sábado, 8 de janeiro de 2011

a traição das metáforas




era 95 e no lance de dados deu 5 quinta feira ouro preto os retalhos imortais do serafim entram em cena nos porões de brazilírica a república do faz de conta onde pastor de andrade na disputa passional por gigi da bateria instala o reino das propinas em campos dos goytacazes desde então denominada goyta city

federika lady gumes macabea e eu federico baudelaire os quatro cavaleiros do após calypso infiltrados nas entranhas desse desenredo inventamos então a mocidade independente de padre olivácio a escola de samba oculta no inconsciente coletivo para o que der e o que não der pois naquele mesmo instante percebemos que macabea era estrela que não sobe e se tornaria letra fora do nosso samba/enredo

federika não gosta do homem mas não gosta da mulher do homem e acha que lê não tem bala na agulha para segurar o trampo na hora do GH segundo clarice lispector e até hoje não entende como macabea continua a dar as cartas no presídio federal das artes cínicas ela conhece bem a peça em seus mínimos detalhes e sabe que o romance é pura conveniência para compra de votos em momentos de disputas eleitorais

federika desconfia que o meu samba é uma homenagem a ex-amante turca mas ela bem sabe que “em meu quintal rosinhas nunca mais” é citação de mamãe que é brega mas é xique mesmo assim mesmo joga da minha cara que ainda ando despetalando rosas mesmo sabendo que o espinho é mais embaixo e o meu samba mais em cima

eu tenho a faca entre os dentes
olho a rua e dou de cara
com nossa senhora de copacabana
minha ex-amante passeia de patins
ouvindo adriana calcanhoto
ao largo do canal
não choro mascaro minha dor
e lanço as mágoas pelo chão
o remédio é que não sou wally salomão
nem muito bem nem menos mal
costuro a nova mortalha
no país do carnaval

tire o seu piercing do caminho que eu quero passar com a minha dor – tinha eu meus pensamentos nos versos de nelson cavaquinho nessa versão pós punk de zeca baleiro mas federika não quer mais saber de porta bandeira da mocidade agora afirma que vai desfilar no império da serrinha da assembléia de deus do ministério de madureira elevo meus pensamentos para os anos 69 e como paulinho da viola ainda tenho o rio que passou em minha vida no meu coração que se deixou levar

federicobaudelaire
http://federicobaudelaire.blogspot.com/

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

eu não sou da tua laia

a flor da tua pele
me provoca amor intenso

mas amor é outra coisa
contrária a tudo aquilo
que penso

por uma lua de água e sal
pelo sol o girassol
pela areia da praia
pela arraia
a vida dos peixes
a tartaruga
a vida pelas rugas
as brigas as intrigas
pelos filhos
pelas filhas
os trapos da mortalha
o carnaval
a carnavalha
pelas tralhas e trilhas
a faca de dois gumes
o fio da navalha

eu estou por aí: guaxindiba santa clara
são francisco sossego gargaú
pontal atafona grussaí
estou sempre na área
trafego na praia
mas não sou da tua laia

“ cravo brigou com a rosa debaixo de uma sacada o carvão saiu ferido a rosa despedaçada. O cravo ficou doente a rosa foi visitar o cravo teve um desmaio a rosa pois-se a chorar”

Dizem que foi por greve de fome. Mas nunca ficou provado

Leia mais aqui: http://artur-gomes.blogspot.com


arturgomes - leminskiando


O COISA RUIM

me querem manso
cordeiro
imaculado
sangrado
no festim dos canibais
me querem escravo
ordeiro
serviçal
salário apertado no bolso
cego mudo e boçal
me querem rato
acuado
rabo entre as pernas
medroso
um verme, pegajoso
mas eu sou osso
duro de roer
caroço
faca no pescoço
maremoto tufão furacão
mas eu sou cão
ladro
mordo
arreganho os dentes
incito a revolta dos deuses
toco fogo na cidade
qual nero
devasto o lero lero
entro em campo
desempato
eu sou o que sangra
um poeta nato

