era 95 e no lance de dados deu 5 quinta feira ouro preto os retalhos imortais do serafim entram em cena nos porões de brazilírica a república do faz de conta onde pastor de andrade na disputa passional por gigi da bateria instala o reino das propinas em campos dos goytacazes desde então denominada goyta city
federika lady gumes macabea e eu federico baudelaire os quatro cavaleiros do após calypso infiltrados nas entranhas desse desenredo inventamos então a mocidade independente de padre olivácio a escola de samba oculta no inconsciente coletivo para o que der e o que não der pois naquele mesmo instante percebemos que macabea era estrela que não sobe e se tornaria letra fora do nosso samba/enredo
federika não gosta do homem mas não gosta da mulher do homem e acha que lê não tem bala na agulha para segurar o trampo na hora do GH segundo clarice lispector e até hoje não entende como macabea continua a dar as cartas no presídio federal das artes cínicas ela conhece bem a peça em seus mínimos detalhes e sabe que o romance é pura conveniência para compra de votos em momentos de disputas eleitorais
federika desconfia que o meu samba é uma homenagem a ex-amante turca mas ela bem sabe que “em meu quintal rosinhas nunca mais” é citação de mamãe que é brega mas é xique mesmo assim mesmo joga da minha cara que ainda ando despetalando rosas mesmo sabendo que o espinho é mais embaixo e o meu samba mais em cima
eu tenho a faca entre os dentes olho a rua e dou de cara com nossa senhora de copacabana minha ex-amante passeia de patins ouvindo adriana calcanhoto ao largo do canal não choro mascaro minha dor e lanço as mágoas pelo chão o remédio é que não sou wally salomão nem muito bem nem menos mal costuro a nova mortalha no país do carnaval
tire o seu piercing do caminho que eu quero passar com a minha dor – tinha eu meus pensamentos nos versos de nelson cavaquinho nessa versão pós punk de zeca baleiro mas federika não quer mais saber de porta bandeira da mocidade agora afirma que vai desfilar no império da serrinha da assembléia de deus do ministério de madureira elevo meus pensamentos para os anos 69 e como paulinho da viola ainda tenho o rio que passou em minha vida no meu coração que se deixou levar
mas amor é outra coisa contrária a tudo aquilo que penso
por uma lua de água e sal pelo sol o girassol pela areia da praia pela arraia a vida dos peixes a tartaruga a vida pelas rugas as brigas as intrigas pelos filhos pelas filhas os trapos da mortalha o carnaval a carnavalha pelas tralhas e trilhas a faca de dois gumes o fio da navalha
eu estou por aí: guaxindiba santa clara são francisco sossego gargaú pontal atafona grussaí estou sempre na área trafego na praia mas não sou da tua laia
“ cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada o carvão saiu ferido a rosa despedaçada. O cravo ficou doente a rosa foi visitar o cravo teve um desmaio a rosa pois-se a chorar”
Dizem que foi por greve de fome. Mas nunca ficou provado
me querem manso cordeiro imaculado sangrado no festim dos canibais me querem escravo ordeiro serviçal salário apertado no bolso cego mudo e boçal me querem rato acuado rabo entre as pernas medroso um verme, pegajoso mas eu sou osso duro de roer caroço faca no pescoço maremoto tufão furacão mas eu sou cão ladro mordo arreganho os dentes incito a revolta dos deuses toco fogo na cidade qual nero devasto o lero lero entro em campo desempato eu sou o que sangra um poeta nato
agora não se fala nada agora não se fala mais toda palavra guarda uma cilada e tudo é transparente em cada forma
você não precisa me dizer o número do mundo desse mundo nem precisa me mostrar a outra face face ao fim de tudo
só precisa me dizer o nome da república dos fundos o sim do fim e o tem do tempo vindo
Dia D
Dede que eu saí de casa trouxe a viagem de volta cravada na minha mão interrada no meu umbigo dentro fora assim comigo minha própria condução
todo dia é dia dela pode ser pode não ser abro a porta ou a janela todo dia é dia D
há urubus nos telhados a carne seca é servida um escorpião encravado na sua própria ferida não escapa só escapo pela porta de saída
todo dia mais um dia de amar-te a morte morrer todo do mais um dia menos dia dia D
torquato neto
Quartas Culturais - Cantinho do Poeta Rua Cardoso de Melo, 42 Campos dos Goytacazes-RJ Leia mais aqui http://artur-gomes.blogspot.com
Porrada llírica
Dia 15 dezembro 2010 – 21:00hs Mas Sarau o Benedito Uma homenagem a Elis Regina Direção: Aucilene Freitas
Fulinaimagem
1
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adimirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
A moça no caixa do supermercado me diz boa noite pergunta se quero o cpf na nota fiscal e me atira um sorriso maquinal que expressa tanta vida quanto a que está contida numa caixa de cereal.
