo
mulher
ou filha
bem-te-quis
meu
bem-te-vi
ao levitar
em tuas asas
mergulhei mares
que em teus olhos
conheci

2

Xangô
é parte da pedra
Exu fagulha de ferro
Ogum espada de aço

faz do meu colo
teus braços

Oxossi carne da mata
Yemanjá água do mar
Yansã é fogo vento tempestade

Oxum é água doce
Oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse
um novo deus em liberdade

3

sou teu leão de fogo
todo jogo
que me propor eu topo

beber teu copo
comer da tua comida

encarnar de frente
a janela de entrada
e se for preciso
:
a porta de saída

4

moro no teu mato dentro
não gosto de estar por fora
tudo que me pintar eu invento
como o beijo no teu corpo agora

desejo-te pelo menos enquanto resta
partícula mínima micro solar floresta
sendo animal da mata atlântica
quântico amor ou meta física
tudo que em mim não há respostas

metáfora d´alquimim fugaz brazílica
beijo-te a carne que te cobre os ossos
pele por pele pelas tuas costas

os bichos amam em comunhão na mata
como se fosse aquela hora exata
em que despes de mim o ser humano
e no corpo rasgamos todo pano
e como um deus pagão pensamos sexo.

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/



o sem nome

não quero o silêncio
como arma
lira lero
de algum bolero
com letra
pra calar boca
água fria no fogo

quero o incêndio
a fogueira
sei o quanto me negas
o fruto proibido

mas oculto na noite
entro por porta dos fundos
e roubo
a maçã do pecado
enquanto dorme
e sonhas
com alices
no país das maravilhas


mergulho tuas ilhas
devasto teus porões
na sala
derrubo tua mobília
no quarto
devasso teus colchões

na cozinha
bebo do teu vinho
e como do teu pão
não tenho nome
sou o que te come
sem pedir perdão


a vingança do vampiro brasileiro

a rosa apodreceu
no jardim das oliveiras
o encravo
deu com a cara no muro
do palácio guanabara

a filha
tem duas caras
aos domingos reza pro santo
nas sextas
pro capataz
há muito tempo meu chapa
venderam a mãe pro diabo
pensando fosse capaz






para uma puta em taguatinga



ela me conta
que seu ex
não quer pagar pensão
e de como a vida
tem sido dura
com ela
ouço sua cantilena
de puta triste
enquanto o ar condicionado
ronrona um soneto desesperado
e sob seus cabelos
um reino de abandono
seduz-me os dedos
neste quarto de hotel barato
numa noite barata
de rimas escassas
vislumbro o corpo
que há pouco
acolheu
minha solidão
salve pequena puta triste
salve doce menina
do alto dos prédios
escárnio
e indiferença
te cobiçam
e nos outdoors
a realidade sorri para a puta
e para o poeta
e todos na cidade
esperam encontrar
um amor
e todos na cidade
buscam alguém
e nesta hora
todos estão voltando
para suas casinhas de boneca
para suas vidas de plástico


Fernando Freire
Gama, 25/06/2010

sábado, 19 de junho de 2010

A-mar-ia

Eu não quero os bibelôs de ontem
nem os olhares e os beijos enterrados
nas cartas deste armário
não quero as memórias estáticas em foto-porta-poeira

Quero a invenção de novos sentidos
percorrer papéis dis-grafados
Sem-escritos
Não busco a memória de um tempo perdido
não dormiria com Proust
nem mesmo amaria nostálgicos homens.

Doaria, sim, este corpo aos versos de M.A
e a poesia da mulher do ponto de ônibus.

beijaria os lábios de Hilst
amaria os amantes dos meus amantes.

Karol Penido
http://aquarelaemversos.blogspot.com/



AO VENTO

O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!... O vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário

Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir p’la vida fora!!

Florbela Espanca



E acordamos cegos, mudos e incólumes antes do espanto
Alguns elefantes pisotearam teu jardim de verdes sonhos
E a águia foi fazer ninho no chapéu olvidado do avô
Porque as nossas tardes são assim ,ainda, quando esquecemos
O silêncio.