Ademir Assunção
www.fulinaima.wordpress.com

sábado, 11 de dezembro de 2010

Porque hoje é sábado

agora não se fala nada
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e tudo é transparente em cada forma

você não precisa me dizer
o número do mundo desse mundo
nem precisa me mostrar a outra face
face ao fim de tudo

só precisa me dizer
o nome da república dos fundos
o sim do fim
e o tem do tempo vindo


Dia D

Dede que eu saí de casa
trouxe a viagem de volta
cravada na minha mão
interrada no meu umbigo
dentro fora assim comigo
minha própria condução

todo dia é dia dela
pode ser pode não ser
abro a porta ou a janela
todo dia é dia D

há urubus nos telhados
a carne seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa
só escapo pela porta de saída

todo dia mais um dia
de amar-te a morte morrer
todo do mais um dia
menos dia dia D

torquato neto


Quartas Culturais - Cantinho do Poeta
Rua Cardoso de Melo, 42
Campos dos Goytacazes-RJ
Leia mais aqui http://artur-gomes.blogspot.com


Porrada llírica



Dia 15 dezembro 2010 – 21:00hs
Mas Sarau o Benedito
Uma homenagem a Elis Regina
Direção: Aucilene Freitas

Fulinaimagem


1

por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas dde amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim adimirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

arturgomes
http://goytacity.blogspot.com

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

DA TRANSPARÊNCIA DOS CRISTAIS

DA TRANSPARÊNCIA DOS CRISTAIS

A moça
no caixa do supermercado
me diz boa noite
pergunta se quero o cpf
na nota fiscal
e me atira
um sorriso maquinal
que expressa tanta vida
quanto a que está contida
numa caixa de cereal.

A moça
no caixa do supermercado
usa óculos
tem o olhar cansado
e aparenta impaciência
diante da menina
de cabelo cacheado
que choraminga
por um pacote de bombom
diante da mãe que esbraveja
enquanto segura
quatro latas de cerveja.

A
moça no caixa do supermercado
é jovem e bonita
uma beleza modelada lentamente
dir-se-ia
até sorrateiramente
com o barro da desilusão
no rosto dos que fizeram
do próprio coração
monumento e mausoléu
da resignação.

São quase dez horas
e nesta noite de novembro
ela talvez pense
no namorado
nas contas a pagar
no ônibus lotado
em sua volta para o lar.

Mesmo jovem
ela talvez já saiba
que o mundo
trai mais que abriga.
O que ela
com certeza não sabe
é que talvez neste instante
poetas discutem o futuro da poesia
arqueologizam
a concisão dos haicais
mensuram
a transparência dos cristais
enquanto
em outros quintais
a pobreza cala a boca
de reles mortais.

Fernando Freire
Gama, 04.12.2010





tão pimenta tão petróleo

não espere que eu fale só de estrelas
ou do vinho feliz que não tomei
porque fora de mim
não levo além da sombra
uma camisa velha
e dentro do peito um balde de canções
uma gota de amor
no útero de uma abelha

não repare se eu não frequento clube
dos que sugam o sangue das ovelhas
ou amargam o mel dessa colméia
é que eu já vivo tão pimenta e tão petróleo
que se você acende os olhos me incendeia

hoje em dia pra gente amar devera
é preciso ser quase um alquimista
ou talvez o maquinista
do trem da consciência
pra te amar com tanta calma
e com tanta violência
que a tua alma fique toda ensanguentada de vivência

salgado maranhão

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Cantinho do Poeta Quartas Culturais


Pontal


Dia 1 dezembro 21 horas
Encenação teatral com poemas de
Aluysio Abreu Barbosa, Adriana Medeiros,
Antônio Roberto(Kapi) e Artur Gomes.
com Artur Gomes, Yvi Carvalho e Sidney Navarro

Direção: Kapi
Local: Cantinho do Poeta
Rua Cardoso de Melo, 42 – Campos dos Goytacazes-RJ

a flor da pele – pontal foto grafia


tucanos querem você fora da internet
leia aqui
texto contundente de Laerte Braga
sobre segurança pública no Rio
leia aqui:



Pontal Foto.Grafia

Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras – descobrimento
espinhas de peixe convento
cabrálias esperas relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem –
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

arturgomes
leia mais aqui http://palavras-diversas.blogspot.com

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

queimando em mar de fogo

rio das ostras - foto: artur gomes




"É sempre no passado aquele orgasmo,
é sempre no presente aquele duplo,
é sempre no futuro aquele pânico.