A moça no caixa do supermercado usa óculos tem o olhar cansado e aparenta impaciência diante da menina de cabelo cacheado que choraminga por um pacote de bombom diante da mãe que esbraveja enquanto segura quatro latas de cerveja.
A moça no caixa do supermercado é jovem e bonita uma beleza modelada lentamente dir-se-ia até sorrateiramente com o barro da desilusão no rosto dos que fizeram do próprio coração monumento e mausoléu da resignação.
São quase dez horas e nesta noite de novembro ela talvez pense no namorado nas contas a pagar no ônibus lotado em sua volta para o lar.
Mesmo jovem ela talvez já saiba que o mundo trai mais que abriga. O que ela com certeza não sabe é que talvez neste instante poetas discutem o futuro da poesia arqueologizam a concisão dos haicais mensuram a transparência dos cristais enquanto em outros quintais a pobreza cala a boca de reles mortais.
Fernando Freire Gama, 04.12.2010
tão pimenta tão petróleo
não espere que eu fale só de estrelas ou do vinho feliz que não tomei porque fora de mim não levo além da sombra uma camisa velha e dentro do peito um balde de canções uma gota de amor no útero de uma abelha
não repare se eu não frequento clube dos que sugam o sangue das ovelhas ou amargam o mel dessa colméia é que eu já vivo tão pimenta e tão petróleo que se você acende os olhos me incendeia
hoje em dia pra gente amar devera é preciso ser quase um alquimista ou talvez o maquinista do trem da consciência pra te amar com tanta calma e com tanta violência que a tua alma fique toda ensanguentada de vivência
Dia 1 dezembro 21 horas Encenação teatral com poemas de Aluysio Abreu Barbosa, Adriana Medeiros, Antônio Roberto(Kapi) e Artur Gomes. com Artur Gomes, Yvi Carvalho e Sidney Navarro
Direção: Kapi Local: Cantinho do Poeta Rua Cardoso de Melo, 42 – Campos dos Goytacazes-RJ
a flor da pele – pontal foto grafia
tucanos querem você fora da internet leia aqui texto contundente de Laerte Braga sobre segurança pública no Rio leia aqui:
Pontal Foto.Grafia
Aqui, redes em pânico pescam esqueletos no mar esquadras – descobrimento espinhas de peixe convento cabrálias esperas relento escamas secas no prato e um cheiro podre no AR
caranguejos explodem mangues em pólvora Ovo de Colombo quebrado areia branca inferno livre Rimbaud - África virgem – carne na cruz dos escombros trapos balançam varais telhados bóiam nas ondas tijolos afundando náufragos último suspiro da bomba na boca incerta da barra esgoto fétido do mundo grafando lentes na marra imagens daqui saqueadas Jerusalém pagã visitada Atafona.Pontal.Grussaí as crianças são testemunhas: Jesus Cristo não passou por aqui
Miles Davis fisgou na agulha Oscar no foco de palha cobra de vidro sangue na fagulha carne de peixe maracangalha que mar eu bebo na telha que a minha língua não tralha? penúltima dose de pólvora palmeira subindo a maralha punhal trincheira na trilha cortando o pano a navalha fatal daqui Pernambuco Atafona.Pontal.Grussaí as crianças são testemunhas: Mallarmè passou por aqui
bebo teu fato em fogo punhal na ova do bar palhoças ao sol fevereiro aluga-se teu brejo no mar o preço nem Deus nem sabre sementes de bagre no porto a porca no sujo quintal plástico de lixo nos mangues que mar eu bebo afinal?