Lembra dos instantes onde a agonia era quase um balsamo?
E das feridas como troféus duma batalha tingida de crepúsculos?
Como era estranho não reconhecer os nossos pecados e rir
E a penitência era alguma fruta roubada na primavera de Maria

Desconhecemos a temporalidade e a métrica das horas
Segundos ou palavras, horas ou rimas e o teu olhar negando as distâncias
Quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem?
Poças de pestilentas larvas já não atraem as borboletas nem os lagartos suicidas
Pergunto-te de novo, quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem...

Flavio Pettinichi- 03- 06- 2010



DE UM LADO E OUTRO

Me fosse dada
a graça
de ser um outro,

aceitaria, quem sabe,
ser você,

você, de corpo e alma,
desde que você,
é claro,
me aceitasse

assim
tal qual eu sou.

Alcides Buss
http://www.alcidesbuss.com.br/




Artur, essa é pra vc, meu velho !
Abraços, Rogerio

Gomes & Gumes
ROGERIO SANTOS(para Artur Gomes)

o gume da brisa avisa
que Artur, bardo rei
sua poesia metralha
entre o calçado e a calçada
entre o mar e a muralha
da musa de tanga a cangalha
bala fala de navalha
dos entrefolhos, bocas
& beco das garrafas
suculentos poemas em pets
cruza Crusoé sete mares
moura pepita de pirita
onde quem cala naufraga
Artur é enxada
minhoca danada
é espada cravada
na fenda da palavra
(e ai de quem pedra furada)

Rogério Santos
Acabei de postar no meu blog

www.folhadecima.blogspot.com

value="http://www.youtube.com/v/J-rgKf4cG9g&hl=pt_BR&fs=1&">

Negra Tez




vestígios do homem no planeta: - fotos: artur gomes








Sou a palavra cacimba
Pra sede de todo mundo
E tenho assim minha alma:
Água limpa e céu no fundo

Já fui remo, fui enxada
E pedra de construção;
Trilho de estrada –de –ferro,
Lavoura, semente , grão
Já fui palavra canga,
Sou hoje a palavra basta.
E vou refugando a manga
Num atropelo de aspa

Meu canto é faca, punhal
Contra o feitor
Dizendo que minha carne
Não é de nenhum senhor

Sou o samba das escolas
Em todos os carnavais
Sou o samba das cidades
E lá dos confins rurais

Sou quicumbi e Moçambique
No compasso do tambor.
Sou o toque de batuque
Em casa gege-nagô

Sou a bombacha do santo
Sou o churrasco de Ogum
Entre os filhos dessa terra
Naturalmente sou um

Sou o trabalho e a luta
Suor e sangue de quem
Nas entranhas dessa terra
Nutre raízes também!!!

dedé muylaert




DUAS FACES

O amor tem duas facas
uma corta outra costura.
O amor tem duas balas
uma mata outra madura.

O amor tem dois olhares
um de calma outro de ira.
O amor tem duas falas
uma cala outra é mentira.

O amor tem duas condutas
uma puta outra santa.
O amor tem duas vozes
uma chora outra canta.

O amor é dois e sendo
trás em si contradições
Zeca Tocantins



dedos dados

a mão nessa garrafa
não tem lance de dados
mas tem
dedos de louça
sensíveis
dedos de fada

pensando Cecília Meireles
não sei se alegres
ou tristes

mas sei:
esses dedos existem

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/



canibália city 1

poema anti metafórico

maria da penha
olha o namorado
:
pega mata e come
:
e não consegue
matar a própria fome


arturgomes
brazilíricas

um tapa no branco
tragado no preto
como instante opus
ópio de pessoa
como fiapo de manga
entrelaçado nos dentes




DECISÃO


Rompi relações
com a burguesia.


Ele só paga
em dinheiro.


Eu só recebo
em poesia.

Zeca Tocantins


Do Livro Colhedor de Manhãs.




CONFISSÃO


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém

Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios

Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...

Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana

sábado, 12 de junho de 2010

Se Porém Fosse Portanto

Se Porém Fosse Portanto
Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polentas
e São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa.

Cacáso - Antônio Carlos de Brito

sexta-feira, 11 de junho de 2010

aboio




ainda tarde
mas é tempo

tempo futuro
é agora
tempo presente
já foi

por isso
inda toco meu boi
não boto conversa fora




canibália city 2
um poema ácido

os fantasmas
ainda sobrevoam
sobre telhados de vidro

laranjas continuam espalhados
aos quatro ventos

algo de podre fede
em goyta city
e nenhum perfume
é capaz de apagar
o odor da lama bruta

se na esquina
o bandido tem direito
de exercer a profissão

não quer dizer
que político
pode saquear a coisa pública
como se fosse privada

onde nem descarga
consegue descer
a merda
do ralo pro esgoto


e o mais escroto
disso tudo
é saber que não foi
esse tipo de poder
que o povo lhe concedeu

arturgomes
http://goytacity.blogspot.com/

bela mais que bela

sensualidade em tua boca
é mato
eu sei do fato que me prende
ao teu sorriso
o siso que me atrai
quando atiça

larissa tens no nome
miranda o sobrenome

na película do meu filme
quero tua pele no acetato

e
na cardiografia do poema
te foto grafo no cinema
para o meu álbum de retrato


maralto

não entre
neste mar
em tempestade

as gaivotras
sobrevoam
a praia
e só mergulham
quando o mar
está pra peixe

teu corpo
não merece
os dentes
de tubarões famintos

tua carne
é hóstia
para outras missas

o teu sangue
vinho
para outros
dentes


artur gomes
marca registrada – poema de Artur Gomes
musicado e cantado por Luiz Ribeiro

segunda-feira, 31 de maio de 2010

trabalhos do corpo




este corpo se conquista com a arte e o engenho dos bárbaros
seu movimento risca o espaço
preenchendo-o com delicadas linhas de força
dilata o olhar na jornada incerta
este corpo dança
destrói leis da física
perfura o ar-livre
às vezes carne desgovernada
às vezes traço matemático
este corpo não mais se sente
fratura-se, rompe-se, perde-se
é deixado para trás
terra-de-ninguém
caído no rastro de outro corpo
palco incompartilhável
este corpo sua
multiplica-se atroz
depois de desposar, desafiar, seduzir
renasce – múltiplo & contraditório –
supernovo explodindo em luzes
sempre longe do universo
ao rés-do-chão
bem mais próximo
mais tóxico
agora não há mais espaço
nem ar-livre
nem dança
só corpo
e tudo nele navega – elétrico
tudo nele anela – novelo
espelho de fora
diferente de si e diferente
múltiplo & contraditório
fora de tudo
como um breve sonho da matéria
involuntariamente móvel
posto pertencer sempre ao azul-metálico
& atravessar desertos a seco

sandro ornellas
in Trabalhos do Corpo & Outros Poemas Físicos
Letra Capital – 2007
contato: ssornellas@gmail.com
http://simuladordevoo.blogspot.com/

trilhos urbanos

sexta-feira, 28 de maio de 2010

lavra/poema




todos os poetas
já cantaram suas musas:

mayara bethânia clarice
alice bárbara isadora

qual o nome
que ainda
não disse
na lavra
do poema
agora

artur gomes

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Quero apenas cinco coisas


Rosiane Terzi - auto retrato






Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.