É sempre no meu peito aquela garra.
É sempre no meu tédio aquele aceno.
É sempre no meu sono aquela guerra.

É sempre no meu trato o amplo distrato.
Sempre na minha firma a antiga fúria.
Sempre no mesmo engano outro retrato.

É sempre nos meus pulos o limite.
É sempre nos meus lábios a estampilha.
É sempre no meu não aquele trauma.

Sempre no meu amor a noite rompe.
Sempre dentro de mim meu inimigo.
E sempre no meu sempre a mesma ausência".

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O poeta pede a seu amor que lhe escreva


may com fome de livros - foto: artur gomes



http://www.youtube.com/watch?v=0xcfuTJ4I3U
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.

Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de mordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.

Garcia Lorca.

cinema

barra de são joão - foto: artur gomes





para Roberta Von Doelinger

elegante
o dia des
luz-se
apesar
da chuva
a regurgitar
incertezas
nos telhados
apesar da água
a roer os passos
nas calçadas

automóveis passam
motos passam
pessoas passam
a vida
...

parabólicas
postes pequenos pássaros
velam o dia
que zarpa
a sombra
que aporta
e nos umbrais
de tantas portas
em silêncio
a solidão apodrece
sob o capacho

Fernando Freire
Caldas Novas, 20.11.2010

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

sarau palavras diversas

Dia 24 novembro 21:00h
Local: Cantinho do Poeta
Campos dos Goytacazes-RJ

O que a grande mídia não.diz
Leia aqui http://goytacity.blogspot.com

Airton Ortiz fala sobre Havana
Aqui http://artur-gomes.blogspot.com

Quando você for embora


vídeo com Artur Gomes interpretando poemas de
Ferreira Gullar na abertura do XVIII Congresso
Brasileiro de Poesia em Bento Gonçalves


tropicalirismo

girassóis pousando
nu teu corpo
festa
beija-flor seresta
poesia fosse
esse sol que emana
do teu fogo farto
lambuzando a uva
de saliva doce

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Biafra hoje no Sesc Campos







Café Literário – Dia 14 às 18:00h
Bienal do Livro de Campos
Artur Gomes e Fabrício Carpinejar
Mediador: Dedé Muylaert
Leia mais aqui: http://artur-gomes.blogspot.com/



Isadora

onde teus pés bailarina dançam
cato os vestígios do tempo
onde teus olhos bailarina olham
um gato passeia no teu colo
e na vidraça o giz derrama poesia
escritas com punhos de ontem
em tua cidade de serras

onde teus braços bailarina
sustentam tuas mãos
que colhem uvas
coloco águas de chuva
para que teus vinhedos não cessem
esteja sempre em meus caminhos
e deles brotem da flor o fruto sagrado
e os teus segredos guardados
entre os teus lábios de vinho

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com/

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ESTÁTUA POLÍTICA

E a estátua
pálida
e a estátua
estática
e a estátua
polêmica
e a estátua
bêbada
e a estátua
cética
e a estátua
ética
e a estátua
pública
e a estátua
trêmula
e a estátua
vítima
e a estátua
de repente
nem se movia
e ria
do povo que passava
e a estátua
política
nem se mexia

