“BRISA” é o primeiro filme do projeto Cinema Possível realizado em HD e o 18º desde 2007. Contamos com a participação dos artistas: Artur Gomes, May Pasquetti e Jorge Ventura além de uma bela trilha sonora criada por Marko Andrade. Roteiro, direção e montagem de Jiddu Saldanha.
o tecido do amor já esgarçamos em quantos outubros nos gozamos agora que palavro itaocaras e persigo outras ilhas na carne crua do teu corpo amanheço alfabeto grafitemas quantas marés endoidecemos e aramaico permaneço doido e lírico em tudo mais que me negasse flor de lótus flor de cactos flor de lírios ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse hilda hilst quando então se me amasse ardendo em nós salgado mar e olga risse olhando em nós flechas de fogo se existisse por onde quer que eu te cantasse ou amavisse
a lavra da palavra quero onde mayara bruma já me diz espero saliva na palavra espuma onde tua lavra é uma elétrica pulsação de eros a dançado teu corpo vero onde tua alma luna e o meu corpo impluma valsa por laguna em beijos e boleros
fosse esta menina Monalisa ou se não fosse apenas brisa diante da menina dos meus olhos com esse mar azul nos olhos teus
não sei se MichelÂngelo Da Vinci Dalí ou Portinari te anteviram no instante maior da criação pintura de um arquiteto grego quem sabe até filha de Zeus
e eu Narciso amante dos espelhos procuro um espelho em minha face para ver se os teus olhos já estão dentro dos meus
com dez anos de trabalho, diversos prêmios internacionais e um público cativo, a Banda Riverdies irá realizar um espetáculo gratuito para mostrar o seu rock poderoso, hoje na Fnac do Barra Shopping (Av. Das Américas 4666), a partir das 19 horas. Além de terem sido premiados em grandes festivais pelo país, o primeiro CD dos meninos “Dow Yard” esgotou, gerando grande surpresa para todos os integrantes.
Apresentando canções originais e alguns covers, Gui, Leo, Alex, Vic e Fil, mostrarão seu trabalho em formato acústico e haverá ainda distribuição de EP´s autografados de um som inovador, ao final do show.
Sob influências que vão do jazz ao trash metal, o grupo acredita em sua sonoridade única para apresentar seus espetáculos. classificação livre: mais informações: 2109-2000
50 minutos com as músicas mais conhecidas do Riverdies + covers pops inéditos!
suassuna no teu corpo couro de cor compadecida ariano sábio e louco inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho gumes de atalhos na pedreira menina dos brincos de pérola palavra acesa na fogueira
pós os ismos tudo é pós na pele ou nas aranhas na carne ou nos lençóis no palco ou no cinema o que procuro nas palavras é clara quando não é gema
até furar os meus olhos com alguma cascata de luz devassa quando em mim transcende lamparina que acende e transforma em mel o que antes era pus
SagaraNAgens Fulinaímicas
guima meu mestre guima em mil perdões eu vos peço por esta obra encarnada nacarne cabra da peste da hygia ferreira bem casta aqui nas bandas do leste a fome de carne é madrasta
ave palavra profana cabala que vos fazia veredas em mais sagaranas a morte em vidas severinas tal qual antropofagia teu grande serTão vou cumer
nem joão cabral severino nem virgulino de matraca nem meu padrinho de pia me ensinou usar faca ou da palavra o fazer
a ferramenta que afino roubei do meste drummundo que o diabo giramundo é o narciso do meu Ser
cezane não pintava flores
cezane não pintava flores montado em seu cavalo alado despejava tintas no corpo da mulher amada com os pincéis encravados entre as coxas transformou hollandas em quintais de vento re-inventou o tempo na hora de pintar
Mama Mia late na minha ladeira Tece teias no meu labirinto De perdições labiais perdidas entre os cristais, Invasoras das folhas de vidro que me enamoram Nas ladainhas que cortam minha pele de algodão Como um sopro de lama queimada pela laje Que lança meus satélites na sonda destes espaços Engolidos pelos dedos lambidos do tempo. Mama Mia mia nos meus telhados Arranha as foices da minha lâmpada Desmancha os laços das minhas mãos Bebe o leite das minhas lembranças Embebidos no vinho tinto das uvas Circulares mastigadas pelas lanternas Que beliscam os meus músculos E fermentam a pele dos meus lençóis. Mama Mia ronca nos meus sonhos Ri dos inícios sem fim que me defloram Esconde meus medos, empurra meus segredos Lavoura meu corpo para o amor, Meus olhos nascentes do leste para a dor De um sol vermelho perfumado pelas rosas Por entre os reflexos dos meus planos Que velejam sobre o sopro das asas dos meus cílios. Mama Mia Pia sem pagar licença das minhas taxas Uma nova lenda sobre os meus pés sem chão. Há um lobo-do-mar velando meus sonhos! Há um dedo de moça apimentado minhas sílabas Entre o mar salgado que vaza dos meus poros Sem bússola que atravesse o centro da minha gravidade Sem agulha que penetre nas minhas cavidades De borboletas voando sobre nuvens grávidas demais Para deixarem pousar velhas mariposas sobre a terra.
