quinta-feira, 15 de abril de 2010

Ind/Gesta 3


http://collagensfulinaimicas.blogspot.com/





pOEsia tesão
teu nome
trans forma
ritual & gesto
não presto
porque te AMO
te
AMO
porque NÃO presto

OiTI cica
Sendo fica
COSMO COCA
dAndo NÓ
ouro branco
língua rica
quanta Arte
no meu
PÓ

Federico Baudelaire
ViAgens Insanas pelos INcravos da Rosa
http://federicobaudelaire.blogspot.com/




Ócio preguiçoso
Ocioso tempo [
Movi] Mente anti-
a inércia dos antropo-
ilógicos
ou dos astro-
relógicos
na ir-regularidade


Karol Penido
Juras secreta 18

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo
peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos

e as rendas íntimas que vestias
sobre os teus pêlos ficção
todos os laços dos tecidos
e aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
e o baton da tua boca
e o sabor da tua língua
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes
para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado

se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa

Jura secreta 43

afora em mim grafitemas
nenhuma figuralidade
frutas legumes verduras
quem cala a fala consente
houve um dia que a dita/dura
calou a fala da gente

grafito em tua carne de pedra
medusa de sete patas
poema de sete cabeças
miragens do amor que enlouqueça
apóstolos na santa ceia

miró brincando de circo
de olho na lua cheia

Jura secreta 16

fosse esta menina monalisa
ou se não fosse apenas brisa
diante da menina dos meus olhos
com esse mar azul nos olhos teus
não sei se michelangelo da vinci
dalí ou portinari te anteviram
no instante maior da criação
pintura de um arquiteto grego
quem sabe até filha de zeus
e eu narciso amante do espelho
procuro o espelho em minha face
para ver se os teus olhos
já estão dentro dos meus

Jura Secreta 55
para Ana Gusmão

xangô é parte da pedra
exu fagulha de ferro
ogum espada de aço
faz do meu colo teus braços
oxossi carne da mata
iansã é vento fogo tempestade
yaemanjá água do mar
oxum é água doce
oxalá em ti me trouxe
te canto como se fosse
um novo deus em liberdade


Mar de Búzios

vaza sob meus pés
um rio das ostras
enquanto minha mãos em conchas
passeiam o mangue dos teus seios
e provocam o fluxo do teu sangue
os caranguejos olham admirados
a volúpia dos teus cios
quando me entregas o que traz
por entre as praias e permites desatar
todos os nós do teu umbigo
transbordando mar de búzios
- oceanos
atrlântico pulsar entre dois corpos
que se descobrem peixes
e mergulham profundezas
seja qual for a hora
em que ser beijam num pontal
em comunhão total com a natureza


Viagem Tropical

Ah! Meu amor
que maravilha!
apesar dessa quadrliha
tudo aqui vai muito bem
tudo aqui nada vai mal
isso aqui ainda é Brasílha
ou já é novo Pantanal?

a ostra e o vento
p/Branca Lima

fosse marcela uma ilha
deserta atlântica
maravilha
iria eu lá naufragar
fosse só algas e peixes
pérola ostra
armadilha
cabelos fossem só vento
seus olhos fossem só mar

Jura secreta 56

tens uma menina vadia
entre os teus olhos de ninfa
e o vulcão no teu umbigo
flor de lótus pele roxa
alguma alga marinha
na preamar das densas coxas
aberta mulher ao cio
desejo-te enquanto bebe come
onde provas do gozo ri e chora
teus beijos água de rio
mistério que me devora

Curto/circuito

quem disse que amor
é mudo
surdo
cego
não sabe o que carrego
em meu estado de surto

biologicamente fulinaímica falo

sensualidade em tua boca é mato
cama em que me basta e pasto
quando um deus fiat-lux
tendo a pólvora fez o fósforo
e deu-se a primeira explosão
bola de fogo sem limites
e nos espermas de uranos
michele sato já me disse
germinou-te eva e afrodite
o ser da tropicália a tropicanAlice
e sendo adão homem primeiro
deu-me as mãos para o direito
em devorArte pela arte inteira
vênus qualquer sendo de marte
tens dentro da carne brasileira
poderosas fibras na textura
santa mulher nossa senhora
a profanação pela loucura
para equilibrar o planeta onde mora

Injúria secreta

suassuna no teu corpo couro de cor compadecida ariano sábio e louco inaugura em mim a vida
pedra de reino no riacho gumes de atalhos na pedreira menina dos brincos de pérola palavra acesa na fogueira pós os ismos tudo é pós na pele ou nas aranhas na carne ou nos lençóis no palco ou no cinema a palavra que procuro é clara quando não é gema até furar os meus olhos com alguma cascata de luzd evassa em mim quando transcende lamparina que acende e transforma em mel o que antes era pus



poema/invenção/poema
poema/invenção/poema
inventar o nada por de trás da tarde se é savary em olga tudo é quanto arde se em césar castro anjo antropofágico radiografando o trágico no corpo do pivete gol de letra do moleque federico serAfim
reinventar enfim com ferocidade como fogo em brasa pra não morrer de tédio por morar numa cidade onde nem a minha casa não mora mais em mim.

fulinaimicamente

do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente
no improviso do repente
do som dessa palavra
nasce uma outra palavra
fulinaimicamente

brasileiro sou bicho do mato
brasileiro sou pele de gato
brasileiro mesmo de fato
yauaretê curumim carrapato

em rio que tem piranha
jacaré sarta de banda
criolo tô na umbanda
índio fui dentro da oca
meu destino agora traço
dentro da aldeia carioca

jackson do pandeiro
federico baudelaire
nas flores do mal me quer
artur rimbaud na festa
de janeiro a fevereiro
itamar da assunção
olha aí zeca baleiro
no olho do mundo cão


fulinaíma

misturei meu afro reggae a muito xote
do xaxado ainda fiz maracatu
maxixe frevo já juntei ao fox trote
quando dancei bumba meu boi em pernambuco

fulinaíma é punk rock
rasgando fados em bossa nova
feito blues
para pintar a pele branca de vermelho
e repintar a pele preta de azuis...

botei sanfona no rufar desse baião
tambor de minas capixaba no lundu
no paraná berimbau de capoeira
dancei em noites de lual no maranhão

mas em são paulo pedras quando rolam
pelos céus de nossas bocas meus irmão
fulinaíma azeita o caldo da mixtura
para fazer o que não jazz ainda soul

porção de restos de alguma partitura
que algum músico com vergonha recusou
por ser estranho o que naquilo descobriu
mas se a gente canta no cantar essa ternura
é que mamãe mamãe mamãe macunaíma
ainda chora pelas matas do Brasil

Goytacá Boy

gosto de cumer
a traça
e se és parte da raça
nesta selva
vira caça
se és humana
e ultrapassa
a espécie
do que caço
estás salva
dos meus dentes
mas se ainda
és curuminha
por onde vais e caminha
entre a cidade
e o matagal
pode inspirar
meu samba/enredo
e desfilar
entre os meus dedos
onde tudo é carnaval

drummundana itabirina

fedra margarida a resolvida
decidira desfilar pela última vez
portando falo
resolvera desnudar de vez
a sua outra mulher
brazílica amanheceu incrédula
cartazes faixas manchetes vozes vozerios
por todas as vias multmeios multvias
voziferavam: Não ao Sim
e margarida flor impávida
lá foi beira-mar contando estrelas no cruzeiro
e césar que não é castro
continuou a pigmentar seu mastro
no outro lado da tela
e um dia fedra sorrindo
com o pênis/baton da louca
foi ao boca de luar da Fedra
e voltou com o luar na boca

