quinta-feira, 24 de junho de 2010

louvação




singela oração aos blogueiros desocupados

1

no dia 6 de agosto
cachorro que soy louco
com gosto
vou louvar o meu
senhor

2

salve-me
santíssimo salva/dor
da dor
do horror desta cidade
que um dia foi
dos goytacazes
mortos por urubus
da terra alheia

3

santíssimo
salva/dor
salve-me da santa ceia
salve-me
das virgens de pedra
das santas que não são fedras
as “padroeiras” do Brasil

4

salve-me
santíssimo salva/dor
da feracidade horrorosa
sal-ve-me
do encravo e da rosa
dos carnavais
no mês de abril

5

pro diabo
não sou santo
nem visto o corpo com manto
soy
couro cru & carne viva
soy
carne viva & couro cru
não tenho a língua
que medra
soy carNAvalha
na piedra
my sagrado y profano
aprendiz de los hermanos
canibais lá do xingu

6

não tenho amor pelas santas
meu sangue corre nas plantas
em minhas mãos
esmeril
mas tenho amor pelas putas
a prostituta que pariu

7

santíssimo
salva/dor
salve-me da dor
do desgosto
de desfraudar mês
agosto
bandeiras tropicanalhas
salve-me
das catequeses
dos evangélicos pastores
de amores
de sacristia
salve-me da hipocrisia
planalto central
céu azul

salve-me
deste país
e deste estado de surto
se é pra xingar
não me furto
na flor da pele não tem panos

salve-me
destes tiranos
dos campos
da américa do sul

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/
canibália city
http://goytacity.blogspot.com/




experimentações/interlinguagens

1

hoje em ti
amanheci
ana/brasília
mesmo
não sendo
mulher
ou filha
bem-te-quis
meu
bem-te-vi
ao levitar
em tuas asas
mergulhei mares
que em teus olhos
conheci

2

Xangô
é parte da pedra
Exu fagulha de ferro
Ogum espada de aço

faz do meu colo
teus braços

Oxossi carne da mata
Yemanjá água do mar
Yansã é fogo vento tempestade

Oxum é água doce
Oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse
um novo deus em liberdade

3

sou teu leão de fogo
todo jogo
que me propor eu topo

beber teu copo
comer da tua comida

encarnar de frente
a janela de entrada
e se for preciso
:
a porta de saída

4

moro no teu mato dentro
não gosto de estar por fora
tudo que me pintar eu invento
como o beijo no teu corpo agora

desejo-te pelo menos enquanto resta
partícula mínima micro solar floresta
sendo animal da mata atlântica
quântico amor ou meta física
tudo que em mim não há respostas

metáfora d´alquimim fugaz brazílica
beijo-te a carne que te cobre os ossos
pele por pele pelas tuas costas

os bichos amam em comunhão na mata
como se fosse aquela hora exata
em que despes de mim o ser humano
e no corpo rasgamos todo pano
e como um deus pagão pensamos sexo.

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/



o sem nome

não quero o silêncio
como arma
lira lero
de algum bolero
com letra
pra calar boca
água fria no fogo

quero o incêndio
a fogueira
sei o quanto me negas
o fruto proibido

mas oculto na noite
entro por porta dos fundos
e roubo
a maçã do pecado
enquanto dorme
e sonhas
com alices
no país das maravilhas


mergulho tuas ilhas
devasto teus porões
na sala
derrubo tua mobília
no quarto
devasso teus colchões

na cozinha
bebo do teu vinho
e como do teu pão
não tenho nome
sou o que te come
sem pedir perdão


a vingança do vampiro brasileiro

a rosa apodreceu
no jardim das oliveiras
o encravo
deu com a cara no muro
do palácio guanabara

a filha
tem duas caras
aos domingos reza pro santo
nas sextas
pro capataz
há muito tempo meu chapa
venderam a mãe pro diabo
pensando fosse capaz






para uma puta em taguatinga



ela me conta
que seu ex
não quer pagar pensão
e de como a vida
tem sido dura
com ela
ouço sua cantilena
de puta triste
enquanto o ar condicionado
ronrona um soneto desesperado
e sob seus cabelos
um reino de abandono
seduz-me os dedos
neste quarto de hotel barato
numa noite barata
de rimas escassas
vislumbro o corpo
que há pouco
acolheu
minha solidão
salve pequena puta triste
salve doce menina
do alto dos prédios
escárnio
e indiferença
te cobiçam
e nos outdoors
a realidade sorri para a puta
e para o poeta
e todos na cidade
esperam encontrar
um amor
e todos na cidade
buscam alguém
e nesta hora
todos estão voltando
para suas casinhas de boneca
para suas vidas de plástico


Fernando Freire
Gama, 25/06/2010

sábado, 19 de junho de 2010

A-mar-ia

Eu não quero os bibelôs de ontem
nem os olhares e os beijos enterrados
nas cartas deste armário
não quero as memórias estáticas em foto-porta-poeira

Quero a invenção de novos sentidos
percorrer papéis dis-grafados
Sem-escritos
Não busco a memória de um tempo perdido
não dormiria com Proust
nem mesmo amaria nostálgicos homens.

Doaria, sim, este corpo aos versos de M.A
e a poesia da mulher do ponto de ônibus.

beijaria os lábios de Hilst
amaria os amantes dos meus amantes.

Karol Penido
http://aquarelaemversos.blogspot.com/



AO VENTO

O vento passa a rir, torna a passar
Em gargalhadas ásperas de demente;
E esta minh’alma trágica e doente
Não sabe se há de rir, se há de chorar!

Vento de voz tristonha, voz plangente,
Vento que ris de mim sempre a troçar,
Vento que ris do mundo e do amor,
A tua voz tortura toda a gente!...

Vale-te mais chorar, meu pobre amigo!
Desabafa essa dor a sós comigo,
E não rias assim!... O vento, chora!
Que eu bem conheço, amigo, esse fadário

Do nosso peito ser como um Calvário,
e a gente andar a rir p’la vida fora!!

Florbela Espanca



E acordamos cegos, mudos e incólumes antes do espanto
Alguns elefantes pisotearam teu jardim de verdes sonhos
E a águia foi fazer ninho no chapéu olvidado do avô
Porque as nossas tardes são assim ,ainda, quando esquecemos
O silêncio.