Mama Mia é o mistério das emoções da Arte que me degusta, me bebe, me come entre um gole de vinho e gotas de tinta na chuva, e, ainda não me bastasse, quando menos espero ela escapa por entre a grade dos meus dentes e toda enxerida vai bater perna por entre as vielas medievais da "Toca do Zorro" ... Postado por Alcinéia Marcucci
A esfinge Adélia Prado
Ofélia tem os cabelos tão pretos como quando casou. Teve nove filhos, sendo que tirante um que é homossexual e outro que mexe com drogas, os outros vão levando no normal. Só mudou o penteado e botou dentes. Não perdeu a cintura, nem aquele ar de ainda serei feliz, inocente e malvada na mesma medida que eu, que insisto em entender a vida de Ofélia e a minha. Ainda hoje passou de calça comprida a caminho da cidade. Os manacás cheiravam como se o mundo não fosse o que é. Ora, direis. Ora digo eu. Ora, ora. Não quero contar histórias, porque história é excremento do tempo. Queria dizer-lhes é que somos eternos, eu, Ofélia e os manacás.
outro poemafeto nina rizzi
em quase um ano fátima me escreveu. não chorava ou me despeitava fazia poemafetos, me amava
- eu levava o homem, que não queria seu se queri sua
em couro cru & carne viva roberto piva fazia discurso em homenagem a mussolino depois de namorar as calcinhas das irmãs no pátio do convento agora bebo uma cerveja enquanto nova iguaçu dá um passeio no vasco e cássia eller deixa o meu mundo mais completo quando o segundo sol chegar não sei se nando reis nem disse que me surpreendi mas você pode ter certeza era 10 anos depois que o pagador de promessas zé do burro baixou em avatar depois que fando e liz atravessaram a ditadura de franco em nova granada de espanha hygia ainda ferreira me escrevia que as sete sereias do longe sequestraram guimarães rosa para o presépio de santo antônio que o seu pai lhe dera na infância
no hall do hotel dallonder senti em minhas cuostas uma fumaça de musa passar pela minha íris bem perto do meu nariz poesia jorrava solta na noite do inverno quente lá no rio grande do sul exatamente na serra perto o vale dos vinehdos era 96 no lance de dados deu 6 xangô revendo iansã iemanjá oxum quem sabe até umas outras mil e umas noites de amor sem sono quando alguns desdos macios tocam nas minhas costas e dois olhos sedentos de mar e fogo me fitam até as entranhas já desejosos de sexo estava ali outro destino traçado pra minha carne que n entrega do isntante nem quis saber do depois nem do que já foi como antes era tudo presente e o futuro era ali como a coisa que me devorava no instante
joaquim josé da silva xavier nejar falava em santa mônica o time do vascoé uma vergonha ando por aí tentando te encontrar na república de ribeirão o namorado da bia rasgava o poema concreto depois de ler mano melo com o sexo em moscou não não digo que não me surpreendi antes que eu disse que as noites em jardinópolis foram de orgia e cerveja mesmo no bar do chico com as alucinações do prefeito e as madrugadas de dedos que maitê não soube o porque que a dama do cine xangai era uma musa chapada num filme que nunca vi depois que a boca do lixo me provocou outras cenas na primavera registro com mariana das eras primeiras do mar de fogo que hygia ferreira me trouxe das aulas de línguas do ibilce bem no fundo do íntimo lá no brano do nervo onde sstefani ainda não sabe do conhac que bebi na tua boca
no presídio federal os regalhos seguiam em cena agora em segunda vez depois que a bailarina vinda da unicampi tomou o lugar federika e agora de porta bandeira bailava na hóstia do padre e outubro nunca foste novembro todos os santos finados outubro é mês das entregas esfregas de corpo e alma ainda em 95 a mocdidade nascendo na fina flor dos estácios dos lácios do melodia sabendo que em algum dia fosse dar no que fosse lembremos o que foi agora agosto 88 em goyt city de outrora quando fizemos mudanças pensando serem mudanças e hoje vemos a city igual ou pior do que dantes e o canal que foi do império canal para navegantes hoje é canal de propinas pros bolsos do comandante
Festival de Inverno da Universidade católica do Recife, julho de 1979.
Entre os convidados, Hélio Oiticica para realizar experiências com “parangolé” e fazer uma rápida retrospectiva de sua obra através de slides. Eu estava no festival realizando uma pequena exposição que... tinha um pé na arte conceitual e outro na arte construtiva, com o título “Maniasde Narciso”, que muito impressionou o Oiticica. Conversamos muito sobre arte, a partir daí.
No seu trabalho com “parangolé”, queria um público da periferia, marginal, livre de influências culturais acadêmicas, já que via na marginalidade uma idéia de liberdade. Sem dúvida, era um inventor que mantinha certo domínio intelectual sobre seu próprio trabalho. Sabia o que queria e não queria fazer qualquer coisa. Uma noite circulamos pela periferia da cidade do Recife, na busca de uma escola de samba, Oiticica,Paulo Bruscky,Jomard Muniz de Brito e Almandrade.
