por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, zero ponto zero,de IgorFagundes, sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendose dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado pela obra do autor dotao de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro dos três anteriores (os quais já apresentavam pontos plausíveis).
Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas.
Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Trata-se de um poeta a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.
O livro realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr,vagar das páginas”,diz“plano cartesiano”.
A maioria dos 65 textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o“ponto zero”, o que subverte a numeração convencional.
O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o p o s i t ivo ) .
Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro –
“de um livro quase todo em formas fixas espera-se o equilíbrio, a simetria e como se negasse a própria sina aponta para o oposto dessa trilha”
– no do sujeito –
“calculados de acertos meus pecados: erro-me assim tão exato”
– e no da existência, em sentido mais amplo –
“e a vida morre quando se dá conta em matemática, tão certa, falha”.
Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original, “questionamento”), destacase uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica.
Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores.
Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de
“dois”:
“não à preguiça de pensar dicotomias como se tudo fosse antônimo e simplista (...) sim ao limite em que começa e não termina a comunhão das coisas, gentes, como rimas sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar ao singular plural e ao filho que culmina sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.
Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, termo de baixo calão para a poesia contemporânea:
“curta seu love, tire uma casquinha amar é sair junto, ao cine e após tomar um ice cream numa pracinha e nele derreterse, ao sol, e a sós”.
sobre o guarda noturno que vigia minha rua sobre o traficante que vende na mesma rua sobre o mendingo ruminando uma miséria que é tão sua três estrelas brilham esculpem silêncios num céu que sussurra nos tímpanos da eternidade além da janela de meu quarto guardas noturnos traficantes e mendingos amam e deixam de amar vivem e morrem odeiam e deixam de odiar assim como o casal que se beija ao meu lado ou como o garçon de olhar cansado que me traz a cerveja enquanto a vida extirpa o coração dos sonhos nos altares da realidade e nos lábios da mocidade no olhar dos velhos que esperam deuses natimortos ofertam-nos preces de morte reciclada
Fernando Freire Gama, - DF -18.08.2010
Riverdies 21 de agosto – Garage – Praça da Bandeira - Rio
Fulinaimagem
Fulinaimagem
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por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem estejam sempre em meus caminhos e deles brotem da flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
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o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato. bagana acesa sobra do cigarro é sarro. dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama a seda pura foto-síntese do papel tem flor de lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santanna com os espinhos da Rosa de Noel.
É das uvas roxas que abocanho em tua boca e em teu fruto exposto que faço meu vinho, meu sangue, que para ti como um rio corre, minha paixão, muso do meu canto vindo do fundo da terra, basalto e magma, esperma de fundas furnas e de grutas e das fendas submersas de onde atocaiado tu me espias, para ti meu canto, um também roxo canto uivando das entranhas, mãos, garganta a me dizer: vida a ser trazida entre os dentes atravessada tal uma faca.
Olga Savary
entriDentes
olhei a cara do tempo ela estava fechada não me dizia nada
pensei as sagaraNAgens que o tempo fazia comigo peguei do tempo o umbigo cortei na ponta da faca
e a tua cara de vaca sangrei sem nenhum remorso porque isso o tempo não tem
agora o tempo sorri me mostra os dentes da boca e a tua cara de louca é a minha cara também
jura NÃO secreta
quero dizer que ainda arde tua manhã em minha tarde a tua noite no meu dia
tudo em nós que já foi feito com prazer inda faria
quero dizer que ainda é cedo ainda tenho um samba-enredo tudo em nós é carnaval é só vestir a fantasia
quero ser teu mestre/sala e você porta/bandeira quando chegar na quarta feira a gente inventa outra fulia unplugged
quero bota no seu Orkut um negócio sem vergonha um poema descarada
ta chegando fevereiro e meu rio de janeiro fica lindo e mascarado
quero botar no seu e-mail um negócio por inteiro
que eu não sou zeca baleiro pra ficar cantando a mama que ainda tem medo do papa
meu negócio é só com a mina que me trampa quando trapa meu negócio é só a mina que me canta ouvindo o rappa
onde era vôo de pássaros (os pássaros estavam quietos). Uma febre roía meus ouvidos: voltei mais velha (exilada) com um toque de infância entre meus dedos, reserva de sal dentro dos olhos.