Lembra dos instantes onde a agonia era quase um balsamo?
E das feridas como troféus duma batalha tingida de crepúsculos?
Como era estranho não reconhecer os nossos pecados e rir
E a penitência era alguma fruta roubada na primavera de Maria

Desconhecemos a temporalidade e a métrica das horas
Segundos ou palavras, horas ou rimas e o teu olhar negando as distâncias
Quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem?
Poças de pestilentas larvas já não atraem as borboletas nem os lagartos suicidas
Pergunto-te de novo, quem de nós amarrou o corcel antes que as tormentas chegassem...

Flavio Pettinichi- 03- 06- 2010



DE UM LADO E OUTRO

Me fosse dada
a graça
de ser um outro,

aceitaria, quem sabe,
ser você,

você, de corpo e alma,
desde que você,
é claro,
me aceitasse

assim
tal qual eu sou.

Alcides Buss
http://www.alcidesbuss.com.br/




Artur, essa é pra vc, meu velho !
Abraços, Rogerio

Gomes & Gumes
ROGERIO SANTOS(para Artur Gomes)

o gume da brisa avisa
que Artur, bardo rei
sua poesia metralha
entre o calçado e a calçada
entre o mar e a muralha
da musa de tanga a cangalha
bala fala de navalha
dos entrefolhos, bocas
& beco das garrafas
suculentos poemas em pets
cruza Crusoé sete mares
moura pepita de pirita
onde quem cala naufraga
Artur é enxada
minhoca danada
é espada cravada
na fenda da palavra
(e ai de quem pedra furada)

Rogério Santos
Acabei de postar no meu blog

www.folhadecima.blogspot.com

value="http://www.youtube.com/v/J-rgKf4cG9g&hl=pt_BR&fs=1&">

Negra Tez




vestígios do homem no planeta: - fotos: artur gomes








Sou a palavra cacimba
Pra sede de todo mundo
E tenho assim minha alma:
Água limpa e céu no fundo

Já fui remo, fui enxada
E pedra de construção;
Trilho de estrada –de –ferro,
Lavoura, semente , grão
Já fui palavra canga,
Sou hoje a palavra basta.
E vou refugando a manga
Num atropelo de aspa

Meu canto é faca, punhal
Contra o feitor
Dizendo que minha carne
Não é de nenhum senhor

Sou o samba das escolas
Em todos os carnavais
Sou o samba das cidades
E lá dos confins rurais

Sou quicumbi e Moçambique
No compasso do tambor.
Sou o toque de batuque
Em casa gege-nagô

Sou a bombacha do santo
Sou o churrasco de Ogum
Entre os filhos dessa terra
Naturalmente sou um

Sou o trabalho e a luta
Suor e sangue de quem
Nas entranhas dessa terra
Nutre raízes também!!!

dedé muylaert




DUAS FACES

O amor tem duas facas
uma corta outra costura.
O amor tem duas balas
uma mata outra madura.

O amor tem dois olhares
um de calma outro de ira.
O amor tem duas falas
uma cala outra é mentira.

O amor tem duas condutas
uma puta outra santa.
O amor tem duas vozes
uma chora outra canta.

O amor é dois e sendo
trás em si contradições
Zeca Tocantins



dedos dados

a mão nessa garrafa
não tem lance de dados
mas tem
dedos de louça
sensíveis
dedos de fada

pensando Cecília Meireles
não sei se alegres
ou tristes

mas sei:
esses dedos existem

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/



canibália city 1

poema anti metafórico

maria da penha
olha o namorado
:
pega mata e come
:
e não consegue
matar a própria fome


arturgomes
brazilíricas

um tapa no branco
tragado no preto
como instante opus
ópio de pessoa
como fiapo de manga
entrelaçado nos dentes




DECISÃO


Rompi relações
com a burguesia.


Ele só paga
em dinheiro.


Eu só recebo
em poesia.

Zeca Tocantins


Do Livro Colhedor de Manhãs.




CONFISSÃO


Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém

Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios

Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...

Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!

Mário Quintana

sábado, 12 de junho de 2010

Se Porém Fosse Portanto

Se Porém Fosse Portanto
Se trezentos fosse trinta
o fracasso era um portento
se bobeira fosse finta
e o pecado sacramento
se cuíca fosse banjo
água fresca era absinto
se centauro fosse anjo
e atalho labirinto
Se pernil fosse presunto
armadilha era ornamento
se rochedo fosse vento
cabra vivo era defunto
se porém fosse portanto
vinho branco era tinto
se marreco fosse pinto
alegria era quebranto
se projeto fosse planta
simpatia era instrumento
se almoço fosse janta
e descuido fosse tento
se punhado fosse penca
se duzentos fosse vinte
se tulipa fosse avenca
e assistente fosse ouvinte
se pudim fosse polentas
e São Bento fosse santo
dona Benta fosse benta
e o capeta sacrossanto
se a dezena fosse um cento
se cutia fosse anta
se São Bento fosse bento
e dona Benta fosse santa.

Cacáso - Antônio Carlos de Brito

sexta-feira, 11 de junho de 2010

aboio




ainda tarde
mas é tempo

tempo futuro
é agora
tempo presente
já foi

por isso
inda toco meu boi
não boto conversa fora




canibália city 2
um poema ácido

os fantasmas
ainda sobrevoam
sobre telhados de vidro

laranjas continuam espalhados
aos quatro ventos

algo de podre fede
em goyta city
e nenhum perfume
é capaz de apagar
o odor da lama bruta

se na esquina
o bandido tem direito
de exercer a profissão

não quer dizer
que político
pode saquear a coisa pública
como se fosse privada

onde nem descarga
consegue descer
a merda
do ralo pro esgoto


e o mais escroto
disso tudo
é saber que não foi
esse tipo de poder
que o povo lhe concedeu

arturgomes
http://goytacity.blogspot.com/

bela mais que bela

sensualidade em tua boca
é mato
eu sei do fato que me prende
ao teu sorriso
o siso que me atrai
quando atiça