Uma aventura, papos e papos pela madrugada a dentro, de bar em bar nos arredores da cidade. A vida e a arte, os agitados anos de 1960, a mangueira, a tropicália, Londres, Nova York etc. A arte era, para ele, uma experiência quase cotidiana contra toda e qualquer forma de opressão: social, intelectual, estética e política. Na projeção de slides na Universidade Católica, as ilustrações dos papos da madrugada anterior, as imagens de uma obra que a arte jamais se livrará. Arte concreta, neo-concreta, penetráveis, ambientes coloridos, bólides, arte ambiental, tropicália etc.
No princípio era Mondrian,Malevith, depois Duchamp. Uma trajetória exemplar na arte brasileira. Uma tensão entre fazer arte e habitar o mundo. Foi assim, uma das últimas performances do Hélio. Quase oito meses depois, misturado com suas obras na solidão de um apartamento/ninho/penetrável, agonizou por três dias vítima de um derrame cerebral. Ficou a lembrança de uma brilhante e discreta presença num festival de inverno em pleno calor do nordeste brasileiro.
Almandrade
(artista plástico, poeta e arquiteto) Suplemento Literário, Belo Horizonte, novembro de 1997
era 95 e no lance de dados deu 5 quinta feira ouro preto os retalhos imortais do serafim entram em cena nos porões de brazilírica a república do faz de conta onde pastor de andrade na disputa passional por gigi da bateria instala o reino das propinas em campos dos goytacazes desde então denominada goyta city
federika lady gumes macabea e eu federico baudelaire os quatro cavaleiros do após calypso infiltrados nas entranhas desse desenredo inventamos então a mocidade independente de padre olivácio a escola de samba oculta no inconsciente coletivo para o que der e o que não der pois naquele mesmo instante percebemos que macabea era estrela que não sobe e se tornaria letra fora do nosso samba/enredo
federika não gosta do homem mas não gosta da mulher do homem e acha que lê não tem bala na agulha para segurar o trampo na hora do GH segundo clarice lispector e até hoje não entende como macabea continua a dar as cartas no presídio federal das artes cínicas ela conhece bem a peça em seus mínimos detalhes e sabe que o romance é pura conveniência para compra de votos em momentos de disputas eleitorais
federika desconfia que o meu samba é uma homenagem a ex-amante turca mas ela bem sabe que “em meu quintal rosinhas nunca mais” é citação de mamãe que é brega mas é xique mesmo assim mesmo joga da minha cara que ainda ando despetalando rosas mesmo sabendo que o espinho é mais embaixo e o meu samba mais em cima
eu tenho a faca entre os dentes olho a rua e dou de cara com nossa senhora de copacabana minha ex-amante passeia de patins ouvindo adriana calcanhoto ao largo do canal não choro mascaro minha dor e lanço as mágoas pelo chão o remédio é que não sou wally salomão nem muito bem nem menos mal costuro a nova mortalha no país do carnaval
tire o seu piercing do caminho que eu quero passar com a minha dor – tinha eu meus pensamentos nos versos de nelson cavaquinho nessa versão pós punk de zeca baleiro mas federika não quer mais saber de porta bandeira da mocidade agora afirma que vai desfilar no império da serrinha da assembléia de deus do ministério de madureira elevo meus pensamentos para os anos 69 e como paulinho da viola ainda tenho o rio que passou em minha vida no meu coração que se deixou levar
mas amor é outra coisa contrária a tudo aquilo que penso
por uma lua de água e sal pelo sol o girassol pela areia da praia pela arraia a vida dos peixes a tartaruga a vida pelas rugas as brigas as intrigas pelos filhos pelas filhas os trapos da mortalha o carnaval a carnavalha pelas tralhas e trilhas a faca de dois gumes o fio da navalha
eu estou por aí: guaxindiba santa clara são francisco sossego gargaú pontal atafona grussaí estou sempre na área trafego na praia mas não sou da tua laia
“ cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada o carvão saiu ferido a rosa despedaçada. O cravo ficou doente a rosa foi visitar o cravo teve um desmaio a rosa pois-se a chorar”
Dizem que foi por greve de fome. Mas nunca ficou provado
me querem manso cordeiro imaculado sangrado no festim dos canibais me querem escravo ordeiro serviçal salário apertado no bolso cego mudo e boçal me querem rato acuado rabo entre as pernas medroso um verme, pegajoso mas eu sou osso duro de roer caroço faca no pescoço maremoto tufão furacão mas eu sou cão ladro mordo arreganho os dentes incito a revolta dos deuses toco fogo na cidade qual nero devasto o lero lero entro em campo desempato eu sou o que sangra um poeta nato
agora não se fala nada agora não se fala mais toda palavra guarda uma cilada e tudo é transparente em cada forma
você não precisa me dizer o número do mundo desse mundo nem precisa me mostrar a outra face face ao fim de tudo
só precisa me dizer o nome da república dos fundos o sim do fim e o tem do tempo vindo
Dia D
Dede que eu saí de casa trouxe a viagem de volta cravada na minha mão interrada no meu umbigo dentro fora assim comigo minha própria condução
todo dia é dia dela pode ser pode não ser abro a porta ou a janela todo dia é dia D
há urubus nos telhados a carne seca é servida um escorpião encravado na sua própria ferida não escapa só escapo pela porta de saída
todo dia mais um dia de amar-te a morte morrer todo do mais um dia menos dia dia D
torquato neto
Quartas Culturais - Cantinho do Poeta Rua Cardoso de Melo, 42 Campos dos Goytacazes-RJ Leia mais aqui http://artur-gomes.blogspot.com
Porrada llírica
Dia 15 dezembro 2010 – 21:00hs Mas Sarau o Benedito Uma homenagem a Elis Regina Direção: Aucilene Freitas
Fulinaimagem
1
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adimirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
A moça no caixa do supermercado me diz boa noite pergunta se quero o cpf na nota fiscal e me atira um sorriso maquinal que expressa tanta vida quanto a que está contida numa caixa de cereal.