Amor de minhas entranhas, morte viva, em vão espero tua palavra escrita e penso, com a flor que se murcha, que se vivo sem mim quero perder-te. O ar é imortal. A pedra inerte nem conhece a sombra nem a evita. Coração interior não necessita o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias, tigre e pomba, sobre tua cintura em duelo de mordiscos e açucenas. Enche, pois, de palavras minha loucura ou deixa-me viver em minha serena noite da alma para sempre escura.
elegante o dia des luz-se apesar da chuva a regurgitar incertezas nos telhados apesar da água a roer os passos nas calçadas
automóveis passam motos passam pessoas passam a vida ...
parabólicas postes pequenos pássaros velam o dia que zarpa a sombra que aporta e nos umbrais de tantas portas em silêncio a solidão apodrece sob o capacho
Café Literário – Dia 14 às 18:00h Bienal do Livro de Campos Artur Gomes e Fabrício Carpinejar Mediador: Dedé Muylaert Leia mais aqui: http://artur-gomes.blogspot.com/
Isadora
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras
onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem esteja sempre em meus caminhos e deles brotem da flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
E a estátua pálida e a estátua estática e a estátua polêmica e a estátua bêbada e a estátua cética e a estátua ética e a estátua pública e a estátua trêmula e a estátua vítima e a estátua de repente nem se movia e ria do povo que passava e a estátua política nem se mexia
(Renato Gusmão)
dos que predam e dos que são predados
ele me pediu cinqüenta centavos eu dei a ele dois reais quando lhe estendi a mão sorriu um sorriso cariado de submissão ele me reconheceu eu o reconheci há cinco anos atrás aluno da 4ª. série cumprindo medida sócio educativa quando conversava mantinha a cabeça baixa a voz num sussuro quinze anos e quase analfabeto quase menino quase homem quase gente Quasímodo
eu e ele havíamos mudado o mesmo rio do tempo havia nos banhado nos envolvido e transformado e ao nosso redor todos dormiam o sono de Caim e espinhos devoravam as pétalas do jardim
nenhum solo de Coltrane ou rima do Facção Central serviria como trilha sonora para o Desencanto daquela hora daquele instante em que a esperança se tornou figurante
não era a Pedra no caminho de Drummond não era o Bicho de Bandeira era a miséria tremulando sua bandeira era uma vida que descia na ladeira e falava comigo me afastando de meu umbigo
esse poema não secreto muito menos sagrado mesmo se jura fosse entre a face de fogo e os teus olhos beatriz por onde leio teu livro no sangue da tua face a flor na pele de seda em fragmentos de Dante as letras sobre o papel e teus poemas transbordam rios entrando meus poros por toda língua delírios extravasa irrompe penetra
esse poema não secreto feito em teus olhos beatriz tensão dos músculos cravados sobre a palavra onde pulsa, a cada lavra a tua coisa mais plena e esta jura serena como uma missa profana e os cabelos da noite cigana o canto do amor entre a boca e o mar que em teus seios agita a febre que queima em meus dedos e na boca o teu nome palpita
tropicalirismo
girassóis pousando nu teu corpo festa beija-flor seresta poesia fosse esse sol que emana do teu fogo farto lambuzando a uva de saliva doce
gaivotas perseguem peixes quando estão com fome a musa da minha janela depois da prova de física desfolha Charles Baudelaire
tem um jardim imaginário no quintal desta metáfora e um mar de algaravias dentro dos olhos dela
percebo a flor da infância bem-me-quer em teu cabelos peixes que não são nuvens girassóis fosse miragens na veia algas marítimas e uma fração logarítima ainda por resolver arturgomes http://pelegrafia.blogspot.com/
Palavras Diversas
a palavra múltipla plural e solta pelos céus da boca sarcástica cínica amorosa de drummond a guimarães rosa de ferreira gullar a torquato neto a pala/lavra do leminski como um arquiteto que constrói a própria casa com o furor do fogo em brasa com cimento tijolo argamassa e que a massa compreenda que a massa que transforma o pão é a mesma que alimenta a massa que o homem arquiteta e a praça é o lugar pro seu delírio a lira que mora dentro do poeta
jura secreta 121
ela me mantém à distância dos meus braços que mesmo esticados não conseguem alcançá-la no quarto do hotel eu tenho a fala e digo desejo o espaço do teu ventre para proclamar os meus instintos não minto eu sinto muito que pena se ainda não conseque provar dos meus pecados e se esconde entre hóstia e promessas eu tenho pressa quero engravidar-te de saliva na língua que escorre pelos anos abrindo fenda em tuas costas
XVIII CONGRESSO BRASILEIRO
DE POESIA HOMENAGEIA
FERREIRA GULLAR
Pela primeira vez nos últimos quinze anos
o Congresso Brasileiro de Poesia
não é realizado na primeira semana
de outubro e sim, no final do mês.