Pablo Neruda

segunda-feira, 24 de maio de 2010

mundaneidade

para waly Salomão, em memória

abro o corpo ao que lhe é próprio
ao mundo e seus resíduos tóxicos
ao ópio perfurando pregos no cérebro
aos vícios que reviram o branco dos olhos
às fumaças que pintam de vermelho o teto das ruas
às ficções que rompem o casulo larvar da imaginação
reergo as dobras, os ossos, os canais circulatórios
as glândulas, as fibras musculares que sustentam o eu mínimo

já não há nada entre alheio e próprio
e as certezas foram varridas para fora do mundo
sou amigo do caos
penetro nos horizontes pelas janelas fechadas
pulo parapeitos para que venenos mordam meu corpo
que a tudo se acopla
sou amigo do caos e bebo fogo na taça do mundo

cansanção, arruda, guiné, daime, comigo-ninguém-pode
me protejam da antivontade do olho gordo, da urucubaca,
da inveja

que mói e cola as entranhas ao ego
delirante, meu corpo se rende
ao afeto despedaçado das casas e ruas
e rejeita o bom-mocismo da escrita com “missão a cumprir”
de “missão” só a demissão dos papéis prontos

e que o poema continue metonímia da pele
que raspo com gilete toda manhã (à maneira de Horário poetar)
e coço forte quando sinto cheiro de repetição

Sandro Ornellas
Do livro: Trabalhos do Corpo e Outros Poemas Físicos
Letra Capital – 2007
Contato: e-mail ssornellas@gmail.com
http://simuladordevoo.blogspot.com/


canibália city 1
poema anti metafórico

maria da penha
olha o namorado
:
pega mata e come
:
e não consegue
matar a própria fome


brazilíricas


um tapa no branco
tragado no preto
como instante opus
ópio de pessoa
como fiapo de manga
entrelaçado nos dentes


black Billy

ela tinha um jeito gal – fatal vapor barato
toda vez que me trepava as unhas com um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz feito cigarra
cigana ébria vomitando doses do seu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos na pele de insetos
praticando a luz incerta no auge do apogeu

a morte
não é muito mais que um plug elétrico
um grito de guitarra – uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu
?

Arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

quinta-feira, 20 de maio de 2010

brazilíricas









me espanta o espanto do gullar

com o poema que não vem





não estou nem aqui
não quero star
me vejo nos arcos


grafitando luas
em tuas mãos de chuva

como um domingo no parque





o rei da brincadeira é josé o rei da confusão é joão, um trabalhava na feira ê josé e outro na construção ê joão:


a primeira vez que ouvi(vi) gil na TV era 68, estava eu trancafiado entre as enormes paredes dos dragões da independência em brasília das quadrilhas, e não sabia nada de mim.





cda me disse que o poema vem
das tripas do intestino grosso
e faustino da vida toda linguagem





todos os dias quando acordo cedo
não tenho mais o tempo que passou:
renato russo ainda vivo como dantes





domingo no parque





todas manhãs quando acendo a tela me vem o filme suas mãos passeando pelas minhas costas tipo uísque riverdies noise craft pop rock poesia tarde inteira no parque da ruínas muito depois já madrugada na porta de entrada do edifício escuto o grito ela me chama fomos à cerveja no boteco ao lado na subida da Alice até a última porta se fechar minutos depois sentados na pracinha em frente ela devora um hambúrguer com seus lindos dentes eu devorava os dentes dela





canibália city





não sei se febre água fogo fala
bala na boca do gatilho
o olhar explode dinamite
no embrião do caos



de que feito esta cidade?
ela atravessa a grana pro marido



eu me deserto
me entorto
trago a língua endiabrada
dentro a boca
não me travo



a polícia implode
mais um bunker na favela
o senado vota a decisão
pro ficha limpa



agora me pergunto:



o que é que o marido
vai fazer com ela?


O POETA PEDE AO SEU
AMOR QUE LHE ESCREVA


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.


Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

MAIAKOVSKI


urbanicidade

asfalto
uma palavra quente
mesmo quando chove
ex-fria piche nos ossos

janelas
:
de concreto/carne
neste corpo/casa
que não mais me habita

arturgomes
http://artur-gomes.blogpspot.com/

beijo o céu da tua boca agora já é outro instante depois de fechar e abrir esta janela para o nada ou para tudo que já veio ou inda virá na vera cruz destes escombros que não mais cidade ainda mordo com os dentes que me resta carnes e frutas bagaços de um sentido solto quando a toalha sobre a mesa não cabe nas metáforas

terça-feira, 18 de maio de 2010

alguma poesia


paula wenke e marcelinha - no studio gravando poesia







Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor.