A moça no caixa do supermercado usa óculos tem o olhar cansado e aparenta impaciência diante da menina de cabelo cacheado que choraminga por um pacote de bombom diante da mãe que esbraveja enquanto segura quatro latas de cerveja.
A moça no caixa do supermercado é jovem e bonita uma beleza modelada lentamente dir-se-ia até sorrateiramente com o barro da desilusão no rosto dos que fizeram do próprio coração monumento e mausoléu da resignação.
São quase dez horas e nesta noite de novembro ela talvez pense no namorado nas contas a pagar no ônibus lotado em sua volta para o lar.
Mesmo jovem ela talvez já saiba que o mundo trai mais que abriga. O que ela com certeza não sabe é que talvez neste instante poetas discutem o futuro da poesia arqueologizam a concisão dos haicais mensuram a transparência dos cristais enquanto em outros quintais a pobreza cala a boca de reles mortais.
Fernando Freire Gama, 04.12.2010
tão pimenta tão petróleo
não espere que eu fale só de estrelas ou do vinho feliz que não tomei porque fora de mim não levo além da sombra uma camisa velha e dentro do peito um balde de canções uma gota de amor no útero de uma abelha
não repare se eu não frequento clube dos que sugam o sangue das ovelhas ou amargam o mel dessa colméia é que eu já vivo tão pimenta e tão petróleo que se você acende os olhos me incendeia
hoje em dia pra gente amar devera é preciso ser quase um alquimista ou talvez o maquinista do trem da consciência pra te amar com tanta calma e com tanta violência que a tua alma fique toda ensanguentada de vivência
Dia 1 dezembro 21 horas Encenação teatral com poemas de Aluysio Abreu Barbosa, Adriana Medeiros, Antônio Roberto(Kapi) e Artur Gomes. com Artur Gomes, Yvi Carvalho e Sidney Navarro
Direção: Kapi Local: Cantinho do Poeta Rua Cardoso de Melo, 42 – Campos dos Goytacazes-RJ
a flor da pele – pontal foto grafia
tucanos querem você fora da internet leia aqui texto contundente de Laerte Braga sobre segurança pública no Rio leia aqui:
Pontal Foto.Grafia
Aqui, redes em pânico pescam esqueletos no mar esquadras – descobrimento espinhas de peixe convento cabrálias esperas relento escamas secas no prato e um cheiro podre no AR
caranguejos explodem mangues em pólvora Ovo de Colombo quebrado areia branca inferno livre Rimbaud - África virgem – carne na cruz dos escombros trapos balançam varais telhados bóiam nas ondas tijolos afundando náufragos último suspiro da bomba na boca incerta da barra esgoto fétido do mundo grafando lentes na marra imagens daqui saqueadas Jerusalém pagã visitada Atafona.Pontal.Grussaí as crianças são testemunhas: Jesus Cristo não passou por aqui
Miles Davis fisgou na agulha Oscar no foco de palha cobra de vidro sangue na fagulha carne de peixe maracangalha que mar eu bebo na telha que a minha língua não tralha? penúltima dose de pólvora palmeira subindo a maralha punhal trincheira na trilha cortando o pano a navalha fatal daqui Pernambuco Atafona.Pontal.Grussaí as crianças são testemunhas: Mallarmè passou por aqui
bebo teu fato em fogo punhal na ova do bar palhoças ao sol fevereiro aluga-se teu brejo no mar o preço nem Deus nem sabre sementes de bagre no porto a porca no sujo quintal plástico de lixo nos mangues que mar eu bebo afinal?