SagaraNAgens

guima meu mestre guima
em mil perdões eu te peço
por esta obra encarnada
na carne cabra da peste
da hygia ferreira bem casta
aqui nas bandas do leste
a fome de carne é madrasta

ave palavra profana
cabala que vos fazia
veredas em mais sagaranas
a morte em vida Severina
teu grande serTão vou comer

nem joão cabral severino
nem virgulino de matraca
nem meu padrinho de pia
me ensinou usar faca
ou da palavra o fazer

a ferramenta que afino
roubei do mestre drummundo
que o diabo giramundo
é o narciso do meu ser


lua cheia

tenho traficado como um bardo
farejado como um cão
coyote vira lata
por estas ruas de março
nesta cidade vadia
namorando a lua cheia
quando baixa no leblon
na sola do meu sapato
devorando a claudia raia
e mastigando este barato

olho de lince

onde engendro
a sagarana

invento
a sagaranagem

entre a vertigem
e a voragem

na palavra
de origem

entre a língua
e a miragem


mordendo: o vírus da linguagem
no olho de lince do poema



Engenho

engenho na palavra
é Arte

Arte na palavra
engenho

tenho a vida
como Arte

Arte como a vida
tenho


Detrito Federal

profano as tetas da vaca
e dou descarga na coisa privada
para limpar a coisa pública
estou aqui na república
império das empreiteiras
navios bancos fantasmas
laranjas vampiros de fato
dos esgotos surgem os ratos
nos palácios senados congressos
poeta não é o bobo da corte
poeta é pedra no sapato
governabilidade é o cacete
política não é só panfletagem
um país não é só a sacanagem
que se varre para baixo do tapete

dia d
,
furai
a pele das partículas dos poemas
viemos das gerações neoabstratas
assistindo a belos filmes de Godart
inertes em películas de Truffaut
bebendo apocalipses de Fellini
em tropicâncer genocidas de terror
,
sangrai a tela realista dos cinemas
na pele experimental do caos urbano
,
tragai
Dali pele entre/ossos
Glauber rugindo enTridentes
na língua do veneno o gozo das serpentes
nos frascos insensíveis de isopor
,
caímos no poder do vil orgânico
entramos no curral dos artefatos
na porta de entrada os artifícios
na jaula sem saída os mesmos pratos
Querido Artur
Você é umas das mais bonitas provas do quanto a virtualidade é o mais concreto dos mundos. O que me tocou quando te conheci foi a sua forma de ressignificar as palavras. Cansada de ler “batatinhas quando nascem”, sempre desejei alguma coisa nova...
Alguma criação revolucionária que pudesse sair da mesmice, que pudesse mudar a vida, reinventando a paixão.
Suas palavras enlouquecem verbos, deliram na musicalidade de quem ama e deve também fazer estragos aos quadradinhos que querem rotular tudo numa corrente literária, sem compreender as energias que transcendem escolas. Dizer que admiro você, frente a este contexto, parece pouco:
EU DELIRO POR VOCÊ!!!!
Michèlle Sato


Leminski Ana 9
para Marisa Francisco

o estado pode ser de choque
ou quem sabe até de surto
o soco pode ser no estômago
a facada for ferir o fígado
o bandido me assaltar na via
o sangue explodir na veia
a vodka só me der asia
todo instante que vier eu curto
a palavra que pintar eu furto
tudo o que faço é poesia.

anjo torto

meninas para mim
serão sempre meninas
jóia rara coisa fina
cássia eller zélia duncan
marisa monte ana carolina
adriana calcanhoto

não sou mário sá carneiro
nem nasci em fevereiro
eu sou eu não sou o outro
não sou pilar da ponte de tédio
mas posso ser o intermédio
pra amenizar teu desconforto

não há fórmula nem remédio
eu sou mesmo o anjo torto


um tiro oculto na gramática 2

poeta diabo de 5 letras
uma metade homem
outra metade cometa
iluminado como sol
na garganta do futuro
espírito santo na boca
em cada palavra que procuro

Retalhos Imortais do SerAfim

atiro contra o tédio infame pedaços do meu corpo em prumo poemas refazendo em transe retalhos de um tecido em partes seguindo por segundo a trilha na etérea construção da arte

Foto.Grafia Urbana

entre a lâmina e o perfume
as garras do tigre nos teus dentes
entre a língua do lagarto
e o olho das serpentes
entre o amor e o ciúme
à flor da pele
no tecido que seduz
ou na foto que revele.

amor de telenovela

amei uma mulher que não era
mas era como se fosse
como se fosse terra
como se fosse água
como se fosse fogo
como se fosse ar
como se fosse mata
como se fosse mar
como se fosse céu
como se fosse chuva
como se fosse chão

não era uma vera ficher
mas era como se fosse
não era a débora secco
mas era como se fosse
nem carolina dickman
mas era como se fosse
não era nicole kidman
mas era como se fosse
nem marieta severo
mas era como se fosse

não era uma imperatriz
mas o nosso castelo
era como se fosse
as Minas do Rei Salomão

amei esta mulher feliz
que era como se fosse
atriz de televisão.


20 de fevereiro

fosse quântico esse dia
calmo
claro
intenso
inteiro
20 de fevereiro
sendo assim esperaria

mesmo que em meio a tarde
tempestades trovoadas
insanidades
guerras frias
iniquidade
angústia
agonia
mesmo assim esperaria

20 horas
20 noites
20 anos
20 dias
até quando esperaria?

até que alguém percebesse
que mesmo matando o amor
o amor não morreria


LadyGumesAfrincan'sBaby
para Samaral in/memorian

meto meus dedos cínicos
no teu corpo em fossa
proclamando o que ainda possa
vir a ser surpresa
porque amor não tem essa
de cumer na mesa
é caçador e caça
mastigando na floresta
todo tesão que resta
desta pátria/indefesa.

ponho meus dedos cínicos
sobre tuas costas
vou lambendo bostas
destas botas neoBurguesas
porque meu amor não tem essa
de vir a ser surpresa
é língua suja/grossa/visceral/ilesa
pra lamber tudo o que possa
vomitar na mesa
e me livrar da míngua
desta língua portuguesa


Meta Língua

onde falo sagarana
leiam sagaranagem
junção de gana e garagem
engrenagem que move o mundo
músculo do automóvel
extirpado do sub-mundo
da grafia
da gramática
poema não matemática
linguagem prosa no verso

dos campos beijo as galáxias
em serAfim o concreto
revejo as liras de antes
em guimarães o projeto.


coragem mamãe
numa canção do lenine o peixe está na rede o mar está com sede o rio agora chora onde esta cidade pedra veracidade medra eu te esfinjo drama onde a ferocidade fedra eu te desejo deda eu te devoro dama pensando a trama do torquato eu disse mamãe coragem a vida é sagaranagem fulinaíma é viagem te levo na minha bagagem não chora mamãe não chora

Baby é Cadelinha

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob o esterco de vênus
onde me perco mais me encontro menos
de tudo o que não sei
só fere mais quem menos sabe
sabre de mim baioneta estética
cortando os versos do teu descalabro

visto uma vaca triste como a tua cara
estrela cão gatilho morro:

a poesia é o salto de uma vara

disse-me uma vez só quem não me disse
ferve o olho do tigre enquanto plasma
letal a veia no líquido do além
cavalo máquina meu coração quando engatilho

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os demônios de eros
onde minto mais porque não verus
fisto uma festa a mais que tua vera
cadela pão meu filho forro:

a poesia é o auto de uma fera

devemos não ter pressa
a lâmina acesa sob os panos
quem incesta?
perfume o odor final do melodrama
sobras de mim papel e resma
impressão letal dos meus dedos imprensados
misto uma merda a mais que tua garra
panela estrada grão socorro:

a poesia é os fausto de uma farra

poÉtica

tudo o que há em mim
é canto
tudo o que há em mim
é fala
por isso
mesmo quando Mudo
o que há dentro de mim
não cala.