larissa tens no nome
miranda o sobrenome

na película do meu filme
quero tua pele no acetato

e
na cardiografia do poema
te foto grafo no cinema
para o meu álbum de retrato


maralto

não entre
neste mar
em tempestade

as gaivotras
sobrevoam
a praia
e só mergulham
quando o mar
está pra peixe

teu corpo
não merece
os dentes
de tubarões famintos

tua carne
é hóstia
para outras missas

o teu sangue
vinho
para outros
dentes


artur gomes
marca registrada – poema de Artur Gomes
musicado e cantado por Luiz Ribeiro

segunda-feira, 31 de maio de 2010

trabalhos do corpo




este corpo se conquista com a arte e o engenho dos bárbaros
seu movimento risca o espaço
preenchendo-o com delicadas linhas de força
dilata o olhar na jornada incerta
este corpo dança
destrói leis da física
perfura o ar-livre
às vezes carne desgovernada
às vezes traço matemático
este corpo não mais se sente
fratura-se, rompe-se, perde-se
é deixado para trás
terra-de-ninguém
caído no rastro de outro corpo
palco incompartilhável
este corpo sua
multiplica-se atroz
depois de desposar, desafiar, seduzir
renasce – múltiplo & contraditório –
supernovo explodindo em luzes
sempre longe do universo
ao rés-do-chão
bem mais próximo
mais tóxico
agora não há mais espaço
nem ar-livre
nem dança
só corpo
e tudo nele navega – elétrico
tudo nele anela – novelo
espelho de fora
diferente de si e diferente
múltiplo & contraditório
fora de tudo
como um breve sonho da matéria
involuntariamente móvel
posto pertencer sempre ao azul-metálico
& atravessar desertos a seco

sandro ornellas
in Trabalhos do Corpo & Outros Poemas Físicos
Letra Capital – 2007
contato: ssornellas@gmail.com
http://simuladordevoo.blogspot.com/

trilhos urbanos

sexta-feira, 28 de maio de 2010

lavra/poema




todos os poetas
já cantaram suas musas:

mayara bethânia clarice
alice bárbara isadora

qual o nome
que ainda
não disse
na lavra
do poema
agora

artur gomes

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Quero apenas cinco coisas


Rosiane Terzi - auto retrato






Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.




Pablo Neruda

segunda-feira, 24 de maio de 2010

mundaneidade

para waly Salomão, em memória

abro o corpo ao que lhe é próprio
ao mundo e seus resíduos tóxicos
ao ópio perfurando pregos no cérebro
aos vícios que reviram o branco dos olhos
às fumaças que pintam de vermelho o teto das ruas
às ficções que rompem o casulo larvar da imaginação
reergo as dobras, os ossos, os canais circulatórios
as glândulas, as fibras musculares que sustentam o eu mínimo

já não há nada entre alheio e próprio
e as certezas foram varridas para fora do mundo
sou amigo do caos
penetro nos horizontes pelas janelas fechadas
pulo parapeitos para que venenos mordam meu corpo
que a tudo se acopla
sou amigo do caos e bebo fogo na taça do mundo

cansanção, arruda, guiné, daime, comigo-ninguém-pode
me protejam da antivontade do olho gordo, da urucubaca,
da inveja

que mói e cola as entranhas ao ego
delirante, meu corpo se rende
ao afeto despedaçado das casas e ruas
e rejeita o bom-mocismo da escrita com “missão a cumprir”
de “missão” só a demissão dos papéis prontos

e que o poema continue metonímia da pele
que raspo com gilete toda manhã (à maneira de Horário poetar)
e coço forte quando sinto cheiro de repetição

Sandro Ornellas
Do livro: Trabalhos do Corpo e Outros Poemas Físicos
Letra Capital – 2007
Contato: e-mail ssornellas@gmail.com
http://simuladordevoo.blogspot.com/


canibália city 1
poema anti metafórico

maria da penha
olha o namorado
:
pega mata e come
:
e não consegue
matar a própria fome


brazilíricas


um tapa no branco
tragado no preto
como instante opus
ópio de pessoa
como fiapo de manga
entrelaçado nos dentes


black Billy

ela tinha um jeito gal – fatal vapor barato
toda vez que me trepava as unhas com um gato
cantar era seu dom
chegava a dominar a voz feito cigarra
cigana ébria vomitando doses do seu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos na pele de insetos
praticando a luz incerta no auge do apogeu

a morte
não é muito mais que um plug elétrico
um grito de guitarra – uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha
na carne inicial de quem morreu
?

Arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

quinta-feira, 20 de maio de 2010

brazilíricas









me espanta o espanto do gullar

com o poema que não vem





não estou nem aqui
não quero star
me vejo nos arcos


grafitando luas
em tuas mãos de chuva

como um domingo no parque





o rei da brincadeira é josé o rei da confusão é joão, um trabalhava na feira ê josé e outro na construção ê joão:


a primeira vez que ouvi(vi) gil na TV era 68, estava eu trancafiado entre as enormes paredes dos dragões da independência em brasília das quadrilhas, e não sabia nada de mim.





cda me disse que o poema vem
das tripas do intestino grosso
e faustino da vida toda linguagem





todos os dias quando acordo cedo
não tenho mais o tempo que passou:
renato russo ainda vivo como dantes





domingo no parque





todas manhãs quando acendo a tela me vem o filme suas mãos passeando pelas minhas costas tipo uísque riverdies noise craft pop rock poesia tarde inteira no parque da ruínas muito depois já madrugada na porta de entrada do edifício escuto o grito ela me chama fomos à cerveja no boteco ao lado na subida da Alice até a última porta se fechar minutos depois sentados na pracinha em frente ela devora um hambúrguer com seus lindos dentes eu devorava os dentes dela





canibália city





não sei se febre água fogo fala
bala na boca do gatilho
o olhar explode dinamite
no embrião do caos



de que feito esta cidade?
ela atravessa a grana pro marido



eu me deserto
me entorto
trago a língua endiabrada
dentro a boca
não me travo



a polícia implode
mais um bunker na favela
o senado vota a decisão
pro ficha limpa



agora me pergunto:



o que é que o marido
vai fazer com ela?


O POETA PEDE AO SEU
AMOR QUE LHE ESCREVA


Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.

O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.


Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.

Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

MAIAKOVSKI


urbanicidade

asfalto
uma palavra quente
mesmo quando chove
ex-fria piche nos ossos

janelas
:
de concreto/carne
neste corpo/casa
que não mais me habita

arturgomes
http://artur-gomes.blogpspot.com/

beijo o céu da tua boca agora já é outro instante depois de fechar e abrir esta janela para o nada ou para tudo que já veio ou inda virá na vera cruz destes escombros que não mais cidade ainda mordo com os dentes que me resta carnes e frutas bagaços de um sentido solto quando a toalha sobre a mesa não cabe nas metáforas

terça-feira, 18 de maio de 2010

alguma poesia


paula wenke e marcelinha - no studio gravando poesia







Todos os dias, quando acordo, vou correndo tirar a poeira da palavra amor.

Clarice Lispector

Paula Wenke nos fala do amor sem medo e sem pudor. Há em seus poemas um poder encantatório, musical e imagético, como se ao invés de se querer poetar, se cantasse. Tal a desenvoltura do ritmo, a harmonia das palavras e a noção exata do tempo poético e das rimas, e com uma linguagem extremamente cuidada, elaborada e moderna.

Paula Wenke traz à poesia escrita por mulheres no Brasil, uma visão ousada do próprio universo feminino, cujo lirismo controlado e, ao mesmo tempo, liberto de preconceitos e pudores, estende uma linha direta entre a sua emoção e a do leitor. Um livro que dança, canta, fala, vibra e fotografa tudo o que nos cerca e que, universalmente, nos abarca: morte, solidão, amor, tragédias sociais, e nossas alegrias cotidianas.

Logo em seu primeiro livro, Paula Wenke nos traz algo dinâmico, lúdico, belo e, principalmente, poético. Sem qualquer tipo de alienação, a autora nos propõe a “festa”, a de Dionísio, a de todos os deuses. Paula Wenke estreia lançando seu olhar perspicaz para dentro e para fora de si mesma, com seu poema fluindo de forma contundente, e, quase sempre, com grande beleza e intensa voltagem poética. Com “Zoom in Zoom out”, a poeta cria uma espécie de “espaço da arte” e - inconscientemente ou não -, quase realiza um estilo novo.

Tanussi Cardoso
Poeta e Jornalista.
Atual Presidente do Sindicato dos Escritores do Estado do Rio de Janeiro

A entrada no mundo poético de Paula Wenke é um choque de multiplicidade. Seu livro “Zoom in Zoom out” é a lente fotográfica, a um tempo digital e analógica, carnal e espirituosa de uma surpreendente estreante. Ela mergulha e logo salta nas águas de uma exuberante feminilidade.

Roberto Athayde, dramaturgo brasileiro mais montado no exterior.


Coração Vagabundo – Gal Costa



Coração Vagabundo

Meu coração não se cansa
De ter esperança
De um dia ser tudo o quer quer
Meu coração de criança
Não é só lembrança
De um vulto feliz de mulher
Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Caetano Veloso

segunda-feira, 17 de maio de 2010

janela indiscreta em rio de cinzas


centro são paulo: foto - artur gomes








ALFORRIA- 13 de maio

Senzala tem nome gentil: periferia.
Correntes? Não! Agora eu uso bolsa-esmola.
Não sou escrava, tenho, até, cidadania...
Só falta emprego, casa, pão e boa escola.
Não sou mais negra. Hoje sou afrodescendente,
deram-me cotas para ascensão social.
E nas novelas? Já deixei de ser servente...
Semidesnuda, eu sou rainha: é carnaval!
A cada dia, a vida bate à nossa porta,
mostrando a força onipotente do racismo;
nosso sofrer, à pele clara, pouco importa...
Pra eles, tudo... Para nós, só eufemismo.
Dona Isabel, muito obrigada, não deu certo,
aqui vivemos, sem ser parte da nação.
Nosso amanhã, sem segurança... É tão incerto...
Diz, brancamente: não findou a escravidão!

- Patrícia Neme -




JORGE DA CAPADOCIA

Jorge sentou na praça
na cavalaria
eu estou feliz
porque eu também
sou da sua companhia


Eu estou vestido
com as roupas
e as armas de jorge
para que meu inimigos
tenham pés e não me alcancem
para que meus inimigos
tenham mãos e não me toquem
para que meus inimigos
tenham olhos e não me vejam
e nem mesmo pensamento
eles possam ter
para me fazerem mal


armas de fogo
meu corpo não alcançarão
facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar
cordas e correntes se arrebentem
sem o meu corpo amarrar
pois eu estou vestido
com as roupas e as armas de jorge


jorge é de capadócia
salve jorge, salve jorge
salve jorge, salve jorge
Jorge Ben Jor






que pensa que letra
que leia que linha
que linha que veia
que sangue de vinha
palavra que lava
que lavra sozinha
pulsando na lira
que mira que tinha
que rima que canta
que tanta que minha
palavra que alvo
que salvo da rinha


rodrigo mebs


DOS NOSSOS MALES

A nós bastem nossos próprios ais,
Que a ninguém sua cruz é pequenina.
Por pior que seja a situação da China,
Os nossos calos doem muito mais...

Mario Quintana
Janela indiscreta em rio de cinzas

quinta-feira, 13 de maio de 2010

uma caneta pelo amor de deus





Poema de Artur Gomes musicado e cantado por Luizz Ribeiro
Com participações de Sérgio Máximo(violão), Henrique(guitarra) e
Clara Brito (vocais)

Ind/gesta

uma caneta pelo amor de deus
uma máquina de escrever
uma câmera por favor
quero um computador
nem que seja pós moderno

vamos fazer um filme
vamos criar um filho
deixa eu amar a lídia
que a mediocridade
desta idade mídia
não coca cola mais
nem aqui nem no inferno

arturgomes
http://carnavalhagumes.blogspot.com/


fulinaíma blues poesia
Artur Gomes, Luiz Ribeiro e Fil Buc
Dia 21/5 em Macaé na
III Feira de RSE Bacia de Campos



Veja programação aqui: http://goytacity.blogspot.com/

A flor da pele

meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
faca na língua língua na faca
a febre em patas de vaca
unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
na tua língua com coentro
tempero sabre de fogo
qualquer paixão reinvento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma/esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes

http://pelegrafia.blogspot.com/

Amante II

Internamente
Cá dentro
O outro que não eu
envolve-se volta e revive
palavras de um léxico
disléxico
caduco
apagado
Recobra dores e amores
Inacabadas paixões
Reviravoltam-se os sentimentos
re-significa ilusões.