Olga Savary
a esperança me o- briga a caminhar em círculo em tor -no do globo em tor- no de mim mesmo em torno de uma mesa de jogo até que o zodíaco pára e a noite costura- me a boca a retrós preto/ mas eu fico impresso no olho do dia obsoleto viagem em círculo sem ida nem vinda sem nenhuma avenida adeus com a mão esquerda/ amanhã recomeço minha lida entre um e outro julho entre um e outro crepúsculo a cidade que busco como hei de encon-trá-la ouço-lhe a fala mas estou na outra sala/ amanhã sem endereço recomeço o meu começo
a esperança é um círculo no zodía-co na ciranda na roleta na rosa do circo na roda do moinho amanhã recomeço meu caminho
E me pergunto: em que lado do glo- bo terá cessado o diálogo da ovelha e do lobo ?
II
a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina de novo a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera
Dedé Muylaert
Meu mestre, senhor da poesia, to louco pra montar alguma loucura contigo. espero que vc esteja bem e produzindo bastante. Vê se vc gosta:
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Enquanto escrevo o poema me renega digo o que não devo escrevo o que não traço e ocasionalmente faço
A Linha do provável ultrapasso . Frequentemente Às vezes, lasso não escrevo nem faço nem passo nem fico identifico e aí sou eu mesmo de braços abertos preso num abraço como um escuro do cinema perante o meu dilema: pau no poema ou é só cena poeminha diadema?
Mania de Saúde Arte e Cultura Nosso Jornal é Mensal mas nosso Blog é diário
Nos próximos dias 5, 6, e 7 às 21:00h no Teatro de Bolso, e no dia 8 às 20:00h, Sidney Navarro e Thiago Eugêgio, encontra-se no palco interpretando, respectivamente Helena Beatriz e Maria Eduarda, na comédia É A Mãe, vejam os vídeos promocionais no blog Mania de Saúde http://mania-de-saude.blogspot.com/ leia ainda Regulamento e Programação do Fórum Latino americano de Fotografia, realizado em São Paulo pelo Itau Cultural, e Regulamento do Prêmio Porto Seguro de Fotografia 2010, além de uma entrevista com Silvano Motta, Diretor de Eventos do Cine Teatro São João, integrante do Grupo de Teatro Nós na Rua, e responsável pelo Festival de Inverno de Cultura de São João da Barra.
AGENDA MPBAR:
QUARTA E QUINTA (21H) - LOLÔ (MPB) SEXTA (21H) - LOLÔ E EROS (MPB E POP) SÁBADO (21H) - MARIA FERNANDA E TICO FLORIANO (BOSSA NOVA) DOMINGO (14H)- QUARTETO REGRA TRÊS (CHORO)
DIA 6/8, 21H, BLUES, POESIA, HUMOR E AFINS NA NOITE DO ENCRAVO E A ROSA. COM LUIZZ RIBEIRO, ARTUR GOMES, SÉRGIO MÁXIMO E CLARA BRITO
NÃO PERCAM NOSSA I NOITE CAIPIRA! DIA 20/08, 21H . FORRÓ AO VIVO
MPBar – Rua Alonso Coelho da Silva, 34 - Flamboyant
poema da boca fehcada
Não direi: Que o silêncio me sufoca e amordaça. Calado estou, calado ficarei, Pois que a língua que falo é de outra raça.
Palavras consumidas se acumulam, Se represam, cisterna de águas mortas, Ácidas mágoas em limos transformadas, Vaza de fundo em que há raízes tortas.
Não direi: Que nem sequer o esforço de as dizer merecem, Palavras que não digam quanto sei Neste retiro em que me não conhecem.
Nem só lodos se arrastam, nem só lamas, Nem só animais bóiam, mortos, medos, Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam No negro poço de onde sobem dedos.
Só direi, Crispadamente recolhido e mudo, Que quem se cala quando me calei Não poderá morrer sem dizer tudo.