Foto.Grafia anti Nuclear


meu objeto concreto
é um poema abstrato
impressionista
realista
quem sabe até
neo concretista
poderoso artefato
uma bomba de hiroshima
uma rosa parafina
ou quem sabe uma menina
que conheci
só no retrato

VeraCidade

porque trancar as portas
tentar proibir as entradas
se já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija-flor risca no espaço
alguma letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável
eu tenho fome de terra
e esse asfalto sob a sola dos meus pés
agulha nos meus dedos

quando piso na augusta
o poema dá um tapa
na cara da paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário

joão guimarães rosa
caio prado martins fontes
um bacanal de ruas tortas
eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
são paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada
na carne da rua aurora

guimarães/rosa


a rosa de guimarães
não é apenas palavra prosa
muito menos pura poesia
ave palavra magma
grande sertão sagarana
veredas do mato dentro

a rosa de guimarães
é grande jardim planetário
na construção do espaço/tempo
que ainda hoje cultivo
no meu quintal imaginário
e colho dessa matéria
o essencial elemento.

sagração da primavera

se sou teu vinho
me beba
se sou tua carne
me coma
para matar a tua sede
para aumentar a tua fama
me leva
pra tua rede
me leva
pra tua cama.

elemento/fúria

teus dentes instigam
meus instintos
trama
em que a língua
tara
trafego tuas trilhas
e tramo a telha
que me der na tralha
palavra é instrumento solto
entre sorriso e dentes
enquanto língua em minha fala.


carNAvalha

beberei em teu sorriso
licores do céu da tua boca
mesmo suja de baton ou louca
em nossa sede visceral
quero teu cio baby
tuas dádivas de Vênus
amor é mais nunca de menos
que seja a vinho gin ou coca
que seja a ópio ou serpentina
lança perfume ou cafeína
beber teus olhos minha sina


FlorBela

fosse apenas uma menina
mesmo assim a rima
desce no mais íntimo
fundo do teu íntimo
muito pra lá de onde
a tua boca chora
onde a lágrima é brasa
e acende a chama quente
como um beijo líquido
no teu cio aceso
entre os teus seios entre
é onde falo no teu corpo agora


Indiscreta

outras imagens outras
se escrevesse ou me dissesse
e Clarisse ainda me disse
teu fogo inda me devora
arde queima consome
tua língua lambe meu nome
na bruma branca das horas


anjo em transe 1
fosse o que apenas já foi dito escrito falado pensado não fosse tudo o que já foi maldito e nada do que nunca foi sagrado falo em tua boca enquanto um anjo em transe me ilumina tanto que mesmo mudo em tua língua canto como um diabo que subindo aos céus tentou muito mais de uma vez quem sabe gregório ou quem sabe castro descendo aos infernos como sempre fez talvez camões no corpo de um astro me lance infinita a chama da pornoGráfica lucidez

Marina de La Riva
voz de onde me vem Marina mar de corais e sais ilhas tropicais em si em sóis em lá de onde me veme sta mulher em sons vocais e sendo ainda de la riva eu vi menina com tua iris feminina nos verdes campos canaviais

Jura Não Secreta

quero dizer que ainda arde
tua manhã em minha tarde
a tua noite no meu dia

quero dizer que ainda é cedo
ainda tenho o samba enredo
é só vestir a fantasia

quero ser teu mestre sala
e você porta/badeira
quando chegar na quarta feira
a gente inventa outra fulia

Jura secreta 45

de Dante a Chico Buarque todos poetas já cantaram suas musas beatriz são todas beatriz são tantas beatriz são muitas beatriz são quantas algumas delas na certa também já foram cantadas por este poeta insano e torto pra lhes trazer o desconforto do amor quando bandido beatriz são nomes mas este de quem vos falo não revelo o sobrenome está no filme sagrado na pele do acetato na memória do retrato beatriz no último atoda divina comédia humana quando deita em minha cama e come do fruto proibido

Black billy

ela tinha um jeito gal – fatal vapor barato
toda vez que me trepava as unhas como um gato
cantar era seu dom chegava a dominar a voz
feito cigarra
cigana ébria vomitando doses do seu canto

uma vez só subiu ao palco
estrela no hotel das prateleiras
companheira de ratos na pele de insetos
praticando a luz incerta no auge do apogeu

a morte não é muito mais que um plug elétrico
um grito de guitarra uma centelha
logo assim que ela começa
algo se espelha na carne inicial
de quem morreu

Pornofônico confesso

se este poema inocente
primitivo natural indecente
em teu pulsar navegante
entrar por tua boca entre dentes
espero que não se zangue
se misturar o meu sangue
em teu pensar quando antropo
por todas bocas do corpo
em total porno grafia
na sagração da mulher

me diga deusa da orgia
se também tu não me quer
quando em ti lateja e devora
palavra por palavra
por dentro e por fora
em pornofonia sonora
me diga lady senhora
nestes teus setenta anos
se nunca gozou pelos ânus
me diga bia de dora
num plano lítero/estético
qual cibernético ou humano
que te masturba ou te deflora

Brasília

goi áis cerrado bordado
vestido de cora coralina
as vezes me deixa encantado
outras vezes me alucina
me transforma em leopardo
nas garras da tua menina

piqui fruto do mato
olho de boi visgo de jaca
jaraguá jaquatirica
ceilândia olho de vaca
taguatinga em meu retrato
brasília em mim significa

sabor de carne mordida
lambida até o caroço
na boca da bia morena
que mora em meu poema
sem alarde
alvorada ou alvoroço

bolero blue

beber de conhac
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas entre os dentes
indecente
é a forma que te como
bebo ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai

vôo rasante

desce
ao mais secreto
ao submerso
submundo
desse mundo
que o amor
é mais propfundo
não cabe em superfície
só no fundo

Jura Secreta 54
moro no teu mato dentro não gosto de estar por fora tudo que me pintar eu invento como o beijo no teu corpo agora desejo-te pelo menos enquanto resta partícula mínima micro solar floresta sendo animal da mata atlântica quântico amor ou meta física tudoo que em mim não tem respostas metáfora d´alquimim fugaz brazílica beijo-te a carne que te cobre os ossos pele por pele pelas tuas costas os bichos amam em comunhão na mata como se fosse aquela hora exata em que despes de mim o ser humano e no corpo rasgamos todo pano e como um deus pagão pensamos sexo.

Sangração das Minas

quando penetrei teus Montes Claros
rocei os pêlos das montanhas brancas
flocos de neve entre as tuas coxas
onde a boca me engolindo falo/dedos
como se as Minas
no pátio não houvesse trancas
nem nos currais cancelas
como se o esperma
do meu corpo quente
fosse somente
o alimento delas
mastigado entre seus dentes
de jaguatirica
sangrado fui teu Ouro Preto
quando devorei tua Vila Rica

nina & louise

quando meus olhos te vêem
com àquelas meias listradas
e o vermelho nariz de palhaço
brinca em meu peito a infância
que nunca deixou de existir
guardada em algumas gavetas
das sete vértebras humanas
razão do ser que vivi

Esfinge 3

érica alice por quanto mais
eu não a visse estava ali
uma miragem
sem que eu fingisse
só voragem
uma mosca em minhas costas
tatuagem quase oposta

a mulher que em carne eu visse
me olhando bem de frente
com teus olhos de serpente
azuis que de repente
devoravam-me no que disse

lavra palavra

a lavra da palavra quero
quando for pluma
mesmo sendo espora
felicidade uma palavra
quando a lavra explora
se é saudade dói
mas não demora
e sendo fauna
linda como a flora
lua luanda
vem não vá embora
se for poema
fogo do desejo
quando for beijo
que seja como agora

Avatar

avatar/esfinge
o que importa?
se aberta a tua porta
me transporta para o mar
e a janela por detrás
das tuas costas
mostra a linha do horizonte
que divide o equador
estrada/ponte
que me leva
seja lá por onde for

sobre as ondas teresina

se queres que eu grite
a morte da natureza morta
antes pense Magritte
a natureza reta
de alguma palavra torta
sobre o sangue a flor da pele
Michelle nua me entorta
em ondas de mar e lua
Gisele levita atrás da porta