Karol Penido
http://aquarelaemversoa.blogspot.com/

Já não procuro a palavra exata
que me pudesse explicar:
ando pelos contornos onde todos os significados
são sutís,são mortais.
Não busco prender o momento belo:
quero vivê-lo sempre mais com a intensidade que exige a vida,
com o desgarramento do salto e da fulguração.
E me corto ao meio e me soltod e mim,duplo coração:
a que vive,
a que narra,
a que se debate
e a que voa-
- na loucura que redimeda lucidez
Lya Luft
Anímico
Nasceu no meu jardim um pé de mato
que dá flor amarela.
Toda manhã vou lá pra escutar a zoeira
da insetaria na festa.
Tem zoada de todo jeito:
tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.
É pata, é asas, é boca, é bico, é grão de
poeira e pólen na fogueira do sol.
Parece que a arvorinha conversa.
Adélia Prado

segunda-feira, 3 de maio de 2010

foto pele grafia



meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
faca na língua língua na faca
a febre em patas de vaca
unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
na tua língua com coentro
tempero sabre de fogo
qualquer paixão reinvento
o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma/esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/


Amante I

o ser humano
é um pulsar pulsante
ante
pós
constante
que inunda o mundo
de vicerais amantes.


Karol Penido



fulinaíma blues poesia

Artur Gomes, Luiz Ribeiro e Fil Buc
Dia 21/5 em Macaé na
III Feira de RSE Bacia de Campos

Veja programação aqui: http://goytacity.blogspot.com/

a lavra da palavra quero
onde Mayara bruma
já me diz espero

saliva na palavra espuma
onde tua alma é uma
elétrica pulsação de Eros

a dança do teu corpo vero
onde tua alma luna
e o meu corpo impluma
valsa por laguna em beijos e boleros

Artur Gomes e Fil Buc – Overdose Politfônica




sorocaba blues – Artur Gomes, Reubes Pess e Ângelo Nani,
filmados na casa cenográfica em Taubaté, por Márcio
Vaccari e Andréia Moreira Lima





uma câmera indiscreta pelas ruas de Bento




tão pimenta tão petróleo – poema de Salgado
Maranhão, musicado e cantado por Zeca Baleiro





Sorocaba Blues

o cheiro de terra fendida
ainda está sob os sapatos
a carne assado ao sol
na poeira das estradas
sob o prato o gosto que restou da boca
o pudor dos seus guardados
o orgasmo que não veio

depois do primeiro susto
Virgínia então vem a mim
faminta com os seus desejos
mastiga da minha carne
e deixa as sobras
pros meus beijos

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com

feito um verso viro o lado
e no (re)verso violado
feito um vírus violento
outro verso desvairado
me cai no átimo de um momento

remédio para o verso
eficaz nenhum conheço
sei que o tédio ao avesso
é um bom início é até capaz
confesso

faço versos quando inspirado
dropando um cut back a onda
do tormento
às vezes versejo só porque começo
outras só por mero esquecimento

Dedé Muylaert

segunda-feira, 19 de abril de 2010

I Festival de Teatro aberto de Campos








De 29 Abril a 2 de Maio
veja toda programação aqui http://goytacity.blogspot.com/
Poemas ao Mar: Convocação: saiba o que é aqui:
http://barkaca.blogspot.com/
Márcio Almeida Prestreia em Germina confira:
http://www.germinaliteratura.com.br/2010/prestreia_mar10.htm

se for poema fogo do desejo: May Pasquetti e Artur Gomes
filmados por Jiddu Saldanha no Parque das Ruínas




a lavra da palavra quero
quando for pluma mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
onde a lavra explora
se é saudade dói mas não demora
e sendo fauna linda como a flora
lua Luanda vem não vá embora
se for poema fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

arturgomes

http://pelegrafia.blogspot.com/

Trilhos Urbanos


Entre por esta porta agora



Os olhos das crianças....

Olhemos os olhos das crianças, que eles encerram mistérios;
dentro de suas pupilas moram selvagens bons,
pairam neles lendas de terras desconhecidas.

Olhemos os olhos das crianças;
quando com eles cruzamos nossos olhos,
há reconhecimentos súbitos e reminiscências que revivem.

Que ausência de ouro e prata existe neles!
Que verdes potros relincham em suas colinas!
Que indiferença pelas arcas ricas!
Como se parecem com os olhos dos poetas!

Olhemos os olhos das crianças,
desprevenidos de crimes e borrascas,
inconscientes entre Bem e o Mal
sempre transparentes como a água e o mel.

Olhemos os olhos das crianças,
com seus horizontes claros, claros,
capazes de deixas transparecer
o avô curvado e trêmulo
o pai de sobrecasaca e a menina mãe.

[...] Olhemos os olhos das crianças
para repousar nestes céus sem pensamento
a angústia de pátrias distantes
e as constelações que já morreram.


JORGE DE LIMA

poesia tem perna curta

teu segredo é publicado
na escrita feita em senha
profunda ferida que tenha
tem teu sangue coagulado
se a verdade ainda é rara
e a superfície imaginária
no meu poema descarado
o teu segredo se declara
feito bêbado apaixonado
que com amor se depara

rodrigo mebs
overdose sonora em santa Teresa


sorocaba blues


cairo trindade e deniziz trindade - a dupla do prazer


rio em pele feminina



narciso acha feio o que não é espelho


o amor tem caminhos estranhos -


palvrARte até a morte – artur gomes e igor fagundes filmados por jiddu saldanha


may interpreta artur gomes – um filme de jiddu saldanha


juninho gênio


sexta-feira, 16 de abril de 2010

Alimentação Básica


acordei com um sopro
que pensei poema
era tão claro, tão definitivo
nunca poderia esquecê-lo
não o escrevi de pronto
escovar os dentes cuidar do gato
ouvir as notícias
quando vi já não estava
foi-se em forma e sentido
e me deixou deserta
eu, que tanto peço água


Lição

Eu ria dos solitários.
Quem tem a si já tem alguém.
Mas ontem não escrevi
nem anteontem e há tempos.
Reluto em dizer: não escrevo.
E coragem: não escrevo mais.
Isso é solidão.
E é mais que solidão
é ser nenhum
nenhuma
nada
ninguém.