no dia 6 de agosto cachorro que soy louco com gosto vou louvar o meu senhor
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salve-me santíssimo salva/dor da dor do horror desta cidade que um dia foi dos goytacazes mortos por urubus da terra alheia
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santíssimo salva/dor salve-me da santa ceia salve-me das virgens de pedra das santas que não são fedras as “padroeiras” do Brasil
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salve-me santíssimo salva/dor da feracidade horrorosa sal-ve-me do encravo e da rosa dos carnavais no mês de abril
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pro diabo não sou santo nem visto o corpo com manto soy couro cru & carne viva soy carne viva & couro cru não tenho a língua que medra soy carNAvalha na piedra my sagrado y profano aprendiz de los hermanos canibais lá do xingu
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não tenho amor pelas santas meu sangue corre nas plantas em minhas mãos esmeril mas tenho amor pelas putas a prostituta que pariu
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santíssimo salva/dor salve-me da dor do desgosto de desfraudar mês agosto bandeiras tropicanalhas salve-me das catequeses dos evangélicos pastores de amores de sacristia salve-me da hipocrisia planalto central céu azul
salve-me deste país e deste estado de surto se é pra xingar não me furto na flor da pele não tem panos
salve-me destes tiranos dos campos da américa do sul
hoje em ti amanheci ana/brasília mesmo não sendo mulher ou filha bem-te-quis meu bem-te-vi ao levitar em tuas asas mergulhei mares que em teus olhos conheci
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Xangô é parte da pedra Exu fagulha de ferro Ogum espada de aço
faz do meu colo teus braços
Oxossi carne da mata Yemanjá água do mar Yansã é fogo vento tempestade
Oxum é água doce Oxalá em ti me trouxe te canto como se fosse um novo deus em liberdade
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sou teu leão de fogo todo jogo que me propor eu topo
beber teu copo comer da tua comida
encarnar de frente a janela de entrada e se for preciso : a porta de saída
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moro no teu mato dentro não gosto de estar por fora tudo que me pintar eu invento como o beijo no teu corpo agora
desejo-te pelo menos enquanto resta partícula mínima micro solar floresta sendo animal da mata atlântica quântico amor ou meta física tudo que em mim não há respostas
metáfora d´alquimim fugaz brazílica beijo-te a carne que te cobre os ossos pele por pele pelas tuas costas
os bichos amam em comunhão na mata como se fosse aquela hora exata em que despes de mim o ser humano e no corpo rasgamos todo pano e como um deus pagão pensamos sexo.
Eu não quero os bibelôs de ontem
nem os olhares e os beijos enterrados
nas cartas deste armário
não quero as memórias estáticas em foto-porta-poeira
Quero a invenção de novos sentidos
percorrer papéis dis-grafados
Sem-escritos
Não busco a memória de um tempo perdido
não dormiria com Proust
nem mesmo amaria nostálgicos homens.
Doaria, sim, este corpo aos versos de M.A
e a poesia da mulher do ponto de ônibus.
beijaria os lábios de Hilst
amaria os amantes dos meus amantes.
O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!
Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente!...
Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!... O vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário
Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir p’la vida fora!!
Florbela Espanca
E acordamos cegos, mudos e incólumes antes do espanto
Alguns elefantes pisotearam teu jardim de verdes sonhos
E a águia foi fazer ninho no chapéu olvidado do avô
Porque as nossas tardes são assim ,ainda, quando esquecemos
O silêncio.
Lembra dos instantes onde a agonia era quase um balsamo?
E das feridas como troféus duma batalha tingida de crepúsculos?
Como era estranho não reconhecer os nossos pecados e rir
E a penitência era alguma fruta roubada na primavera de Maria
Desconhecemos a temporalidade e a métrica das horas
Segundos ou palavras, horas ou rimas e o teu olhar negando as distâncias
Quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem?
Poças de pestilentas larvas já não atraem as borboletas nem os lagartos suicidas
Pergunto-te de novo, quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem...
Flavio Pettinichi- 03- 06- 2010
DE UM LADO E OUTRO
Me fosse dada
a graça
de ser um outro,
aceitaria, quem sabe,
ser você,
você, de corpo e alma,
desde que você,
é claro,
me aceitasse
Artur, essa é pra vc, meu velho ! Abraços, Rogerio
Gomes & Gumes ROGERIO SANTOS(para Artur Gomes)
o gume da brisa avisa que Artur, bardo rei sua poesia metralha entre o calçado e a calçada entre o mar e a muralha da musa de tanga a cangalha bala fala de navalha dos entrefolhos, bocas & beco das garrafas suculentos poemas em pets cruza Crusoé sete mares moura pepita de pirita onde quem cala naufraga Artur é enxada minhoca danada é espada cravada na fenda da palavra (e ai de quem pedra furada)
Se Porém Fosse Portanto Se trezentos fosse trinta o fracasso era um portento se bobeira fosse finta e o pecado sacramento se cuíca fosse banjo água fresca era absinto se centauro fosse anjo e atalho labirinto Se pernil fosse presunto armadilha era ornamento se rochedo fosse vento cabra vivo era defunto se porém fosse portanto vinho branco era tinto se marreco fosse pinto alegria era quebranto se projeto fosse planta simpatia era instrumento se almoço fosse janta e descuido fosse tento se punhado fosse penca se duzentos fosse vinte se tulipa fosse avenca e assistente fosse ouvinte se pudim fosse polentas e São Bento fosse santo dona Benta fosse benta e o capeta sacrossanto se a dezena fosse um cento se cutia fosse anta se São Bento fosse bento e dona Benta fosse santa.