Funk Dance Funk
a noite inteira invento joplin na fagulha
jorrando cocker na fornalha
funkrEreção fel fala
fábio parada de Lucas é logo ali
trilhando os trilhos centrais do braZil.

rajadas de sons cortando os ínfimos
poemas sonoros foram feitos para os íntimos
conkretude versus conkrEreção
relâmpagos no coice do coração.

quando ela canta eleonora de lennon
lilibay sequestra a banda no castelo de areia
quando ela toca o esqueleto de Lorca
salta do som em movimento enquanto houver
e federika ensaia o passo que aprendeu com mallarmé

punkrEreção pancada onde estão nossos negrumes?
nunkrEreção negróide nada.
descubro o irado Tião Nunes
para o banquete desta zorra
e vou buscar em Madureira
a Fina Flor do Pau Pereira.

antes que barro vire borra
antes que festa vire forra
antes que marte vire morra
antes que esperma vire porra,
ó baby a vida é gume
ó mather a vida é lume
ó lady a vida é life!


Drummundo

eu sou drummundo e me confundo
na matéria amorosa
posso estar na fina flor da juventude
ou atitude de uma rima primorosa
e até na pele/pedra quando invoco
e me desbundo baratino
e então provoco umbarafundo cabralino
e meto letra no meu verso estando prosa
e vou pro fundo do mais fundo
o mais profundo mineral
guimarães rosa


Marçal Tupã
meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock and roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi-bumbá
a veia de curumim
é coca cola & guaraná



engenho 484
para Jiddu Saldanha
arrancar do gesto
a palavra chave
da palavra a imagem xis
tudo por um risco
tudo por um triz
o trem bala
cospe esqueletos
no depósito da central
fuzil pode ser nosso brinquedo
- novo enredo -
para o próximo carnaval.

e pelas mãos do tempo levarei as tuas como cara/velas de um mar sem tempo ou eras quando a primavera ainda flor de lótus ou a flor do lácio quando abrir teus cios esta flor em pétala quando em teus cabelos pele flor e pêlos eu navegar teus rios te levarei por mares nunca dantes navegados lá onde descobrirei o mistério do azul nestes teus olhos planeta que ainda hei de habitar por dentro lá onde o centro do universo mora e meu verso ficará plantado em todos os segundos que viver na tua hora

EntriDentes 2

paixão é fome fogo festa
quando a foto traz o nome
quando o nome o fogo empresta
o vermelho na parede
o carnaval em tuas unhas
acende a fogueira de lácio
e olivácio salto em transe
no trampolim da tua boca
rasgando a carne que transpunha
as tuas roupas de bruxa
entre pêlos e tecidos
no espaço dos mistérios
na lâmina entre os dentes
a palavra em tua língua
na saliva das serpentes
como o veneno
mais profundo
lambendo os olhos do teu corpo
sob os lençóis do meio dia
enquanto o que pesa
é quanto vale
onde com sangue
escreveria

: se não fosses Eva quem seria?


Dani-se morreale
Se ela me pisar nos calos
Me cumer o fígado
Me botar de quatro
Assim como cavalo
galopar meus pêlos
devorar as vértebras
Dani-se
Se ela me vier de unhas
Me lascar os dentes
Até sangrar meu sexo
Me enfiar a faca
Apunhalar meus olhos
Perfurar meus dedos
Dani-se
Se o amor for bruto
Até mesmo sádico
Neste instante lírico
Se comédia ou trágico
Quero estar no ato
E Dani-se o fato
Deste sangue quente
Em tua boca dos infernos
Deixa queimar os ossos
E explodir os nossos
Poemas
Pós modernos


Profanalha Nu Rio

a flecha de são sebastião
como ogum de pênis/faca
perfura o corpo da glória
das entranhas ao coração

do catete ao largo do machado
onde aqui afora me ardo
como bardo do caos urbano
na velha aldeia carioca

sem nenhuma palavra bíblica
e muito menos avária

: orgasmo é falo no centro
lá dentro da candelária


Metáfora

cavalo passo em tua janela e sem rédeas arreios ou celas alazão que sou de selvagens pradarias lagarto a soltar a pele depois de 40 dias me verão eu tigre expulso das jaulas farejando a caça pelos becos das tardes onde estão os alucinados da cidade enquanto ardendo ao sol a carne do meu corpo de estrelas cadentes e luas menstruadas despeja sobre teus olhos uma enchurrada de palavras como as cachoeiras que ainda não conheces e delas ainda não provou do líquido que teima em escorrer entre as tuas coxas onde minha língua há de beber um dia em que os sentido me despertem e eu vá olhar os lírios nos pântanos.


Unplugged(não ria é sério)

quero botar no teu orkut
um negócio sem vergonha
um poema descarado
ta chegando fevereiro
e meu Rio de Janeiro
fica lindo mascarado

quero botar no teu e-mail
um negócio por inteiro
que eu não sou zeca baleiro
pra ficar cantando a mama
que ainda tem medo do papa

meu negócio é só com a mina
que me trampa quando trapa
meu negócio é só com a mina
que me canta ouvindo o rappa


Met/Áfora 2

não me verás lugar algum enquanto os dentes não forem postos e na mesa tenha espaço para todos esse país que atravesso corpo devasso grito na cara do silêncio na boca dos escravizados eu que venho das profundezas desse tempo escuro onde as caras soterradas no asfalto onde os homens de verde desejavam chumbo sobre nossas palavras não me verás lugar algum o rosto que em mim verás agora é uma máscara que o tempo se encarregou de moldurar sobre o pescoço.


Pétala em Transe: tipo graficamente
em alguma esquina da tarde vejo em alguma vitrine que o sangue é vermelho em quem arde tipo graficamentee leio em teus olhos d´água em transversal transcendente a palavra: diagramação e deda é onde te beijo dédala mais tarde logo depois diante o computador no poema li teus olhos na tela quando um beija-flor me revela: não és pedra ou matéria in/odor és sim: pétala em transe e paixão as letras escorrem em teus dedos nas menchetes de um jornal semanário sem querer descobri teu diário onde já estão lá os segredos deste amor que me é profissão onde deito em teu corpo os vinhedos e em teu ser já deixei minhas mãos

antropofagicamente
this is the question
se é para matar a fome aline
se é para matar a sede alice
se é para cumer teu nome
metáfora tropicana
lambe a tropicAnalice
e com a letra que restar do sobrenome
reInvento a tropicália
vais me ter em sagarana
mordo teus lábios de cigana
e só tua boca me define

indicativo presente

olho dentro do teu olho
para que olhe na minha cara
e cara a cara me diga
a quantas anda a nossa briga
do nosso amor pela ética
se é tão estranha a poética
do só pensar lá na frente
que eu já até perdi a conta
nesse pretérito faz de contas
das quantas vezes
que já votei pra presidente
e o nosso país do futuro
que nunca chega no presente


Flor de Lótus

Eva é quando chegas
e te apossas dos meus lábios
por inteiro
como se arte fosses
e teu corpo flor de lótus
nascendo aqui na minha cara
quando me vens
com tais palavras
e me vira pelo avesso
Eva que enfim foste o começo
quando a maçã em mim devora
fogo do amor não tem segredo
chama que queima a qualquer hora