(Renato Gusmão)


dos que predam e dos que são predados

ele
me pediu cinqüenta centavos
eu
dei a ele dois reais
quando lhe estendi a mão
sorriu um sorriso cariado
de submissão
ele
me reconheceu
eu
o reconheci
há cinco anos atrás
aluno da 4ª. série
cumprindo medida
sócio
educativa
quando conversava
mantinha a cabeça baixa
a voz num sussuro
quinze anos
e quase analfabeto
quase menino
quase homem
quase gente
Quasímodo

eu
e ele
havíamos mudado
o mesmo rio do tempo
havia nos banhado
nos envolvido
e transformado
e ao nosso redor
todos dormiam
o sono de Caim
e espinhos devoravam
as pétalas do jardim

nenhum solo de Coltrane
ou rima do Facção Central
serviria como trilha sonora
para o Desencanto
daquela hora
daquele instante
em que a esperança
se tornou figurante

não era a Pedra
no caminho de Drummond
não era o Bicho
de Bandeira
era a miséria
tremulando sua bandeira
era uma vida
que descia na ladeira
e falava comigo
me afastando
de meu umbigo

Fernando Freire

terça-feira, 2 de novembro de 2010

onde estará você agora






Jura secreta 122

esse poema não secreto
muito menos sagrado
mesmo se jura fosse
entre a face de fogo
e os teus olhos beatriz
por onde leio teu livro
no sangue da tua face
a flor na pele de seda
em fragmentos de Dante
as letras sobre o papel
e teus poemas transbordam
rios entrando meus poros
por toda língua delírios
extravasa irrompe penetra

esse poema não secreto
feito em teus olhos beatriz
tensão dos músculos
cravados sobre a palavra
onde pulsa, a cada lavra
a tua coisa mais plena
e esta jura serena
como uma missa profana
e os cabelos da noite cigana
o canto do amor entre a boca
e o mar que em teus seios agita
a febre que queima em meus dedos
e na boca o teu nome palpita


tropicalirismo

girassóis pousando
nu teu corpo
festa
beija-flor seresta
poesia fosse
esse sol que emana
do teu fogo farto
lambuzando a uva
de saliva doce

arturgomes
http://artur-gomes.blogspot.com/


domingo, 31 de outubro de 2010

o que a grande mídia não diz

pintura: alcinéia marcucci

leia aqui: http://goytacity.blogspot.com/




As flores do bem-me-quer

gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire

tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela

percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver

arturgomes

http://pelegrafia.blogspot.com/


Palavras Diversas

a palavra múltipla plural e solta
pelos céus da boca
sarcástica cínica amorosa
de drummond a guimarães rosa
de ferreira gullar a torquato neto
a pala/lavra do leminski
como um arquiteto
que constrói a própria casa
com o furor do fogo em brasa
com cimento tijolo argamassa
e que a massa compreenda
que a massa que transforma o pão
é a mesma que alimenta a massa
que o homem arquiteta
e a praça é o lugar pro seu delírio
a lira que mora dentro do poeta


jura secreta 121

ela me mantém
à distância dos meus braços
que mesmo esticados
não conseguem alcançá-la
no quarto do hotel eu tenho a fala
e digo
desejo o espaço do teu ventre
para proclamar os meus instintos
não minto
eu sinto
muito
que pena
se ainda não conseque
provar dos meus pecados
e se esconde entre hóstia e promessas
eu tenho pressa
quero engravidar-te de saliva
na língua
que escorre pelos anos
abrindo fenda em tuas costas

http://juras-secretas.blogspot.com/

arturgomes

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

palavras diversas






XVIII CONGRESSO BRASILEIRO
DE POESIA HOMENAGEIA
FERREIRA GULLAR

Pela primeira vez nos últimos quinze anos
o Congresso Brasileiro de Poesia
não é realizado na primeira semana
de outubro e sim, no final do mês.
A edição deste ano acontece de 25 a 29,
na cidade de Bento Gonçalves e
homenageará os 80 anos de Ferreira Gullar.