Amor de minhas entranhas, morte viva, em vão espero tua palavra escrita e penso, com a flor que se murcha, que se vivo sem mim quero perder-te. O ar é imortal. A pedra inerte nem conhece a sombra nem a evita. Coração interior não necessita o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias, tigre e pomba, sobre tua cintura em duelo de mordiscos e açucenas. Enche, pois, de palavras minha loucura ou deixa-me viver em minha serena noite da alma para sempre escura.
elegante o dia des luz-se apesar da chuva a regurgitar incertezas nos telhados apesar da água a roer os passos nas calçadas
automóveis passam motos passam pessoas passam a vida ...
parabólicas postes pequenos pássaros velam o dia que zarpa a sombra que aporta e nos umbrais de tantas portas em silêncio a solidão apodrece sob o capacho
Café Literário – Dia 14 às 18:00h Bienal do Livro de Campos Artur Gomes e Fabrício Carpinejar Mediador: Dedé Muylaert Leia mais aqui: http://artur-gomes.blogspot.com/
Isadora
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras
onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem esteja sempre em meus caminhos e deles brotem da flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
E a estátua pálida e a estátua estática e a estátua polêmica e a estátua bêbada e a estátua cética e a estátua ética e a estátua pública e a estátua trêmula e a estátua vítima e a estátua de repente nem se movia e ria do povo que passava e a estátua política nem se mexia
(Renato Gusmão)
dos que predam e dos que são predados
ele me pediu cinqüenta centavos eu dei a ele dois reais quando lhe estendi a mão sorriu um sorriso cariado de submissão ele me reconheceu eu o reconheci há cinco anos atrás aluno da 4ª. série cumprindo medida sócio educativa quando conversava mantinha a cabeça baixa a voz num sussuro quinze anos e quase analfabeto quase menino quase homem quase gente Quasímodo
eu e ele havíamos mudado o mesmo rio do tempo havia nos banhado nos envolvido e transformado e ao nosso redor todos dormiam o sono de Caim e espinhos devoravam as pétalas do jardim
nenhum solo de Coltrane ou rima do Facção Central serviria como trilha sonora para o Desencanto daquela hora daquele instante em que a esperança se tornou figurante
não era a Pedra no caminho de Drummond não era o Bicho de Bandeira era a miséria tremulando sua bandeira era uma vida que descia na ladeira e falava comigo me afastando de meu umbigo
esse poema não secreto muito menos sagrado mesmo se jura fosse entre a face de fogo e os teus olhos beatriz por onde leio teu livro no sangue da tua face a flor na pele de seda em fragmentos de Dante as letras sobre o papel e teus poemas transbordam rios entrando meus poros por toda língua delírios extravasa irrompe penetra
esse poema não secreto feito em teus olhos beatriz tensão dos músculos cravados sobre a palavra onde pulsa, a cada lavra a tua coisa mais plena e esta jura serena como uma missa profana e os cabelos da noite cigana o canto do amor entre a boca e o mar que em teus seios agita a febre que queima em meus dedos e na boca o teu nome palpita
tropicalirismo
girassóis pousando nu teu corpo festa beija-flor seresta poesia fosse esse sol que emana do teu fogo farto lambuzando a uva de saliva doce
gaivotas perseguem peixes quando estão com fome a musa da minha janela depois da prova de física desfolha Charles Baudelaire
tem um jardim imaginário no quintal desta metáfora e um mar de algaravias dentro dos olhos dela
percebo a flor da infância bem-me-quer em teu cabelos peixes que não são nuvens girassóis fosse miragens na veia algas marítimas e uma fração logarítima ainda por resolver arturgomes http://pelegrafia.blogspot.com/
Palavras Diversas
a palavra múltipla plural e solta pelos céus da boca sarcástica cínica amorosa de drummond a guimarães rosa de ferreira gullar a torquato neto a pala/lavra do leminski como um arquiteto que constrói a própria casa com o furor do fogo em brasa com cimento tijolo argamassa e que a massa compreenda que a massa que transforma o pão é a mesma que alimenta a massa que o homem arquiteta e a praça é o lugar pro seu delírio a lira que mora dentro do poeta
jura secreta 121
ela me mantém à distância dos meus braços que mesmo esticados não conseguem alcançá-la no quarto do hotel eu tenho a fala e digo desejo o espaço do teu ventre para proclamar os meus instintos não minto eu sinto muito que pena se ainda não conseque provar dos meus pecados e se esconde entre hóstia e promessas eu tenho pressa quero engravidar-te de saliva na língua que escorre pelos anos abrindo fenda em tuas costas
XVIII CONGRESSO BRASILEIRO
DE POESIA HOMENAGEIA
FERREIRA GULLAR
Pela primeira vez nos últimos quinze anos
o Congresso Brasileiro de Poesia
não é realizado na primeira semana
de outubro e sim, no final do mês.
A edição deste ano acontece de 25 a 29,
na cidade de Bento Gonçalves e
homenageará os 80 anos de Ferreira Gullar.
gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire
tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela
percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver
Artur Gomes e Mayara Pasquetti estão completando 4 anos de parcerias no palco, estreaiaram em 2006 em Bento Gonçalves, com um recital em homenagem ao centenário do porta gaúcho Mário Quintana. Este ano lá mesmo na serra gaúcha na capital nacional do vinho, durante a programação do XIII Congresso Brasileiro de Poesia, eles estarão mais uma vez dialogando poeticamente com o recital Palavras Diversas, que além da poesia do prório Artur, a dupla faz uma viagem pela poesia de Arnaldo Antunes, Eliakin Rufino, Mário Faustino, Ferreirta Gullar e Torquato Neto.