Luz do Sol

fosse-me então matéria prima
sendo mulher mais que uma rima
Vanessa artéria me atravessa
a veia aorta
e me transporta
a outros climas no cinema
e sendo nega
não me nega
a luz na pele
e sendo pele me revela
o quanto és gente
e sendo gente
me aporta
enquanto vela
e sendo ela
acende a chama
pelos mares que atravessa


terra/mãe

agora que pairas sobre o tempo
quando o tempo ainda é tempo
ou quando invento no meu corpo
este teu tempo de existir
e reInvento o que ainda não existe
ou quando o tempo já se foi
sem sequer se existisse
ou se não visses tudo em ti
se já passou

agora mãe
é quando terra ainda me lembro
de algum tempo
na ferrugem que ficou
roendo os ossos dos meus dedos
não tenhas medo
de dizer que ainda é cedo
se alguma lágrima
sai do tempo que brotou


Estrela de Fogo

Atiçais
tudo que em mim
ainda queima e arde
fogo com o sol da tarde
carne de maçã em desalinho
lua quando chega noite
por estas noites de março
entre os lençóis e o linho
um mar em nossa janela
estrela quando brilhante
acende meus olhos em brasa
e exalas por toda casa
até na matéria bruta
perfume de mulher
como açoite
faminto que sou como a fruta
e bebo teus lábios de vinho


terceiro ato

ana quando a vida não for sacana
a gente engendra a sagarana
inventa a sagaranagem
não te preocupes luisa
com o elo da nossa engrenagem
com a direção do vento norte
ou se vem do sul esta brisa
embaixo da tua camisa
palpitam dois lindo seios
e as minhas mãos alcançam em cheio
nas cenas que já escrevi
com os sonhos que prometeu
mas que agora não são mais teus
eles ficaram por aqui

anjo em transe 3
débora é Évora pela arte inteira flor que entrou na carne não por pura brincadeira mesmo se esvai é quando fica em todo o corpo o que é dela teus portugais em mim significa o quanto canta ou quando cala e aos meus olhos se revela tua linguagem em minha fala não quero nada que não queiras se não quiser palavra inteira te canto de outra maneira mesmo mudo surdo cego quero tudo de ti: não nego como a cor da tua peleque em minha pele passeia e o fluxo do teu sangue circulando em minha veia

Beatriz a Faustino

pudesse eu divagar pelos teus poros
bosque do teu reino em teus pêlos
mergulhar contigo o mar da fonte
atravessar da carne a pele a ponte
penetrar no orgasmo dos teus selos.

pudesse eu cavalgar por tuas crinas
no dorso cavalar onde deflora
deixando assim então de ser menina
e me tornar mulher por toda sina
no inferno céu da tua hora

quarta-feira, 14 de abril de 2010

MÁRCIO ALMEIDA, O ASSASSIGNO DAS PALAVRAS




Márcio Almeida nasceu em Oliveira (MG), em 1947, e foi muito influenciado por Sebastião Nunes,  e parceiro em vários projetos. Formado em Letras pela UFMG, é professor universitário, publicitário, jornalista e escritor, com vários prêmios na bagagem, entre eles o 1º Prêmio de Poesia Emílio Moura (1977) e o 2º lugar no Concurso de Contos do Paraná (1972).
Ele iniciou sua carreira poética nos anos 60, com o ex-grupo de vanguarda Vix (o poeta Hugo Pontes era um dos membros), por onde publicou o “1º Caderno Mostra”, “Ocopoema”, “ReVIXta” e a revista “Frente”, com diversos autores.
Nos anos 70, publicou “Lavrário” (1971), “Antologia Poética” (1977, em parceria com Pascoal Motta, Geraldo Reis, Antonio Barreto e Ronald Clavel), “As Canções Adiadas dos Nossos Soluços Medrosos” (1979), “Previsão de Haveres na Terra do Puka” (1978) e “O Não Nosso de Cada Dia”.
Nos anos 80, deixou a poesia escrita de lado para dedicar-se à poesia visual, tendo publicado “Não Haverá Míssil de 7.º Dia” (1983), “Orwelhas Negras” (1985, que teve uma edição especial pela Editora Boulder, dos Estados Unidos, em 1986), “Falúdica” (1987) e “Vler” (1988).
A partir de 1986, começou a apresentar-se em performances poéticas com o Grupo Tropa Mineira pelo circuito de bares de Belo Horizonte e em cidades do interior mineiro.
Membro da Comissão Mineira do Folclore, Márcio Almeida foi responsável pela inclusão na Enciclopédia Barsa, em 2002, de um verbete sobre o personagem “Cai n’água”, considerado a maior tradição do carnaval de Oliveira, sua terra natal.
Segundo matéria publicada na Revista da Comissão Mineira de Folclore n.º 21, o poeta fez um registro histórico do Cai-n’água desde sua origem na Antigüidade Clássica. “Àquela época, a máscara era usada nos festins dionisíacos, e chegou, com a história, ao Brasil, através de dois importantes eventos barrocos – o Triunfo Eucarístico, em 1733, realizado em Ouro Preto, e o Áureo Trono Episcopal, em Mariana, em 1748”, explicou Márcio Almeida.
“O Cai-n’água tem origem religiosa: sua indumentária lembra o encapuzado das procissões da Semana Santa em Sevilha, na Espanha, que perdura desde a Idade Média naquele país. O escritor Graciliano Ramos faz referência ao Papangu em sua obra e tudo indica que é o nosso Cai-n’água. Pois ele, agora, é cidadão do mundo em pleno anonimato de sua entidade”, brincou.

ASSASSIGNO
Nas fileiras das estantes
s-obram palavras e traças:
não reverse o veio dantes
e por melhor que o faça.
A linguagem só se inventa
E joga com dado lance:
Não poete de requenta,
Por mais ilusão alcance.Não amArele rolls-joyce,
Não faça mallarmelada,
Não eufemíssil à coice,
E não cante por cantada.Não reboque barrocávila,
Não confisque mais de cláudio
Nunca re(x)clame dah! Vida,
Não se corrompa por gáudio.
Não panfleteie ideologia,
Não holografe em atari,
Não loversonhe as marias,
Não palavre: signatari.
Não venha com requevedos,
Não lenhe em tom de gregório,
Não ordenhe ofício do aedo,
Nem o público-notório.
Não saque a 45
Não inverse poema-processo
Não use mel, goma ou, em vinco,
Divã-guarde retrocesso.
Não provencie a goliardo
Não reenlouqueça os ar(t)naudt,
Não faça da fala fardo,
Não insume com o cocô.Não vá, não fique na onda,
Não caia naquela ou de porre,
Não refaça plagioconda,
Não suje o marfim da torre.
Não publique o poetego,
Não bajule a panelinha,
Não se desdenhe de cego,
Não fale nas entrelinhas.Não Tradúzia o neo dos campos
Não antifugue bachstianunes
Não entre – linguagem é grampo,
Não julgue a poesia impune.
Não oswaldolatre perjuras,
Não vá de bandeira-dois,
Não relate as escrituras,
Não esqueça do nome aos bois.
Não leréie pounderação,
Não geléie de cummings-kaze
Não restréie rimar em Ão,
Não coquetéie a nova fase.
Não se distraia, lendo vico,
Não se traia, sendo ovídio ou
Subtraie obra do pinico,
Não vaie nunca versuicídio.
Não bissexte pelo reto,
Não se iluda sem ver gílio,
Não discursobre o concreto,
Não purguevara ou idílio.
Não almaminhe vaz camões,
Não redobregue huidobro,
Não prosopopeie os sermões,
Não estruturalize o adobo.
Não transuje o blanco-paz,
Não urbanize joão cabral,
Seja per-verso: abra o gás.
E cheire as flores do mal.
Não drummondeie substantivo,
Não se cordeire em escola,
Não academize ledivo,
Não stanislauda o que assola.
Não sugarana de rosa,
Não chanteie a éluard,
Não diz que a rosa é a rosa,
Não liberte que será tarde.
Não dê uma de alcagoethe
Resousândrade o discurso,
Não best-seller ou verbete,
Não desmaiakovski os russos.
Não envie desc-arte postal,
Não deixe de re-leminski,
Não derrame ode em sarau,
Decubo-versal, kandisky.
Não pseudografe pessoa,
Não freudelire breton,
Não escreva, a sério ou à toa,
Não unte a língua de baton.Não faça kilkerrelease,
Não passe por elliotário,
Não (se) banalize em silk.
Não suplemente literário.
Não passe replei, desista,
Não há vítima ou lição:
Versejar, ora!, não insista,
O melhor poema é o não.
contatos com o autor:

terça-feira, 13 de abril de 2010

Artur Gomes Toda Poesia

aquarela: karol penido

Viagem Tropical

Ah! Meu amor
que maravilha!
apesar dessa quadrliha
tudo aqui vai muito bem
tudo aqui nada vai mal
isso aqui ainda é Brasílha
ou já é novo Pantanal?