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Esfinge


As flores do bem-me-quer

gaivotas perseguem peixes
quando estão com fome
a musa da minha janela
depois da prova de física
desfolha Charles Baudelaire

tem um jardim imaginário
no quintal desta metáfora
e um mar de algaravias
dentro dos olhos dela

percebo a flor da infância
bem-me-quer em teu cabelos
peixes que não são nuvens
girassóis fosse miragens
na veia algas marítimas
e uma fração logarítima
ainda por resolver

arturgomes
http://pelegrafia.blogspot.com/



Palavras Diversas

Artur Gomes e Mayara Pasquetti estão completando 4 anos de parcerias no palco, estreaiaram em 2006 em Bento Gonçalves, com um recital em homenagem ao centenário do porta gaúcho Mário Quintana. Este ano lá mesmo na serra gaúcha na capital nacional do vinho, durante a programação do XIII Congresso Brasileiro de Poesia, eles estarão mais uma vez dialogando poeticamente com o recital Palavras Diversas, que além da poesia do prório Artur, a dupla faz uma viagem pela poesia de Arnaldo Antunes, Eliakin Rufino, Mário Faustino, Ferreirta Gullar e Torquato Neto.

Se for Poema Fogo do Desejo, neste vídeo filmado por Jiddu Saldanha, eles estão no Parque das Ruínas em Santa Teresa Rio de Janeiro fazendo o que mais gostam: falando peosia.

segue abaixo alguns dos poemas que fazem parte do repertório do Recital Diversas Palavras:

NÃO HÁ VAGAS

O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão. O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabem no poema o operário que esmerila seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras

- porque o poema, senhores está fechado: “não há vagas”

Só cabem no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço

O poema senhores, não fede nem cheira

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo. uma parte de mim é multidão:outra parte estranheza e solidão. Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente. Uma parte de mim é só vertigem: outra parte,l inguagem. Traduzir-se uma parte na outra parte - que é uma questão de vida ou morte -será arte?

Cantiga para não morrer

Quando você for se embora, moça branca como a neve, me leve. Se acaso você não possa me carregar pela mão, menina branca de neve, me leve no coração. Se no coração não possa por acaso me levar, moça de sonho e de neve, me leve no seu lembrar. E se aí também não possa por tanta coisa que leve já viva em seu pensamento, menina branca de neve, me leve no esquecimento.

Ferreira Gullar



O mundo que venci deu-me um amor

O mundo que venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.

O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo,
Por cima de qualquer fosso de sexo.

O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.

Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em campos de vitória...

Mário Faustino(1930-1962)



ditados populares

sem essa de dizer que a pressa
é inimiga da perfeição
eu sou amigo da pressa
perfeição não me interessa
não me interessa não

o que é perfeito está morto
eu quero o falho o feio o torto
quero os pecados da alma
e as imperfeições do corpo

se a pressa é inimiga da perfeição
e é amiga da mudança
irmã da revolução

boca fechada não entra mosca
mas também não sai palavras
que cala consente quem sente fala

o silêncio pode ser uma kaula
é preciso estar atento
é preciso ter cuidado
uma coisa é ser silêncio
outra é ser silenciado

lei do silêncio não faz sentido
o mundo sem palavas sé quadrado
lei do silêncio não faz meu tipo
o meu estilo é ser articulado

Eliakin Rufino

Boa Vista - Roraima - RO



Um instante

Aqui me tenho
Como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas
um bicho
transparente

____________________
Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria
abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.
Do mesmo modo
que da alegria foste
ao fundo
e te perdeste nela
e te achaste
nessa perda
deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas
e em tua carne vaporize
toda ilusão
que a vida só consome
o que a alimenta. _______________________________

ferreira gullar


Socorro alguma alma
mesmo que penada,
me empreste suas penas,
já não sinto amor nem dor,
já não sinto nada.

Socorro alguém me dê um coração,
que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa que se sinta
Tem tanto sentimento
deve ter algum que sirva...


As coisas têm peso,
massa, volume, tamanho,
tempo, forma, cor, posição, t
extura, dura-
ção, densidade, cheiro,
valor, consistência, pro-
fundidade, contorno,
temperatura, função, aparência,
preço, destino, idade, sentido.
As coisas não têm paz.