Se for Poema Fogo do Desejo, neste vídeo filmado por Jiddu Saldanha, eles estão no Parque das Ruínas em Santa Teresa Rio de Janeiro fazendo o que mais gostam: falando peosia.
segue abaixo alguns dos poemas que fazem parte do repertório do Recital Diversas Palavras:
NÃO HÁ VAGAS
O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão. O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabem no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores está fechado: “não há vagas”
Só cabem no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço
O poema senhores, não fede nem cheira
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. uma parte de mim é multidão:outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte,l inguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -será arte?
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, menina branca de neve, me leve no esquecimento.
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...
Mário Faustino(1930-1962)
ditados populares
sem essa de dizer que a pressa
é inimiga da perfeição
eu sou amigo da pressa
perfeição não me interessa
não me interessa não
o que é perfeito está morto
eu quero o falho o feio o torto
quero os pecados da alma
e as imperfeições do corpo
se a pressa é inimiga da perfeição
e é amiga da mudança
irmã da revolução
boca fechada não entra mosca
mas também não sai palavras
que cala consente quem sente fala
o silêncio pode ser uma kaula
é preciso estar atento
é preciso ter cuidado
uma coisa é ser silêncio
outra é ser silenciado
lei do silêncio não faz sentido
o mundo sem palavas sé quadrado
lei do silêncio não faz meu tipo
o meu estilo é ser articulado
Eliakin Rufino Boa Vista - Roraima - RO
Um instante
Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas
um bicho
transparente
____________________
Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta. _______________________________
ferreira gullar
Socorro alguma alma
mesmo que penada,
me empreste suas penas,
já não sinto amor nem dor,
já não sinto nada.
Socorro alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa que se sinta
Tem tanto sentimento
deve ter algum que sirva...
As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor, posição, t
extura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função, aparência,
preço, destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
Iluminuras
Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento. *
O amor. sem palavras.
Ou. A palavra amor, sem amor.
Sendo amor, ou. A palavra ou.
Sem substituir nem ser substituída por.
Si, a palavra si, sem ser designada
ou gnificada por.
O amor. Entre si e o que se. Chama amor,
como se. Amasse
(esse pedaço de papel escrito amor).
Somasse o amor ao nome amor,
onde ecoa.
O mar, onde some o mar onde soa.
A palavra amor, sem palavras.
arnaldo antunes
Marginália II
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti
Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte Olelê, lalá
A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender Olelê, lalá
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Let's play that
quando eu nasciu
m anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes
let's play that
dessde que eu saí de casa
triuxe a viagem na mão
cravada no meu umbigo
dentro fora assim comigo
minha prórpria condução
todo dia é dia dela
pode ser pode não ser
abro a porta ou a janela
todo dia é diaa D
há urubus no telhado
a carne seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa
só escapo pela porta de saída
todo dia o mesmo dia
de amar-te a morte morrrer
todo dia mais um dia
menis dia dia D
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
2
o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato. bagana acesa sobra do cigarro é sarro. dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama a seda pura foto-síntese do papel tem flor de lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santanna com os espinhos da Rosa de Noel.
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem e deles brotem a flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
o amor não e apenas um nome que anda por sobre a pele um dia falo letra por letra no outro calo fome por fome é que a pele do teu nome consome a flor da minha pele
cravado espinho na chaga como marca cicatriz eu sou ator ela esfinge clarisse/beatriz
assim vivemos cantando fingindo que somos decentes para esconder o sagrado em nosso profanos segredos se um dia falta coragem a noite sobra do medo
na sombra da tatuagem sinal enfim permanente ficou pregando uma peça em nosso passado presente
o nome tem seus mistérios que se esconde sob panos o sol e claro quando não chove o sal e bom quando de leve para adoçar desenganos na língua na boca na neve
o mar que vai e vem não tem volta o amor e a coisa mais torta que mora lá dentro de mim teu céu da boca e a porta onde o poema não tem fim
May interperta artur gomes num filme de Jiddu Saldanha
Jura Secreta 41
porque te amo e amor não tem pele nome ou sobrenome não adianta chamar que ele não vem quando se quer porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo pode sangrar pode doer e ferir fundo mas é razãode estar no mundo nem que seja por segundo por um beijomesmo breve porque te amo no sol no sal no mar na neve
ontem sonhei com você noite inteira teus seios pulsavam em mim não sei quando então começou mas sei quando então foi assim
quanto mais pensava dormindo sabendo meu ser acordado fizemos amo dois alados na cama imortal do jardim os anjos do inferno rezavam num gozo de nunca ter fim
por quê trancar as portas tentar proibir as entradas se já habito os teus cinco sentidos e as janelas estão escancaradas?
um beija-flor risca no espaço algumas letras de um alfabeto grego signo de comunicação indecifrável eu tenho fome de terra e esse asfalto sob a sola dos meus pés agulha nos meus dedos
quando piso na Augusta o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo entre o real e o imaginário
João Guimarães Rosa Caio Prado Martins Fontes um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire nem mofo de língua morta o correto deixei na Cacomanga matagal onde nasci com os seus dentes de concreto São Paulo é quem me devora e selvagem devolvo a dentada na carne da rua Aurora
Este poema consta do meu livro “bocadotempo”, de 2001, que será relançado em breve, com algumas atualizações. Ao reler os textos, tive vontade de dividi-los ... espero que gostem!