a ostra e o vento
p/Branca Lima

fosse marcela uma ilha
deserta atlântica
maravilha
iria eu lá naufragar
fosse só algas e peixes
pérola ostra
armadilha
cabelos fossem só vento
seus olhos fossem só mar

Jura secreta 56

tens uma menina vadia
entre os teus olhos de ninfa
e o vulcão no teu umbigo
flor de lótus pele roxa
alguma alga marinha
na preamar das densas coxas
aberta mulher ao cio
desejo-te enquanto bebe come
onde provas do gozo ri e chora
teus beijos água de rio
mistério que me devora

Curto/circuito

quem disse que amor
é mudo
surdo
cego
não sabe o que carrego
em meu estado de surto

biologicamente fulinaímica falo

sensualidade em tua boca é mato
cama em que me basta e pasto
quando um deus fiat-lux
tendo a pólvora fez o fósforo
e deu-se a primeira explosão
bola de fogo sem limites
e nos espermas de uranos
michele sato já me disse
germinou-te eva e afrodite
o ser da tropicália a tropicanAlice
e sendo adão homem primeiro
deu-me as mãos para o direito
em devorArte pela arte inteira
vênus qualquer sendo de marte
tens dentro da carne brasileira
poderosas fibras na textura
santa mulher nossa senhora
a profanação pela loucura
para equilibrar o planeta onde mora
Terra de Santa Cruz


ao batizarem-te
deram-te o nome: puta
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em
ferro
ouro
prata
rios
peixes
minas
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme

salve-lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança
dos rendes-vouz
de impérios atrás


meu coração é tão hipócrita
que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram no Ipiranga
às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta.

fosse o brazil mulher das amazonas
caminhasse passo a passo
disputasse mano a mano
guardasse a fauna e a flora
da fome dos tropicanos
ouvisse o lamentos dos peixes
jandaias araras e tucanos
não estaríamos assim
condicionados
aos restos do sub-humano

só desfraldando a bandeira
tropicalha
é que a gente avacalha
com as chaves dos mistérios
desta terra tão servil:
tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu


bem no centro do universo
te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada
do meu peito varonil
espanto todas as estrelas
dos berços do eternamente
pra que acorde toda esta gente
deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante
esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo
robôs te enrrabam ó mãe gentil!

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra
a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
até hoje não vieste à minha porta
- foi u m puta golpe

o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal Quinta feira
na geléia geral brazileira
o céu de abril não é de anil
nem general é my brazil

minha verde/amarela esperança
portugal já vendeu para a frança
é o coração latino balança
entre o mar de dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul


o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal Sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que a muito índio dizia:

meu coração marçal tupã
sangra tupi & rock in roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná


o sonho rola no parque
o sangue ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank


ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema


Artur Gomes
In Couro Cru & Carne Viva
http://courocrucarneviva.blogspot.com

Vídeo Poesia

Artur Gomes e Igor Fagundes – filmados por Jiddu Saldanha, no Parque das Ruínas – Santa Teresa – Rio de Janeiro

Overdose Sonora em Santa Teresa

Artur Gomes interpreta Mário Faustino – filmado por Jiddu Saldanha

Artur Gomes e May Pasquetti – filmados por Jiddu Saldanha no Parque das Ruínas – Santa Terea – Rio de Janeiro

Vinte Vezes Coyote






Dossiê com o poeta e artista plástico Rodrigo de Haro, poemas do dramaturgo Mário Bortolotto, conto do poeta norte-americano Delmore Schwart, fotografias de Egberto Nogueira e relatos oníricos da portuguesa Anna Hatherly são destaques do novo número da revista COYOTE, lançada com duas capas diferentes

"A linguagem da poesia será fatalmente constituída por sucessivo espanto, ou não será nada". É o que afirma em entrevista o poeta e artista plástico catarinense Rodrigo de Haro (1939), no dossiê dedicado à sua obra poética no novo número da revista de literatura e arte Coyote. Editada em Londrina (PR), traz também dois textos inéditos do livro Um Bom Lugar Pra Morrer, de Mário Bortolotto e quatro fragmentos de Exercícios de Estilo, obra do francês Raymond Queneau, um dos autores mais experimentais da literatura francesa do século 20. Maurício Arruda Mendonça apresenta e traduz (do japonês) os haikais da nipo-londrinense Mityio Sugimoto. A revista apresenta ainda o conto "Nos Sonhos Começam as Responsabilidades", do poeta norte-americano Delmore Schwartz (1913-1966), e, pela primeira vez no Brasil, poemas do beat Bob Kauffman (1925-1986).

Seguindo em seu compromisso em revelar novos talentos, a Coyote 20 apresenta também poemas de Samantha Abreu, Luiz Felipe Leprevost e Ponti Pontedura. Outra novidade da edição são as duas capas diferentes com fotos de Egberto Nogueira.

Em seus oito anos de atividade, Coyote prossegue abrindo espaço para novos autores, resgatando e apresentando nomes importantes das letras e das artes, de épocas e lugares diferentes, instigando a reflexão e a criação literária. A revista é patrocinada pelo PROMIC (Programa Municipal de Incentivo à Cultura) da cidade de Londrina.

COYOTE é editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras.

COYOTE 20 // 52 páginas // R$ 10,00
Uma publicação da Kan Editora. Vendas em livrarias de todo o país pela Editora Iluminuras – fone (11) 3031-6161 (site: http://www.iluminuras.com.br/). Pode ser adquirida também na internet pelo Sebo do Bac: http://www.sebodobac.com/

Contatos: losnak@onda.com.br / rgarcialopes@gmail.com / zonabranca@uol.com.br
Fone: (43) 3334-3299 / (11) 3731-3281


PATROCÍNIO: PROMIC - PROGRAMA MUNICIPAL DE INCENTIVO A CULTURA – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA DE LONDRINA (PR)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Mário Faustino por Artur Gomes

- um filme de Jiddu Saldanha


leia mais sobre Mário Faustino aqui http://goytacity.blogspot.com/


o mundo que venci deu-me um amor
um troféu perigoso esse cavalo
carregado de infantes couraçados.
o mundo que venci deu-me um amor
alado, galopando em céus irados
por cima de qualquer muro de credo
por cima de qualquer fosso de sexo.
o mundo que venci deu-me um amor
feito de insulto pranto e riso
amor que força as portas dos infernos
amoré que galga o cume ao paraíso.
amor que dorme e treme, e que desperta
e torna contra mim e me devora
e me rumina em cantos de vitória.

Mário Faustino

http://juras-secretas.blogspot.com/

1
entrevista
LITERATURA
O furacão Mário Faustino Por Carolina Stanisci

A pesquisadora Maria Eugênia Boaventura organiza a reedição da obra do poeta e crítico
“Poesia-Experiência” era aguardada com uma dose de curiosidade e outra de receio no meio literário dos anos 50. Caleidoscópio da poesia de todos os tempos, a página do “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil” 1 divulgava novos poetas brasileiros ao lado de ícones do passado, transcrevia originais de seus poemas e continha críticas que apontavam defeitos -daí o temor- na obra até de nomes consagrados.