Iluminuras

Pensamento vem de fora
e pensa que vem de dentro,
pensamento que expectora
o que no meu peito penso.

Pensamento a mil por hora,
tormento a todo momento.
Por que é que eu penso agora
sem o meu consentimento?

Se tudo que comemora
tem o seu impedimento,
se tudo aquilo que chora
cresce com o seu fermento;

pensamento dê o fora,
saia do meu pensamento.
Pensamento, vá embora,
desapareça no vento.

E não jogarei sementes
em cima do seu cimento. *


O amor. sem palavras.
Ou. A palavra amor, sem amor.
Sendo amor, ou. A palavra ou.
Sem substituir nem ser substituída por.
Si, a palavra si, sem ser designada
ou gnificada por.
O amor. Entre si e o que se. Chama amor,
como se. Amasse
(esse pedaço de papel escrito amor).
Somasse o amor ao nome amor,
onde ecoa.
O mar, onde some o mar onde soa.
A palavra amor, sem palavras.

arnaldo antunes



Marginália II

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição
Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo


Let's play that

quando eu nasciu
m anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes
vai bicho desafinaro coro dos contentes

let's play that



dessde que eu saí de casa
triuxe a viagem na mão
cravada no meu umbigo
dentro fora assim comigo
minha prórpria condução

todo dia é dia dela
pode ser pode não ser
abro a porta ou a janela
todo dia é diaa D

há urubus no telhado
a carne seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa
só escapo pela porta de saída

todo dia o mesmo dia
de amar-te a morte morrrer
todo dia mais um dia
menis dia dia D

torquato neto




segunda-feira, 27 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

sampleAndo

SampleAndo



por enquanto
vou te amar assim em segredo
como se o sagrado fosse
o maior dos pecados originais
e a minha língua fosse
só furor dos canibais

e essa lua mansa fosse faca
a afiar os versos que inda não fiz
e as brigas dde amor que nunca quis
mesmo quando o projeto
aponta outra direção embaixo do nariz
e é mais concreto que a argamassa do abstrato

por enquanto
vou te amar assim adirando o teu retrato
pensando a minha idade
e o que trago da cidade
embaixo as solas dos sapatos

2

o que trago embaixo as solas dos sapatos
é fato. bagana acesa sobra do cigarro
é sarro. dentro do carro
ainda ouço Jimmi Hendrix quando quero
dancei bolero sampleando rock and roll

pra colher lírios
há que se por o pé na lama
a seda pura foto-síntese do papel
tem flor de lótus
nos bordéis Copacabana
procuro um mix da guitarra de Santanna
com os espinhos da Rosa de Noel.

arturgomes
http://blogdabocadoinferno.blogspot.com/



Fulinaimagem


Isdora

onde teus pés bailarina dançam
cato os vestígios do tempo
onde teus olhos bailarina olham
um gato passeia no teu colo
e na vidraça o giz derrama poesia
escritas com punhos de ontem
em tua cidade de serras
onde teus braços bailarina
sustentam tuas mãos que colhem uvas
coloco águas de chuva
para que teus vinhedos não cessem
e deles brotem a flor o fruto sagrado
e os teus segredos guardados
entre os teus lábios de vinho

arturgomes
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a flor da pele


Viagem interpoética


A lavra da palavra



Porrada llírica


esfinge

o amor não e apenas um nome
que anda por sobre a pele
um dia falo letra por letra
no outro calo fome por fome
é que a pele do teu nome
consome a flor da minha pele

cravado espinho na chaga
como marca cicatriz
eu sou ator ela esfinge
clarisse/beatriz

assim vivemos cantando
fingindo que somos decentes
para esconder o sagrado
em nosso profanos segredos
se um dia falta coragem
a noite sobra do medo

na sombra da tatuagem
sinal enfim permanente
ficou pregando uma peça
em nosso passado presente