Clarice Lispector

Paula Wenke nos fala do amor sem medo e sem pudor. Há em seus poemas um poder encantatório, musical e imagético, como se ao invés de se querer poetar, se cantasse. Tal a desenvoltura do ritmo, a harmonia das palavras e a noção exata do tempo poético e das rimas, e com uma linguagem extremamente cuidada, elaborada e moderna.

Paula Wenke traz à poesia escrita por mulheres no Brasil, uma visão ousada do próprio universo feminino, cujo lirismo controlado e, ao mesmo tempo, liberto de preconceitos e pudores, estende uma linha direta entre a sua emoção e a do leitor. Um livro que dança, canta, fala, vibra e fotografa tudo o que nos cerca e que, universalmente, nos abarca: morte, solidão, amor, tragédias sociais, e nossas alegrias cotidianas.

Logo em seu primeiro livro, Paula Wenke nos traz algo dinâmico, lúdico, belo e, principalmente, poético. Sem qualquer tipo de alienação, a autora nos propõe a “festa”, a de Dionísio, a de todos os deuses. Paula Wenke estreia lançando seu olhar perspicaz para dentro e para fora de si mesma, com seu poema fluindo de forma contundente, e, quase sempre, com grande beleza e intensa voltagem poética. Com “Zoom in Zoom out”, a poeta cria uma espécie de “espaço da arte” e - inconscientemente ou não -, quase realiza um estilo novo.

Tanussi Cardoso
Poeta e Jornalista.
Atual Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro

A entrada no mundo poético de Paula Wenke é um choque de multiplicidade. Seu livro “Zoom in Zoom out” é a lente fotográfica, a um tempo digital e analógica, carnal e espirituosa de uma surpreendente estreante. Ela mergulha e logo salta nas águas de uma exuberante feminilidade.

Roberto Athayde, dramaturgo brasileiro mais montado no exterior.


Coração Vagabundo – Gal Costa



Coração Vagabundo

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o quer quer
Meu coração de criança
Não é só lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Caetano Veloso

segunda-feira, 17 de maio de 2010

janela indiscreta em rio de cinzas


centro são paulo: foto - artur gomes








ALFORRIA- 13 de maio

Senzala tem nome gentil: periferia.
Correntes? Não! Agora eu uso bolsa-esmola.
Não sou escrava, tenho, até, cidadania...
Só falta emprego, casa, pão e boa escola.
Não sou mais negra. Hoje sou afrodescendente,
deram-me cotas para ascensão social.
E nas novelas? Já deixei de ser servente...
Semidesnuda, eu sou rainha: é carnaval!
A cada dia, a vida bate à nossa porta,
mostrando a força onipotente do racismo;
nosso sofrer, à pele clara, pouco importa...
Pra eles, tudo... Para nós, só eufemismo.
Dona Isabel, muito obrigada, não deu certo,
aqui vivemos, sem ser parte da nação.
Nosso amanhã, sem segurança... É tão incerto...
Diz, brancamente: não findou a escravidão!

- Patrícia Neme -




JORGE DA CAPADOCIA

Jorge sentou na praça
na cavalaria
eu estou feliz
porque eu também
sou da sua companhia


Eu estou vestido
com as roupas
e as armas de jorge
para que meu inimigos
tenham pés e não me alcancem
para que meus inimigos
tenham mãos e não me toquem
para que meus inimigos
tenham olhos e não me vejam
e nem mesmo pensamento
eles possam ter
para me fazerem mal


armas de fogo
meu corpo não alcançarão
facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar
cordas e correntes se arrebentem
sem o meu corpo amarrar
pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de jorge


jorge é de capadócia
salve jorge, salve jorge
salve jorge, salve jorge
Jorge Ben Jor






que pensa que letra
que leia que linha
que linha que veia
que sangue de vinha
palavra que lava
que lavra sozinha
pulsando na lira
que mira que tinha
que rima que canta
que tanta que minha
palavra que alvo
que salvo da rinha


rodrigo mebs


DOS NOSSOS MALES

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...