Providencial

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Fernando Pessoa


No auge da tristeza arrebatada
um soneto: queixa e desabafo.
Qual queixa
qual desabafo
qual soneto
Eis que a providência me levanta:
não queiras combater o teu contrário.
Segue o rumo da existência
como a água procura o estuário.
Ama teus belos amigos
que os tens sempre, novos e antigos
e saibas a cada novo dia:
a verdade não anda só contigo.


Helena Ortiz


Beatriz a Faustino

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.

pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora

quinta-feira, 15 de abril de 2010

à falta que me sobra


quando bate a saudade
me apanha
em toda parte
essa cidade me acompanha


Rodrigo Mebs
http://frutafarta.blogspot.com/

Do tal amor

É coisa de outro mundo
Esse amor fecundo
Que tange no ventre

É coisa de outro mundo
Esse amor profundo
Que range os dentes

É lisura, é orgasmo
Quando o tal amor palpita
Nada classifica
A genuinidade dessa esfera

É fissura, é espasmo
Quando o tal amor precipita
Nada explica
A gravidade dessa fera

Cris de Souza
http://tremdalira.blogspot.com/

A Implosão da Mentira
Affonso Romano de Sant'Anna

Fragmento 1

Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.

E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.

Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.

Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

Fragmento 2

Evidente/mente a crer
nos que me mentem
uma flor nasceu em Hiroshima
e em Auschwitz havia um circo
permanente.

Mentem. Mentem caricatural-
mente.

Mentem como a careca
mente ao pente,
mentem como a dentadura
mente ao dente,
mentem como a carroça
à besta em frente,
mentem como a doença
ao doente,
mentem clara/mente
como o espelho transparente.

Mentem deslavadamente,
como nenhuma lavadeira mente
ao ver a nódoa sobre o linho. Mentem
com a cara limpa e nas mãos
o sangue quente. Mentem
ardente/mente como um doente
em seus instantes de febre. Mentem
fabulosa/mente como o caçador que quer passar
gato por lebre. E nessa trilha de mentiras
a caça é que caça o caçador
com a armadilha.
E assim cada qual
mente industrial? mente,
mente partidária? mente,
mente incivil? mente,
mente tropical? mente,
mente incontinente? mente,
mente hereditária? mente,
mente, mente, mente.
E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

Fragmento 3

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.

Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.
Por isto, desta vez, não é Galileu
quem mente.
mas o tribunal que o julga
herege/mente.

Mentem como se Colombo partin-
do do Ocidente para o Oriente
pudesse descobrir de mentira
um continente.

Mentem desde Cabral, em calmaria,
viajando pelo avesso, iludindo a corrente
em curso, transformando a história do país
num acidente de percurso.

Fragmento 4

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

Penso nos animais que nunca mentem.
mesmo se têm um caçador à sua frente.

Penso nos pássaros
cuja verdade do canto nos toca
matinalmente.

Penso nas flores
cuja verdade das cores escorre no mel
silvestremente.

Penso no sol que morre diariamente
jorrando luz, embora
tenha a noite pela frente.

Fragmento 5

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.

Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

(Poema publicado no JB em 1984, quando do episódio do Rio Centro e em diversas antologias do autor. Está em “ Poesia Reunida” L&PM, 1999, v.2)


ESPANTOS

molhar a palavra
por onde ela poreja
numa nuvem movimento

sangre, paisagem,
— livre do corpo —
sem forçar a vista para ler
a praia pura e sem vestígios

por onde a dura
duna declina o mantra
do vento e seus íntimos

eventos a se precipitar
num por-de-sol salmão
por todos os lados do ser

chiado de mar, estóica
estática,
estátuas esmeraldas, suadas,
baixando os olhos brancos

na face simultânea do agora.
e este, em seus caprichos,
suspenso num fio claro
de fala que se demora

mais, ainda mais, na mão
aonde o passado
beija o presente
e diz a senha
e entrega a pista:

a luz parando numa parede.

Rodrigo Garcia Lopes
http://estudiorealidade.blogspot.com

Sinto que o mês presente me assassina

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.

Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.

Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.

Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.

Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.

O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

Mário Faustino

O Poeta Mário Faustino
Gilfrancisco

A rigor, Mário Faustino dispensa apresentação, mas nunca é demais insistir na sua permanente atualidade e no seu alto nível de realização literária. Jornalista, poeta, tradutor, crítico literário e advogado provisionado, foi um dos fundadores da Associação Brasileira de Escritores do Pará, pertenceu ao Conselho Nacional de Economistas, ocupou o cargo de chefia na superintendência do Plano de Valorização Econômica da amazonas. Mário Faustino dos Santos e Silva, nasceu em Teresina-Piauí, a 22 de outubro de 1930.

Em 1956, passa a morar no Rio de Janeiro, sobrevivendo como professor de várias matérias na Escola de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas. Concomitantemente, passou a assinar a página Poesia-Experiência do suplemento Dominical do Jornal do Brasil, mantida de 23 de setembro de 1956 até 1º de novembro de 1958. Somente em 1977 parte destes artigos foram compilados pelo crítico Benedito Nunes e publicados em livro, prefaciado por esse mesmo crítico, pela Editora Perspectiva.

Em 1959, Mário Faustino foi incorporado ao quadro de redatores do Jornal do Brasil. Em dezembro do mesmo ano, segue para os Estados Unidos para trabalhar na ONU, onde permanece até 1962. Tendo estagiado em vários jornais da América do Norte, Faustino falava fluentemente o inglês, francês, alemão, italiano e espanhol. Realizou importantes trabalhos de interpretação para o Museu de Arte Moderna e continuava ligado a ONU como diretor-adjunto do Centro de informações, em Nova Iorque.

Ainda em 1962, foi editor-geral da Tribuna de Imprensa por curto período. Sua vida, bruscamente interrompida a 27 de novembro daquele mesmo ano, quando o avião em que viajava com destino ao México, em missão jornalística, chocou-se com uma montanha em Las Palmas, subúrbio de Lima-Peru, depois de uma escala.

Suplemento Literário – Matutino fundado no Rio de Janeiro a 9 de abril de 1891, o Jornal do Brasil sofreu a primeira reforma gráfica na gestão de Rui Barbosa, que trocou o “z” de Brasil por um “s”. Seis meses depois da fundação, Joaquim Nabuco assumiu a chefia da redação e escreveu uma série de artigos (As ilusões republicanas e outras ilusões) que provocaram o empastelamento do jornal.