A edição deste ano acontece de 25 a 29,
na cidade de Bento Gonçalves e
homenageará os 80 anos de Ferreira Gullar.
gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire
tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela
percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver
Artur Gomes e Mayara Pasquetti estão completando 4 anos de parcerias no palco, estreaiaram em 2006 em Bento Gonçalves, com um recital em homenagem ao centenário do porta gaúcho Mário Quintana. Este ano lá mesmo na serra gaúcha na capital nacional do vinho, durante a programação do XIII Congresso Brasileiro de Poesia, eles estarão mais uma vez dialogando poeticamente com o recital Palavras Diversas, que além da poesia do prório Artur, a dupla faz uma viagem pela poesia de Arnaldo Antunes, Eliakin Rufino, Mário Faustino, Ferreirta Gullar e Torquato Neto.
Se for Poema Fogo do Desejo, neste vídeo filmado por Jiddu Saldanha, eles estão no Parque das Ruínas em Santa Teresa Rio de Janeiro fazendo o que mais gostam: falando peosia.
segue abaixo alguns dos poemas que fazem parte do repertório do Recital Diversas Palavras:
NÃO HÁ VAGAS
O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão. O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabem no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras
- porque o poema, senhores está fechado: “não há vagas”
Só cabem no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço
O poema senhores, não fede nem cheira
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. uma parte de mim é multidão:outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte,l inguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -será arte?
Cantiga para não morrer
Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, menina branca de neve, me leve no esquecimento.
O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...
Mário Faustino(1930-1962)
ditados populares
sem essa de dizer que a pressa
é inimiga da perfeição
eu sou amigo da pressa
perfeição não me interessa
não me interessa não
o que é perfeito está morto
eu quero o falho o feio o torto
quero os pecados da alma
e as imperfeições do corpo
se a pressa é inimiga da perfeição
e é amiga da mudança
irmã da revolução
boca fechada não entra mosca
mas também não sai palavras
que cala consente quem sente fala
o silêncio pode ser uma kaula
é preciso estar atento
é preciso ter cuidado
uma coisa é ser silêncio
outra é ser silenciado
lei do silêncio não faz sentido
o mundo sem palavas sé quadrado
lei do silêncio não faz meu tipo
o meu estilo é ser articulado
Eliakin Rufino Boa Vista - Roraima - RO
Um instante
Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas
um bicho
transparente
____________________
Aprendizado
Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta. _______________________________
ferreira gullar
Socorro alguma alma
mesmo que penada,
me empreste suas penas,
já não sinto amor nem dor,
já não sinto nada.
Socorro alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa que se sinta
Tem tanto sentimento
deve ter algum que sirva...
As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor, posição, t
extura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função, aparência,
preço, destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.
Iluminuras
Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.
Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?
Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;
pensamento dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.
E não jogarei sementes
em cima do seu cimento. *
O amor. sem palavras.
Ou. A palavra amor, sem amor.
Sendo amor, ou. A palavra ou.
Sem substituir nem ser substituída por.
Si, a palavra si, sem ser designada
ou gnificada por.
O amor. Entre si e o que se. Chama amor,
como se. Amasse
(esse pedaço de papel escrito amor).
Somasse o amor ao nome amor,
onde ecoa.
O mar, onde some o mar onde soa.
A palavra amor, sem palavras.