Quem escolhia o material a ser publicado e escrevia as críticas era Mário Faustino (1930-62). Jovem intelectual nascido em Teresina, seu texto contundente, erudito e didático não poupava medalhões como Drummond e Cecília Meireles quando necessário. O crítico exigia de todos o compromisso constante de invenção e de renovação da poesia.

E Faustino também disparava contra seus pares. Dizia que ao agir como “falsos confrades” os críticos em nada contribuíam com a evolução da poesia brasileira e acusava-os de falta de rigor. A página teve vida breve (1956-59), assim como o polêmico Mário Faustino, morto em acidente de avião, aos 32 anos. Incansável trabalhador intelectual, ele atuou também como tradutor, editorialista, cronista e professor 2.

Apesar da intensa atividade, Faustino teve só um livro publicado em vida, “O homem e sua hora”, de poemas. Há pouco tempo, o registro da atividade crítica e das traduções do crítico-poeta só podia ser encontrado nos jornais da época. Para dar fim a esse vazio editorial, começarm a chegar recentemente às livrarias os volumes “De Anchieta aos concretos”, “Artesanatos de poesia”, “Roteiro poético” e “É preciso conhecer”, da Companhia das Letras. Contendo críticas, traduções e teoria literária de autoria de Faustino, as edições são fruto do trabalho da professora e ensaísta Maria Eugenia Boaventura, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Boaventura investiga há cinco anos arquivos de jornal, manuscritos de poemas e a correspondência trocada pelo crítico. E constatou que a obra do poeta “ficou pairando como um fantasma” para gerações de escritores e estudiosos, embora sua obra não fosse de todo conhecida
3.

Para os próximos anos, ela prepara uma edição crítica das cartas do poeta. “É um material interessante, sério, importante, dolorido, ‘sangrante’. Mas com o qual só vou trabalhar depois que as pessoas conhecerem o Mário Faustino intelectual”, diz ela, na entrevista a seguir.

Qual a importância de editar a obra completa de Mário Faustino mais de 40 anos após sua morte?

Maria Eugênia Boaventura: Primeiro, porque essa obra estava fora das livrarias. Ela tinha sido editada esparsamente pelo Benedito Nunes e, em várias ocasiões que críticos e poetas interessantes davam entrevistas, falava-se em Mário Faustino. Eles sempre se referiam a ele. Faustino ficou pairando como se fosse um fantasma na cabeça desses críticos e poetas, como uma coisa meio nostálgica.

A presença dele é necessária em alguns momentos, pois ele fazia uma crítica bastante objetiva, dizia o que pensava sobre a qualidade da poesia e da crítica. Acho que num momento de confusão de valores críticos, de marasmo crítico e criativo, as pessoas se lembram de Faustino.

A sra. anotou na apresentação a “De Anchieta aos concretos” que a edição dos textos “reinventará a fisionomia” de Faustino. Em que sentido isso se dará e em que medida a edição contribui para a crítica atual?

Boaventura: A edição vai reinventar uma configuração mais abrangente, mais ampla e mais rica. Fiquei impressionada com a quantidade de material de um jovem de 30 e poucos anos que atuava como jornalista, era editorialista do principal jornal da época, o “Jornal do Brasil”, era professor da Fundação Getúlio Vargas e ainda conseguia fazer uma página dessa dimensão.
Acho que esse projeto, voltado para a poesia, vai dar uma dimensão ampla e desconhecida de um intelectual jovem que foi decisivo na história literária. Em relação à crítica atual, vai mostrar a necessidade de fazer crítica objetiva, às vezes dura, sem subterfúgios, direta, sem igrejinhas, sem clubes.

Faustino chegou a acusar seus pares de “falta de rigor” e afirmou que “a falta de confrades sinceros” poderia ser fatal à evolução da poesia brasileira. A sra. aplicaria esse julgamento à crítica atual?

Boaventura: Não se pode generalizar. As igrejinhas ainda existem. Em determinados momentos só acontecem coisas ligadas a grupos. A gente até sabe quem é que vai fazer a resenha sobre qual livro. Nada é surpresa. Nem as leituras sobre determinados livros não são mais inventivas e surpreendentes. Eu não sei se isso é ruim ou bom. Falta capacidade de discernimento, falta capacidade de julgamento crítico, de valoração, de dizer se a obra é boa ou não.
A crítica é subjetiva e é muito ligada a determinados grupos, ligada ao imediatismo, àquilo que pode trazer um brilho instantâneo, mesmo que se apague no outro dia. Isso tem melhorado, é claro. De 1962, quando ele morreu, para cá, a crítica se profissionalizou, os suplementos melhoraram.

Ele era temido por não poupar nem nomes consagrados, como Drummond e Cecília Meireles. A que se deve sua precoce ascensão no jornalismo?

Boaventura: Ele teve coragem de escrever. Não que eu concorde com todas as críticas e opiniões dele, mas eu constato certa coragem de dizer o que pensava sobre os ícones sagrados. Eu acho que a ascensão ocorreu pelo seu talento, pela capacidade de trabalho. Estar no momento certo na hora certa também ajuda, não?
Mas também havia um vazio de pessoas capazes de fazer o serviço que ele fazia, de fazer aquele tipo de crítica. Porque, além de ele ser jornalista, ele parou para estudar, para se capacitar com o instrumental necessário para fazer crítica literária. Não era uma crítica amadora, era uma crítica profissional. Aliás, nesse aspecto, coincidia com vários movimentos de profissionalização da crítica brasileira que surgiam a partir da universidade.

Faustino começou muito jovem no “Jornal do Brasil”, e a página “Poesia-Experiência” tornou-se referência em pouco tempo. Ele alcançou tudo isso apenas com a experiência nos jornais de Belém do Pará?

Boaventura: Em 1955, ele era muito jovem e publica a única obra que publicou em vida, “O homem e sua hora”. Ele publica pela mesma editora que Cecília Meireles fez “Canções”, a Livros de Portugal, que era uma editora famosa. Então esse livro causou bastante surpresa, foi bem recebido pela crítica, todo mundo gostou. Foi um livro importante e até hoje é. Ele começa a ser conhecido no Rio de Janeiro a partir daí.
Mas o exercício dele de jornalista havia começado há muito tempo. Com 18, 19 anos, ele já trabalhava nos jornais do Pará. Em Belém, naquela época, havia um grupo bastante animado, inclusive Clarice Lispector chegou a morar nessa época em Belém. Era um grupo de jovens atuantes, de poetas e críticos, como Oliveira Bastos, Benedito Nunes, Clarice e um poeta norte-americano chamado Robert Stock, dentre outros.
Havia uma relação muito grande dos suplementos paraenses com o eixo Rio-São Paulo. Muitos poetas do Sul contribuíam com esses jornais (de Belém), como Álvaro Lins, o próprio Drummond e Manuel Bandeira. Se você folhear, e eu tive a paciência de folhear esses suplementos, vai ver que são de alta qualidade. No “Jornal do Brasil”, Mário Faustino exerceu o mesmo trabalho que fazia em Belém de redator, tradutor, crítico e poeta, como tinha também muita tarimba. Ele não começou de supetão.

Faustino tachava a produção literária do Brasil Colônia de pouco inovadora, pois ela imitava o modelo europeu da época. Mas não teria ele também adotado modelos, como Ezra Pound?

Boaventura: Se você tomar desse ponto de vista, é verdade. Mas o problema não é se inspirar nos modelos europeus, não vejo nenhum mal nisso se os modelos são bons, venham de onde vierem. O problema é a visão acrítica desses modelos, a implantação, a aplicação imediata desses modelos sem adequação, sem a relativização. No caso da literatura colonial, o defeito do Mário Faustino era o seguinte: ele olhava com olhar moderno, dizia que não era inovadora, que não tinha originalidade etc. Não era uma postura adequada para analisar esse tipo de obra, porque até antes do romantismo, essa coisa de originalidade, de inventividade, não se colocava.