Em 1892, a sua propriedade passou a uma sociedade anônima. A 21 de maio de 1893, Rui Barbosa assumiu a direção de redação, que logo foi forçado a deixar, asilando-se na embaixada do Chile. O jornal passou, então, à propriedade de Fernando Mendes de Almeida, transferindo-se em 1918, para o conde Ernesto Pereira Carneiro, que o conservou até a morte em 1954, quando o controle foi assumido por sua viúva, Maurina Dunshee de Abranches Pereira. Após sua morte em 1983, assumiu a presidência M. F. do Nascimento Brito.

Mesmo o Jornal do Brasil, tradicional periódico especializado em anúncios classificados, não escaparia ao surto da modernidade desenvolvimentista do país. Desta forma, é que, em 1958, sob a responsabilidade do poeta maranhense Odylo Costa Filho (1914-1979), o JB passa por mais uma mudança.

De layout novo, teve em Reinaldo Jardim e no artista plástico Amílcar de Castro os operadores da modificação, que sob as ordens do signo construtivista, direcionavam-se para a criação de novo modelo gráfico-visual.

Lançado a 3 de junho de 1956 o Suplemento Dominical do Jornal do Brasil –SDJB, a primeira fase foi preparatória e anunciadora da reformulação geral de 1958. A segunda fase, que terminaria na virada de 1959 para 1960, sentiu o ápice de importância, ao padronizar sua diagramação e pauta em torno das questões da vanguarda concretista, da ensaística e da tradução de inéditos textos críticos acerca da literatura e das artes.

A página-seção Livro de Ensaios – dividida em boxes que representam páginas de livros – surge para prover essa rápida atualização, revelam críticos como Augusto e Haroldo de Campos, José Lino Grünewald, Ferreira Gullar, Oliveira Bastos que manifestam os seus pontos de vista. Ezra Pound, Mallarmé, Sartre, Segui Eisenstein, Henry James, Beckett, Apollinaire freqüentam, semanalmente as edições dominicais.

As mudanças aceleradas do SDJB no espaço jornalístico e da cena cultural brasileira, chegam através da arrojada página Poesia-Experiência, dirigida por Mário Faustino entre 1956 e 1958, que teve atuação importante como poeta e crítico de poesia, é um autor de feição moderna, renovador e aperfeiçoador de formas herdadas da tradição, inventor de formas novas flexíveis.

Eclética como o próprio suplemento, propõe-se promover os novos poetas e operar uma ampla revisão da poesia antiga, mostrando o moderno que existe tanto em Lucrécio quanto em Mallarmé. O lema, estampado na página, é “Repetir para aprender, criar para renovar”. Esse credo de origem poundiana “make it new”, capaz de re-atualizar as formas do passado em função das exigências do presente, praticado com rigor por Mário Faustino, reveste-se de um tom grave que é próprio das diversas experiências artísticas da década.

Aprendendo e ensinando foi o principal papel da página Poesia-Experiência, uma peça importante na construção da modernidade. Pois Mário Faustino cumpriu esse papel com eficiência, estampando “exemplos” a cada semana em suas páginas, preenchendo os requisitos de racionalidade e economia para atingir a “eficácia” poética.

Poesia – Poeta circular, que se reescreve retomando os mesmos temas fundamentais, e que também reescreve a poesia, Mário Faustino tem uma obra pontilhada de referências. Não é só um dos maiores poetas contemporâneos brasileiros, mas também um poeta por excelência, modelar, por ser o poeta da experiência do poético, da essência da poesia como participação e amplicidade, como um complexo emaranhado de textos e biografias.

Considerado um poeta de síntese e de confluência de linguagem, cultor de versos inventivos, é detentor de um estilo pessoal e inconfundível, que confere unidade e esta variedade de tratamentos formais,fazendo com que cada poema sempre remeta ao conjunto, à totalidade de sua obra. Ou seja, como seu vasto campo de referências ampliando o próprio espaço da linguagem, Mário Faustino, nos remete a um tema que continua atual e presente.

Não há dúvida que o concretismo provocou uma quase radical transformação na maneira como Mário Faustino abordava o poema. E é fácil verificar tal transformação ao se confrontar os trabalhos do seu primeiro livro publicado em 1955, O Homem e sua Hora. Com suas últimas produções, reunindo toda a experiência de um poeta que se sobressai por sua cultura extraordinária e um alto sentido de pesquisa da linguagem, elevando o verso àquela tensão decorrente de um conceito de que a poesia é concentração, é alta voltagem.

Sobre essa influência, Mário Faustino esclarece: “ Não, não sou concretista. Minha formação é muito parecida com a dos poetas Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos e José Lino Grünewald, mas certos aspectos e maneira dessa mesma formação, bem como, e sobretudo, certas condições pessoais, nos colocaram e nos colocam em posição bem distintas, por mais que pareçam aproximadas aos menos informados. Os poetas acima são nitidamente inventores, no sentido poundiano, por mais que este ou aquele venha a ser também um mestre”.[1] Portanto, a poesia de Mário Faustino é leitura obrigatória a todo jovem que se disponha a exercer uma vocação para a qual não basta o talento, a inteligência, a experiência.

Livro Póstumo – Foi através do poeta/ensaísta Haroldo de Campos (1929-2003) que fiquei sabendo da existência dos originais da “Evolução da Poesia Brasileira”, publicado por Mário Faustino em Poesia-Experiência, Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, entre 31 de agosto a 21 de dezembro de 1958, em dez números consecutivos, que se encontrava em poder do escritor e professor da Universidade Federal do Pará, Benedito Nunes.

Em outubro de 1989, na qualidade de pesquisador da Fundação Casa de Jorge Amado e participante do X Encontro Nacional dos Estudantes de Letras –ENEL (9 a 13 de outubro), que se realizaria em Belém do Pará, recebi incumbência do editor desta instituição, Claudius Portugal, para convencer Benedito Nunes a ceder os originais para publicação em forma de livro, a ser incluído na coleção Casa de Palavra da FCJA.