Mario Quintana
Janela indiscreta em rio de cinzas

quinta-feira, 13 de maio de 2010

uma caneta pelo amor de deus





Poema de Artur Gomes musicado e cantado por Luizz Ribeiro
Com participações de Sérgio Máximo(violão), Henrique(guitarra) e
Clara Brito (vocais)

Ind/gesta

uma caneta pelo amor de deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
quero um computador
nem que seja pós moderno

vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a lídia
que a mediocridade
desta idade mídia
não coca cola mais
nem aqui nem no inferno

arturgomes
http://carnavalhagumes.blogspot.com/


fulinaíma blues poesia
Artur Gomes, Luiz Ribeiro e Fil Buc
Dia 21/5 em Macaé na
III Feira de RSE Bacia de Campos



Veja programação aqui: http://goytacity.blogspot.com/

A flor da pele

meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
faca na língua língua na faca
a febre em patas de vaca
unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
na tua língua com coentro
tempero sabre de fogo
qualquer paixão reinvento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma/esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes

http://pelegrafia.blogspot.com/

Amante II

Internamente
Cá dentro
O outro que não eu
envolve-se volta e revive
palavras de um léxico
disléxico
caduco
apagado
Recobra dores e amores
Inacabadas paixões
Reviravoltam-se os sentimentos
re-significa ilusões.

Karol Penido
http://aquarelaemversoa.blogspot.com/

Já não procuro a palavra exata
que me pudesse explicar:
ando pelos contornos onde todos os significados
são sutís,são mortais.
Não busco prender o momento belo:
quero vivê-lo sempre mais com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto e da fulguração.
E me corto ao meio e me soltod e mim,duplo coração:
a que vive,
a que narra,
a que se debate
e a que voa-
- na loucura que redimeda lucidez
Lya Luft
Anímico
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
Adélia Prado

segunda-feira, 3 de maio de 2010

foto pele grafia



meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
faca na língua língua na faca
a febre em patas de vaca
unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
na tua língua com coentro
tempero sabre de fogo
qualquer paixão reinvento
o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma/esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/


Amante I

o ser humano
é um pulsar pulsante
ante
pós
constante
que inunda o mundo
de vicerais amantes.


Karol Penido



fulinaíma blues poesia

Artur Gomes, Luiz Ribeiro e Fil Buc
Dia 21/5 em Macaé na
III Feira de RSE Bacia de Campos

Veja programação aqui: http://goytacity.blogspot.com/

a lavra da palavra quero
onde Mayara bruma
já me diz espero

saliva na palavra espuma
onde tua alma é uma
elétrica pulsação de Eros

a dança do teu corpo vero
onde tua alma luna
e o meu corpo impluma
valsa por laguna em beijos e boleros

Artur Gomes e Fil Buc – Overdose Politfônica




sorocaba blues – Artur Gomes, Reubes Pess e Ângelo Nani,
filmados na casa cenográfica em Taubaté, por Márcio
Vaccari e Andréia Moreira Lima





uma câmera indiscreta pelas ruas de Bento




tão pimenta tão petróleo – poema de Salgado
Maranhão, musicado e cantado por Zeca Baleiro





Sorocaba Blues

o cheiro de terra fendida
ainda está sob os sapatos
a carne assado ao sol
na poeira das estradas
sob o prato o gosto que restou da boca
o pudor dos seus guardados
o orgasmo que não veio

depois do primeiro susto
Virgínia então vem a mim
faminta com os seus desejos
mastiga da minha carne
e deixa as sobras
pros meus beijos

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com

feito um verso viro o lado
e no (re)verso violado
feito um vírus violento
outro verso desvairado
me cai no átimo de um momento

remédio para o verso
eficaz nenhum conheço
sei que o tédio ao avesso
é um bom início é até capaz
confesso

faço versos quando inspirado
dropando um cut back a onda
do tormento
às vezes versejo só porque começo
outras só por mero esquecimento

Dedé Muylaert