este corpo se conquista com a arte e o engenho dos bárbaros seu movimento risca o espaço preenchendo-o com delicadas linhas de força dilata o olhar na jornada incerta este corpo dança destrói leis da física perfura o ar-livre às vezes carne desgovernada às vezes traço matemático este corpo não mais se sente fratura-se, rompe-se, perde-se é deixado para trás terra-de-ninguém caído no rastro de outro corpo palco incompartilhável este corpo sua multiplica-se atroz depois de desposar, desafiar, seduzir renasce – múltiplo & contraditório – supernovo explodindo em luzes sempre longe do universo ao rés-do-chão bem mais próximo mais tóxico agora não há mais espaço nem ar-livre nem dança só corpo e tudo nele navega – elétrico tudo nele anela – novelo espelho de fora diferente de si e diferente múltiplo & contraditório fora de tudo como um breve sonho da matéria involuntariamente móvel posto pertencer sempre ao azul-metálico & atravessar desertos a seco
abro o corpo ao que lhe é próprio ao mundo e seus resíduos tóxicos ao ópio perfurando pregos no cérebro aos vícios que reviram o branco dos olhos às fumaças que pintam de vermelho o teto das ruas às ficções que rompem o casulo larvar da imaginação reergo as dobras, os ossos, os canais circulatórios as glândulas, as fibras musculares que sustentam o eu mínimo
já não há nada entre alheio e próprio e as certezas foram varridas para fora do mundo sou amigo do caos penetro nos horizontes pelas janelas fechadas pulo parapeitos para que venenos mordam meu corpo que a tudo se acopla sou amigo do caos e bebo fogo na taça do mundo
cansanção, arruda, guiné, daime, comigo-ninguém-pode me protejam da antivontade do olho gordo, da urucubaca, da inveja
que mói e cola as entranhas ao ego delirante, meu corpo se rende ao afeto despedaçado das casas e ruas e rejeita o bom-mocismo da escrita com “missão a cumprir” de “missão” só a demissão dos papéis prontos
e que o poema continue metonímia da pele que raspo com gilete toda manhã (à maneira de Horário poetar) e coço forte quando sinto cheiro de repetição
Sandro Ornellas Do livro: Trabalhos do Corpo e Outros Poemas Físicos Letra Capital – 2007 Contato: e-mail ssornellas@gmail.com
maria da penha olha o namorado : pega mata e come : e não consegue matar a própria fome
brazilíricas
um tapa no branco tragado no preto como instante opus ópio de pessoa como fiapo de manga entrelaçado nos dentes
black Billy
ela tinha um jeito gal – fatal vapor barato toda vez que me trepava as unhas com um gato cantar era seu dom chegava a dominar a voz feito cigarra cigana ébria vomitando doses do seu canto
uma vez só subiu ao palco estrela no hotel das prateleiras companheira de ratos na pele de insetos praticando a luz incerta no auge do apogeu
a morte não é muito mais que um plug elétrico um grito de guitarra – uma centelha logo assim que ela começa algo se espelha na carne inicial de quem morreu ?
não estou nem aqui não quero star me vejo nos arcos
grafitando luas em tuas mãos de chuva
como um domingo no parque
o rei da brincadeira é josé o rei da confusão é joão, um trabalhava na feira ê josé e outro na construção ê joão:
a primeira vez que ouvi(vi) gil na TV era 68, estava eu trancafiado entre as enormes paredes dos dragões da independência em brasília das quadrilhas, e não sabia nada de mim.
cda me disse que o poema vem das tripas do intestino grosso e faustino da vida toda linguagem
todos os dias quando acordo cedo não tenho mais o tempo que passou: renato russo ainda vivo como dantes
domingo no parque
todas manhãs quando acendo a tela me vem o filme suas mãos passeando pelas minhas costas tipo uísque riverdies noise craft pop rock poesia tarde inteira no parque da ruínas muito depois já madrugada na porta de entrada do edifício escuto o grito ela me chama fomos à cerveja no boteco ao lado na subida da Alice até a última porta se fechar minutos depois sentados na pracinha em frente ela devora um hambúrguer com seus lindos dentes eu devorava os dentes dela
canibália city
não sei se febre água fogo fala bala na boca do gatilho o olhar explode dinamite no embrião do caos
de que feito esta cidade? ela atravessa a grana pro marido
eu me deserto me entorto trago a língua endiabrada dentro a boca não me travo
a polícia implode mais um bunker na favela o senado vota a decisão pro ficha limpa
agora me pergunto:
o que é que o marido vai fazer com ela?