o nome tem seus mistérios
que se esconde sob panos
o sol e claro quando não chove
o sal e bom quando de leve
para adoçar desenganos
na língua na boca na neve

o mar que vai e vem não tem volta
o amor e a coisa mais torta
que mora lá dentro de mim
teu céu da boca e a porta
onde o poema não tem fim

artur gomes
http://juras-secretas.blogspot.com/





IMERSÃO

Imerso em águas
mares
reconsidero a permanência
na inconstância
do sal
sobre o corpo: imerso
em águas
doce
na decomposição
do corpo
ao estado
inicial

frágil em minha
permanência.

(Pedro Du Bois, inédito)

http://pedrodubois.blogspot.com/

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May interperta artur gomes num filme de Jiddu Saldanha



Jura Secreta 41

porque te amo
e amor não tem pele
nome ou sobrenome
não adianta chamar que ele não vem
quando se quer
porque tem seus próprios códigos
e segredos

mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razãode estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijomesmo breve
porque te amo
no sol no sal no mar na neve

Artur Gomes
http://youtube.com/fulinaima


Mário faustino



Jura Secreta 106

ontem sonhei com você noite inteira
teus seios pulsavam em mim
não sei quando então começou
mas sei quando então foi assim

quanto mais pensava dormindo
sabendo meu ser acordado
fizemos amo dois alados
na cama imortal do jardim
os anjos do inferno rezavam
num gozo de nunca ter fim

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/



VeraCidade

por quê trancar as portas
tentar proibir as entradas
se já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija-flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e esse asfalto sob a sola dos meus pés
agulha nos meus dedos

quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista

flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário

João Guimarães Rosa Caio Prado
Martins Fontes um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na Cacomanga
matagal onde nasci
com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua Aurora

Artur Gomes
http://artur-gomes.blogspot.com/

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Sobre pontes que voam

Vagu
ei s
obre águ
as
per
didas,

e des
cobri
que
já tinh
am s
ido

as p
artes
que
sem
pre
bus
que
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qu
ando
ando
busc
ando
o in
teiro

desc
ubro

o quan
to me
frag
men
tei
.
.
.

Mauro Veras.

Este poema consta do meu livro “bocadotempo”, de 2001, que será relançado em breve, com algumas atualizações. Ao reler os textos, tive vontade de dividi-los ... espero que gostem!

terça-feira, 14 de setembro de 2010

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

do silêncio dos poetas

arturgomes - http://collagensfulinaimicas.blogspot.com/








o poema
recolhe-se
a escuridão
das frestas
enquanto
palavras perambulam
pela cerâmica fria
despedaçam-se
contra a louça suja
acumulada na pia
nem Beethoven
e sua 7ª. sinfonia
nem a eternidade
e sua
falsa homilia
apenas palavras
e silêncio
velas sem ventania
entregues ao sabor
da calmaria
palavras sem morada ou teto
sem significado abstrato
ou concreto
traídas no horto
sedentas de rumo
saudosas de porto
em busca de um poema
seja qual for a métrica
ou o tema
não precisa
ser elegia ou soneto
eu juro
eu prometo
pode ser
em verso livre
como a poesia que vive
na mansão e na rua
pode falar do sol
pode falar da lua
da minha dor
ou da tua
não precisa
ser poema chique
quero apenas
que chegue e fique

Fernando Freire
Samambaia, 05.09.2010




Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
Todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

Drummond
Ver-te. Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Que desenhos e rictus na tua cara
Como os frisos veementes dos tapetes antigos.
Que sombrio te tornas se repito
O sinuoso caminho que persigo: um desejo
Sem dono, um adorar-te vívido mas livre.
E que escura me faço se abocanhas de mim
Palavras e resíduos. Me vêm fomes
Agonias de grandes espessuras, embaçadas luas
Facas, tempestade. Ver-te. Tocar-te.
Cordura.
Crueldade.

Hilda Hilst

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

jura secreta in saquarema



meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia

arturgomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com