arnaldo antunes
Marginália II
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti
Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte Olelê, lalá
A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender Olelê, lalá
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Let's play that
quando eu nasciu
m anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes
let's play that
dessde que eu saí de casa
triuxe a viagem na mão
cravada no meu umbigo
dentro fora assim comigo
minha prórpria condução
todo dia é dia dela
pode ser pode não ser
abro a porta ou a janela
todo dia é diaa D
há urubus no telhado
a carne seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa
só escapo pela porta de saída
todo dia o mesmo dia
de amar-te a morte morrrer
todo dia mais um dia
menis dia dia D
por enquanto vou te amar assim em segredo como se o sagrado fosse o maior dos pecados originais e a minha língua fosse só furor dos canibais
e essa lua mansa fosse faca a afiar os versos que inda não fiz e as brigas dde amor que nunca quis mesmo quando o projeto aponta outra direção embaixo do nariz e é mais concreto que a argamassa do abstrato
por enquanto vou te amar assim adirando o teu retrato pensando a minha idade e o que trago da cidade embaixo as solas dos sapatos
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o que trago embaixo as solas dos sapatos é fato. bagana acesa sobra do cigarro é sarro. dentro do carro ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero dancei bolero sampleando rock and roll
pra colher lírios há que se por o pé na lama a seda pura foto-síntese do papel tem flor de lótus nos bordéis Copacabana procuro um mix da guitarra de Santanna com os espinhos da Rosa de Noel.
onde teus pés bailarina dançam cato os vestígios do tempo onde teus olhos bailarina olham um gato passeia no teu colo e na vidraça o giz derrama poesia escritas com punhos de ontem em tua cidade de serras onde teus braços bailarina sustentam tuas mãos que colhem uvas coloco águas de chuva para que teus vinhedos não cessem e deles brotem a flor o fruto sagrado e os teus segredos guardados entre os teus lábios de vinho
o amor não e apenas um nome que anda por sobre a pele um dia falo letra por letra no outro calo fome por fome é que a pele do teu nome consome a flor da minha pele
cravado espinho na chaga como marca cicatriz eu sou ator ela esfinge clarisse/beatriz
assim vivemos cantando fingindo que somos decentes para esconder o sagrado em nosso profanos segredos se um dia falta coragem a noite sobra do medo
na sombra da tatuagem sinal enfim permanente ficou pregando uma peça em nosso passado presente
o nome tem seus mistérios que se esconde sob panos o sol e claro quando não chove o sal e bom quando de leve para adoçar desenganos na língua na boca na neve
o mar que vai e vem não tem volta o amor e a coisa mais torta que mora lá dentro de mim teu céu da boca e a porta onde o poema não tem fim
May interperta artur gomes num filme de Jiddu Saldanha
Jura Secreta 41
porque te amo e amor não tem pele nome ou sobrenome não adianta chamar que ele não vem quando se quer porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo pode sangrar pode doer e ferir fundo mas é razãode estar no mundo nem que seja por segundo por um beijomesmo breve porque te amo no sol no sal no mar na neve
ontem sonhei com você noite inteira teus seios pulsavam em mim não sei quando então começou mas sei quando então foi assim
quanto mais pensava dormindo sabendo meu ser acordado fizemos amo dois alados na cama imortal do jardim os anjos do inferno rezavam num gozo de nunca ter fim
por quê trancar as portas tentar proibir as entradas se já habito os teus cinco sentidos e as janelas estão escancaradas?
um beija-flor risca no espaço algumas letras de um alfabeto grego signo de comunicação indecifrável eu tenho fome de terra e esse asfalto sob a sola dos meus pés agulha nos meus dedos
quando piso na Augusta o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo entre o real e o imaginário
João Guimarães Rosa Caio Prado Martins Fontes um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire nem mofo de língua morta o correto deixei na Cacomanga matagal onde nasci com os seus dentes de concreto São Paulo é quem me devora e selvagem devolvo a dentada na carne da rua Aurora
Este poema consta do meu livro “bocadotempo”, de 2001, que será relançado em breve, com algumas atualizações. Ao reler os textos, tive vontade de dividi-los ... espero que gostem!
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras. Que desenhos e rictus na tua cara Como os frisos veementes dos tapetes antigos. Que sombrio te tornas se repito O sinuoso caminho que persigo: um desejo Sem dono, um adorar-te vívido mas livre. E que escura me faço se abocanhas de mim Palavras e resíduos. Me vêm fomes Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te. Cordura. Crueldade.
meus lábios em teus ouvidos flechas netuno cupido a faca na língua a língua na faca a febre em patas de vaca as unhas sujas de Lorca cebola pré sal com pimenta tempero sabre de fogo na tua língua com coentro qualquer paixão re/invento
o corpo/mar quando agita na preamar arrebenta espuma esperma semeia sementes letra por letra na bruma branca da areia sem pensar qualquer sentido grafito em teu corpo despido poemas na lua cheia