O POETA PEDE AO SEU AMOR QUE LHE ESCREVA
Amor de minhas entranhas, morte viva, em vão espero tua palavra escrita e penso, com a flor que se murcha, que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte nem conhece a sombra nem a evita. Coração interior não necessita o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias, tigre e pomba, sobre tua cintura em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura ou deixa-me viver em minha serena noite da alma para sempre escura.
MAIAKOVSKI
urbanicidade
asfalto uma palavra quente mesmo quando chove ex-fria piche nos ossos
janelas : de concreto/carne neste corpo/casa que não mais me habita
beijo o céu da tua boca agora já é outro instante depois de fechar e abrir esta janela para o nada ou para tudo que já veio ou inda virá na vera cruz destes escombros que não mais cidade ainda mordo com os dentes que me resta carnes e frutas bagaços de um sentido solto quando a toalha sobre a mesa não cabe nas metáforas
paula wenke e marcelinha - no studio gravando poesia
Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor.
Clarice Lispector
Paula Wenke nos fala do amor sem medo e sem pudor. Há em seus poemas um poder encantatório, musical e imagético, como se ao invés de se querer poetar, se cantasse. Tal a desenvoltura do ritmo, a harmonia das palavras e a noção exata do tempo poético e das rimas, e com uma linguagem extremamente cuidada, elaborada e moderna.
Paula Wenke traz à poesia escrita por mulheres no Brasil, uma visão ousada do próprio universo feminino, cujo lirismo controlado e, ao mesmo tempo, liberto de preconceitos e pudores, estende uma linha direta entre a sua emoção e a do leitor. Um livro que dança, canta, fala, vibra e fotografa tudo o que nos cerca e que, universalmente, nos abarca: morte, solidão, amor, tragédias sociais, e nossas alegrias cotidianas.
Logo em seu primeiro livro, Paula Wenke nos traz algo dinâmico, lúdico, belo e, principalmente, poético. Sem qualquer tipo de alienação, a autora nos propõe a “festa”, a de Dionísio, a de todos os deuses. Paula Wenke estreia lançando seu olhar perspicaz para dentro e para fora de si mesma, com seu poema fluindo de forma contundente, e, quase sempre, com grande beleza e intensa voltagem poética. Com “Zoom in Zoom out”, a poeta cria uma espécie de “espaço da arte” e - inconscientemente ou não -, quase realiza um estilo novo.
Tanussi Cardoso Poeta e Jornalista. Atual Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro
A entrada no mundo poético de Paula Wenke é um choque de multiplicidade. Seu livro “Zoom inZoom out” é a lente fotográfica, a um tempo digital e analógica, carnal e espirituosa de uma surpreendente estreante. Ela mergulha e logo salta nas águas de uma exuberante feminilidade.
Roberto Athayde, dramaturgo brasileiro mais montado no exterior.
Senzala tem nome gentil: periferia. Correntes? Não! Agora eu uso bolsa-esmola. Não sou escrava, tenho, até, cidadania... Só falta emprego, casa, pão e boa escola. Não sou mais negra. Hoje sou afrodescendente, deram-me cotas para ascensão social. E nas novelas? Já deixei de ser servente... Semidesnuda, eu sou rainha: é carnaval! A cada dia, a vida bate à nossa porta, mostrando a força onipotente do racismo; nosso sofrer, à pele clara, pouco importa... Pra eles, tudo... Para nós, só eufemismo. Dona Isabel, muito obrigada, não deu certo, aqui vivemos, sem ser parte da nação. Nosso amanhã, sem segurança... É tão incerto... Diz, brancamente: não findou a escravidão!
meus lábios em teus ouvidos flechas netuno cupido faca na língua língua na faca a febre em patas de vaca unhas sujas de Lorca cebola pré sal com pimenta na tua língua com coentro tempero sabre de fogo qualquer paixão reinvento
o corpo/mar quando agita na preamar arrebenta espuma/esperma semeia sementes letra por letra na bruma branca da areia sem pensar qualquer sentido grafito em teu corpo despido poemas na lua cheia arturgomes http://pelegrafia.blogspot.com/
Amante II
Internamente Cá dentro O outro que não eu envolve-se volta e revive palavras de um léxico disléxico caduco apagado Recobra dores e amores Inacabadas paixões Reviravoltam-se os sentimentos re-significa ilusões.
Já não procuro a palavra exata que me pudesse explicar: ando pelos contornos onde todos os significados são sutís,são mortais. Não busco prender o momento belo: quero vivê-lo sempre mais com a intensidade que exige a vida, com o desgarramento do salto e da fulguração. E me corto ao meio e me soltod e mim,duplo coração: a que vive, a que narra, a que se debate e a que voa- - na loucura que redimeda lucidez