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras. Que desenhos e rictus na tua cara Como os frisos veementes dos tapetes antigos. Que sombrio te tornas se repito O sinuoso caminho que persigo: um desejo Sem dono, um adorar-te vívido mas livre. E que escura me faço se abocanhas de mim Palavras e resíduos. Me vêm fomes Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te. Cordura. Crueldade.
meus lábios em teus ouvidos flechas netuno cupido a faca na língua a língua na faca a febre em patas de vaca as unhas sujas de Lorca cebola pré sal com pimenta tempero sabre de fogo na tua língua com coentro qualquer paixão re/invento
o corpo/mar quando agita na preamar arrebenta espuma esperma semeia sementes letra por letra na bruma branca da areia sem pensar qualquer sentido grafito em teu corpo despido poemas na lua cheia
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
Se posto ao lado da tendência mais comum na recente poesia brasileira, zero ponto zero,de IgorFagundes, sobressairá porque desfaz a falha polarização que segrega lirismo e cerebralismo (como se um poema lírico fosse elaborado nos pés); se posto ao lado da tradição dos poetas maiores, no Brasil e no Ocidente, ele achará um ambiente cativo porque colhe, com engenho e emoção, o que é mais alardeado em nosso tempo para desmerecer o objeto do alarde, fazendose dentro e fora da época; se posto isolado, o percurso até aqui efetuado pela obra do autor dotao de luz candente, porque é imensa a qualidade que distingue este livro dos três anteriores (os quais já apresentavam pontos plausíveis).
Um fator a dar maior solidez a zero ponto zero é a exibição de um poeta senhor de sua voz, apesar das múltiplas falas.
Confluindo o rigor da técnica com a ausência de maiúsculas, a erudição com temas corriqueiros, Igor Fagundes é tradicional sem ser tradicionalista; é moderno sem ser modernista (já nas epígrafes, assinadas por Heráclito e Paulo Henriques Britto). Trata-se de um poeta a manifestar em seu livro vigorosa captação crítica da realidade numa forma de escrita originalíssima.
O livro realiza, do início ao fim, um expressivo exercício irônico, porque nele tudo obedece a uma rigorosa disposição matemática: “ok, você venceu: há sim uma ordem / intrínseca ao correr,vagar das páginas”,diz“plano cartesiano”.
A maioria dos 65 textos é numerada de -31 a +31, tendo como eixo o“ponto zero”, o que subverte a numeração convencional.
O primeiro e o último texto evidenciam a unidade circular da obra, visto serem identificados com o símbolo do infinito (apondo-se ao primeiro o sinal negativo e ao primeiro, o p o s i t ivo ) .
Apesar do corpo numérico, a razão de ser do livro é denunciar e rejeitar a enganosa e danosa algebrização do viver, seja no âmbito específico do livro –
“de um livro quase todo em formas fixas espera-se o equilíbrio, a simetria e como se negasse a própria sina aponta para o oposto dessa trilha”
– no do sujeito –
“calculados de acertos meus pecados: erro-me assim tão exato”
– e no da existência, em sentido mais amplo –
“e a vida morre quando se dá conta em matemática, tão certa, falha”.
Ao lado da ironia (aqui entendida em seu sentido original, “questionamento”), destacase uma atividade metalinguística que por toda a extensão do livro reflete acerca de sua natureza, sem nunca cair na gratuidade teórica.
Na seção “positiva” da peça (em que os textos recebem sinal de mais), os poemas-algarismos de zero a nove têm como tema o próprio número que os indica. E um aspecto da grandeza de zero ponto zero (ao lado de sua aguda cosmovisão) é a extrema coesão de todos os seus fatores em todas as suas partes; dessa forma, estes poemas não apenas falam sobre os números intituladores.
Cria-se com eles um pano de fundo para que o já dito torne-se inédito, como nesta belíssima passagem de
“dois”:
“não à preguiça de pensar dicotomias como se tudo fosse antônimo e simplista (...) sim ao limite em que começa e não termina a comunhão das coisas, gentes, como rimas sim ao casal, se o amor dos pares chega ao ímpar ao singular plural e ao filho que culmina sim ao que é não, se a partir dele, a vida afirma-se e em cada enjambement a morte em verso adia-se”.