Em 5 de janeiro de 1990, recebo a primeira correspondência de Benedido Nunes, a cerca dos originais: “... está sendo datilografado o trabalho de Mário Faustino – Evolução da Poesia Brasileira – para os cadernos. Quando estiver pronto, um amigo meu lhe enviará. Sigo amanhã para os Estados Unidos: Universidad de Vanderbilt, Nashville, Tennessee – Department of Spanish and Portuguese”. Vinte meses depois, receberia a segunda correspondência, datada de 20 de setembro de 1991: “Eis o escrito de Mário Faustino. Estou à sua disposição para esclarecer qualquer dúvida e, se for o seu interesse, apesar da demora na remessa, mando-lhe cordial abraço”.

Graças a minha insistência de baiano, após várias conversas por telefone e cartas, consegui finalmente os originais do poeta/tradutor Mário Faustino, que foram publicados em noite de autógrafo de 23 de agosto de 1993, com a presença do próprio Benedito Nunes. Evolução da Poesia Brasileira, reúne treze artigos de Mário Faustino, que de cada vez ocupava uma página inteira, ou seja, o espaço todo do folhetim Poesia-Experiência.

Como bem observou o crítico Benedito Nunes “A crítica de Mário Faustino, escrevi na apresentação de Evolução da Poesia Brasileira que a Fundação Casa de Jorge Amado acaba de editar, é uma crítica que fez de um legado poético a resguardar; anti-tradicionalista, pela sua inclinação inventiva e descobridora, a ir ao encontro do presente, pondo-se a serviço da inovação que abriria essa linguagem para as suas possibilidades futuras. Talvez se possa falar nos mesmos termos, como um misto de tradicionalismo e anti-tradicionalismo – o que tentarei fazer aqui – da poesia de Mário Faustino, da obra poética desse crítico de poesia”. [2]

Obras – Embora falecido aos 32 anos de idade os apreciadores de sua obra estranham a raridade de menções para com o legado qualitativo deste poeta e crítico aguçado, tanto em relação à nossa literatura, quanto em relação as literaturas inglesa e francesa, das quais foi grande estudioso. Mário Faustino deixou-nos ricos ensinamentos, igualmente no campo jornalístico ao colaborar, desde os dezesseis anos de idade (1946), numa coluna diária no jornal Província do Pará, e na Folha do Norte, onde foi diretor de redação e publicou seus primeiros poemas e traduções da poesia norte-americana, inglesa e francesa.

Ao viajar por longo período pelos Estados Unidos da América estudioso obsessivo como era, pode colher intensa experiência literária e vivencial que, conseqüentemente, ajudou-o a elaborar uma poesia densa e elevada, forjando-o crítico audaz e seguro.

Mário Faustino continua sendo subestimado, pois raros foram os artigos publicados até hoje a respeito deste poeta. Após sua morte foram publicados cinco livros que ajudam a revelar sua grandeza:
O Homem e sua Hora, Ed. Civilização Brasileira, 1955;
Cinco ensaios sobre Mário Faustino, ( texto: Assis Brasil), Série Coletânea, nº2, Editora GRD, 1964;
Poesia de Mário Faustino, antologia poética (textos: Paulo Francis e Benedito Nunes), Editora Civilização Brasileira,1966;
Poesia-Experiência, (Texto: Benedito Nunes) Editora Perspectiva, coleção Debates nº136, 1977; Poesia Completa-Poesia Traduzida (texto: Benedito Nunes), Editora Max Limonad, 1985;
Os Melhores Poemas de Mário Faustino (texto: Benedito Nunes), Global, 1985, 2ª ed. 1988;
Ezra Pound- Poesia (tradução Augusto e Haroldo de Campos, Décio Pignatari, J. L. Grünewald e Mário Faustino), Editora da Universidade de Brasília, 1983;
Evolução da Poesia Brasileira (texto:Benedito Nunes), Fundação Casa de Jorge Amado, 1993.

Dentre os trabalho publicados sobre o poeta Mário Faustino, destacamos: Mário Faustino-Poeta e Crítico, J.L. Grünewald. Rio de Janeiro, Correio da Manhã, 15.dez.1962;
Cinco ensaios sobre poesia, J.L. Grünewald. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 19.dez.1964;
O poeta e sua vida, Haroldo Maranhão. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966; Introdução ao Fim, Benedido Nunes. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 9.jul.1966;
A poesia de Mário Faustino, Foed Castro Chamma. Rio, Leitura, Ano XXIV, nº106/107 –mai/jun. 1966;
Últimos Livros, Wilson Martins. Suplemento Literário O Estado de São Paulo, 14.jan.1967;
A Nova Literatura-II Poesia, Assis Brasil (A tradição da Imagem). CEA/MEC, 1975;
Oficina da Palavra – Ensaio intertextual, Ivo Barbieri. Rio de Janeiro, Edições Achiamé, 1979; Tradição & Modernidade em Mário Faustino, Albeniza de Carvalho e Chaves (tese de Mestrado em teoria literária). Piauí, 1986;
Mário Faustino ou a importância órfica, Haroldo de Campos. Cadernos de Teresina, Ano I, nº1 abr.1987;
Uma peça na construção da Modernidade, Antônio Manoel Nunes. Rio de Janeiro, Jornal do Brasil (idéias Ensaios), 7. jan.1990;
Mário Faustino, J.L. Grünewald. Folha de São Paulo, 2.dez.1992;
Literatura Piauiense no Vestibular, Alcenor Candeira Filho. Parnaíba –Piauí, 1995;
Poesia de Mão Dupla, Benedito Nunes. Salvador, Exu Documento – Fundação Casa de Jorge Amado, 1997;
Mário Faustino, poeta e crítico subestimado, Carlos Frydman. São Paulo, O Escritor, fev.1998.
[1]
Mário Faustino, Poesia-Experiência. São Paulo, Editora Perspectiva, col. Debates nº136, p. 279, 1977.
[2]
Benedito Nunes, Poesia de Mão Dupla. Salvador, Exu Documento, Fundação Casa de Jorge Amado, 1997.

Aracaju. Jornal da Cidade, 25/26.dez.2003.

Sobre o autor:
Gilfrancisco é jornalista, pesquisador, escritor, com alguns trabalhos publicado, e professor universitário.
E-mail: gilfrancisco.santos@ig.com.br

Cogito

eu sou como eu sou
pronomepessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim


Torquato Neto