Essa poética impactante, que se poderia classificar como “de peso”, quebra sucessivamente qualquer aparência de maniqueísmo ou de monotonia. Mas entre as investidas de envergadura teórica, presentifica a leveza de um amor adolescente (o que se soma à negação da vida em aritmético regresso) no texto “romântico”, termo de baixo calão para a poesia contemporânea:
“curta seu love, tire uma casquinha amar é sair junto, ao cine e após tomar um ice cream numa pracinha e nele derreterse, ao sol, e a sós”.
sobre o guarda noturno que vigia minha rua sobre o traficante que vende na mesma rua sobre o mendingo ruminando uma miséria que é tão sua três estrelas brilham esculpem silêncios num céu que sussurra nos tímpanos da eternidade além da janela de meu quarto guardas noturnos traficantes e mendingos amam e deixam de amar vivem e morrem odeiam e deixam de odiar assim como o casal que se beija ao meu lado ou como o garçon de olhar cansado que me traz a cerveja enquanto a vida extirpa o coração dos sonhos nos altares da realidade e nos lábios da mocidade no olhar dos velhos que esperam deuses natimortos ofertam-nos preces de morte reciclada
Fernando Freire Gama, - DF -18.08.2010
Riverdies 21 de agosto – Garage – Praça da Bandeira - Rio
Fulinaimagem
Fulinaimagem
1
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem estejam sempre em meus caminhos e deles brotem da flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
2
o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato. bagana acesa sobra do cigarro é sarro. dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama a seda pura foto-síntese do papel tem flor de lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santanna com os espinhos da Rosa de Noel.
É das uvas roxas que abocanho em tua boca e em teu fruto exposto que faço meu vinho, meu sangue, que para ti como um rio corre, minha paixão, muso do meu canto vindo do fundo da terra, basalto e magma, esperma de fundas furnas e de grutas e das fendas submersas de onde atocaiado tu me espias, para ti meu canto, um também roxo canto uivando das entranhas, mãos, garganta a me dizer: vida a ser trazida entre os dentes atravessada tal uma faca.
Olga Savary
entriDentes
olhei a cara do tempo ela estava fechada não me dizia nada
pensei as sagaraNAgens que o tempo fazia comigo peguei do tempo o umbigo cortei na ponta da faca
e a tua cara de vaca sangrei sem nenhum remorso porque isso o tempo não tem
agora o tempo sorri me mostra os dentes da boca e a tua cara de louca é a minha cara também
jura NÃO secreta
quero dizer que ainda arde tua manhã em minha tarde a tua noite no meu dia
tudo em nós que já foi feito com prazer inda faria
quero dizer que ainda é cedo ainda tenho um samba-enredo tudo em nós é carnaval é só vestir a fantasia
quero ser teu mestre/sala e você porta/bandeira quando chegar na quarta feira a gente inventa outra fulia unplugged
quero bota no seu Orkut um negócio sem vergonha um poema descarada
ta chegando fevereiro e meu rio de janeiro fica lindo e mascarado
quero botar no seu e-mail um negócio por inteiro
que eu não sou zeca baleiro pra ficar cantando a mama que ainda tem medo do papa
meu negócio é só com a mina que me trampa quando trapa meu negócio é só a mina que me canta ouvindo o rappa
onde era vôo de pássaros (os pássaros estavam quietos). Uma febre roía meus ouvidos: voltei mais velha (exilada) com um toque de infância entre meus dedos, reserva de sal dentro dos olhos.
Olga Savary
a esperança me o- briga a caminhar em círculo em tor -no do globo em tor- no de mim mesmo em torno de uma mesa de jogo até que o zodíaco pára e a noite costura- me a boca a retrós preto/ mas eu fico impresso no olho do dia obsoleto viagem em círculo sem ida nem vinda sem nenhuma avenida adeus com a mão esquerda/ amanhã recomeço minha lida entre um e outro julho entre um e outro crepúsculo a cidade que busco como hei de encon-trá-la ouço-lhe a fala mas estou na outra sala/ amanhã sem endereço recomeço o meu começo
a esperança é um círculo no zodía-co na ciranda na roleta na rosa do circo na roda do moinho amanhã recomeço meu caminho
E me pergunto: em que lado do glo- bo terá cessado o diálogo da ovelha e do lobo ?
II
a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina de novo a esperança na esfera
a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera a esfera em torno de si mesma me ensina a espera a espera me ensina a esperança a esperança me ensina uma nova espera a nova espera me ensina uma nova esperança na esfera
Dedé Muylaert
Meu mestre, senhor da poesia, to louco pra montar alguma loucura contigo. espero que vc esteja bem e produzindo bastante. Vê se vc gosta:
1
Enquanto escrevo o poema me renega digo o que não devo escrevo o que não traço e ocasionalmente faço
A Linha do provável ultrapasso . Frequentemente Às vezes, lasso não escrevo nem faço nem passo nem fico identifico e aí sou eu mesmo de braços abertos preso num abraço como um escuro do cinema perante o meu dilema: pau no poema ou é só cena poeminha diadema?