Mário Faustino destacou criadores que hoje estão esquecidos, como Ruy Costa Duarte. Quais outros poetas “injustiçados” pela crítica foram merecidamente resgatados por ele, na sua opinião?

Boaventura: A crítica do Mário Faustino muitas vezes é intempestiva. É, muitas vezes, de tiradas de opiniões, e ele não faz sempre o que cobra dos outros. Ele toma um certo partido. Mas traz à tona gente esquecida, ou dá oportunidade a talentos jovens. Como, por exemplo, Lélia Coelho Frota, poeta interessante que está viva e ainda publica. Ela estreou na página do Mário Faustino. Outros poeta que estrearam lá foram José Lino Grünewald e Marly de Oliveira, que mais tarde se casou com João Cabral de Melo Neto e que tem um trabalho razoável.

Outro que merece ser estudado e apareceu lá foi Homero Homem. E também Walmir Ayala, que depois se tornou poeta conhecido. E há vários que vão por outro caminho. Faustino reconhece seu talento e os publica, mas eles não seguem a carreira. Como Cacá Diegues, Vera Pedrosa. Há também Francisco Alvim, que estréia como poeta novo. Porque não só o Mário Faustino apresentava, com uma crítica ou ensaio, mas também publicava a poesia e fazia uma notinha embaixo. A chance de você ser publicado ao lado de grandes poetas era um grande orgulho para os novos autores.

Por que Faustino deu por encerrada sua atuação em “Poesia-Experiência”, em 1959?

Boaventura: Quando ele começa a página, ele constata duas coisas. Primeiro, a mornidão da crítica, uma certa pasmaceira, uma falta de profissionalismo e de objetividade. A segunda coisa que constata é que a poesia vivia uma fase de transição, pois estava sem vigor, sem inventividade, sem dinamismo e sem novidade.
Nesse tempo a Geração de 45 vinha decrescendo, numa fase de repetição, de estagnação. E havia a coincidência da produção mais madura dos poetas principais do modernismo. Drummond, com “Claro enigma”, de 1945; Cecília Meireles, com “Romanceiro da Inconfidência”; Jorge de Lima, com “Invenção de Orfeu”; etc. Os poetas modernistas, contra os quais a Geração de 45 se opunha, estavam produzindo suas obras mais importantes. Talvez isso seja o motivo por que a Geração de 45 não tenha tido tanto alcance na época. Havia o fantasma dos modernistas ainda pairando...

Mas aparece o concretismo, com o qual Faustino se entusiasma. Por que então parou de escrever a página “Poesia-Experiência”?

Boaventura: Ele se entusiasma tanto com o trabalho dos concretos, que se junta a eles. Eles têm grande amizade, ele recebe a colaboração de poetas, como as traduções que pedia. Mário abre o suplemento para a poesia concreta paulista, que era desconhecida no Rio. Mas ele termina a página pelo seguinte: ele achava que em dois anos e meio ele já havia feito o trabalho. E qual era o trabalho? De revigorar a poesia, de apresentar novos poetas, de fazer uma crítica diferente. O trabalho dele como “missionário”, ele cumpriu. Era uma espécie de curso de poesia. Ele pode ter se cansado. Na verdade, não há uma explicação para o fim da página.

Depois disso ele foi se dedicar somente à poesia?

Boaventura: Houve um convite para ser correspondente nos EUA, e ele aceita porque queria mais tempo para fazer poesia, para ser poeta. Esse era o grande objetivo, ele queria ser poeta em tempo integral. O jornalismo era uma espécie de sobrevivência.

Chama a atenção o didatismo dos textos publicados no “JB”, como o exame que faz do barroco brasileiro. Ainda assim, o crítico não é objeto de estudo sistemático na universidade. Por que essa ausência?

Boaventura: Primeiro porque as obras não estavam nas livrarias. Um dos trabalhos da crítica literária é trazer coisas inesperadas à baila. Eu até tinha um projeto grande, de recuperar os editoriais do “Jornal do Brasil” feitos por ele. Mas tem uma certa dificuldade, porque editorial não é assinado. Mas seria interessante, era um momento complicado no Brasil: anos JK, época de instabilidade, de várias complicações. Eu queria ter levantado a análise do Mário Faustino puramente jornalística, o seu jornalismo político, editorialista.

Sobre o Mário Faustino poeta, qual é sua melhor fase? Seria a dos poemas mais experimentais, como “Ariazul”?

1 - Quem criou o “Suplemento Dominical do Jornal do Brasil”, o “SDJB”, foi Reynaldo Jardim. Com diagramação mais leve, explorando espaços em brancos, o suplemento impulsionou mais tarde a mudança gráfica e de conteúdo de todo o “Jornal do Brasil” e proporcionou a criação do precursor dos cadernos culturais, o “Caderno B”.

2 - Faustino morreu num acidente de avião quando ia a Nova York assumir o posto de correspondente internacional do “JB”. Foi também: editor-chefe da “Tribuna da Imprensa”; redator, crítico e cronista dos jornais “Província do Pará” e “Folha do Norte”, de Belém, redator e editorialista do “JB”, professor na Fundação Getúlio Vargas. Nos Estados Unidos trabalhou para a ONU e estudou teoria literária.

3 - “De Anchieta aos concretos” foi lançado em 2003. “Artesanatos de poesia” é previsto para maio de 2004. Os outros livros serão publicados nos próximos anos, segundo Maria Eugenia Boaventura, um por ano em média.


segunda-feira, 8 de março de 2010

fé

chama que te vela
que te vale a lida
quando lida se revela
força que conduz
que te livra que te eleva
que não te priva da luz
enquanto provas da treva

rodrigo mebs
http://frutafarta.blogspot.com/

Um Pique

Não quero ser teu amor,
nem que sejas o meu,
não quero ser teu bem,
não serás meu anjo,
nem meu rei,
muito menos o príncipe.

Eu não sou a musa,
não sou a que passa,
nem aquela que fica.

Não quero castelos,
nem jardins suspensos,
nenhuma maravilha.

Mas no exato instante
em que estiveres comigo,
quero ser tua chuva, teu sol, teu abrigo.

Não quero ser a última,
nem a primeira...
Serás meu campo de trigo,
meu brinquedo preferido,
meu feliz pique bandeira!

Euridice Hespanhol
Lirios no deserto
Amores de brinquedo.

Elogio à loucura


Quero uma ponte amarela e um campo de girassóis ensangüentados
Quero um sapato que fale a poesia de tempo e o caminho do homem
Quero um crime e um castigo na intensidade que cega as neves eternas
Quero uma existencialidade de cores e amorfas paixões nas ruas de Paris

Quero um incesto demoníaco num cosmos olímpico de ópio
Quero a insensatez dos meus heterônimos e as suas mortes prematuras
Quero uma gentileza de ruas sujas e perdões fuzilados nas favelas
Quero uma noite e o dia no crepúsculo agonizante da tela inacabada

Quero o espetáculo de Bicetrê num carnaval de humanas cinzas
Quero o lado escuro da lua e o livro de cabeceira de Sid & Nancy
Quero o fuzil do guerreiro contemporâneo atirando a esmo na guerra escura
Quero rasgar o dinheiro sujo do poder e chutar o balde da insana sobriedade

Quero parir palavras que escolham um destino fora da minha geografia mental
Só isso, o resto é loucura.

Flavio Pettinichi-17 – 03- 2010

buceta de subúrbio ornamentando a rua

ela agachou no meio fio e aliviou
indiferente às buzinas
aos cuspes
a todas as latrinas

ela fumava um fino ainda
e tinha um resto de dente no sorriso
fazia contorcionismo
para ver a fumaça que fugia
da calçada

mijo quente pedra fria
tanta gente passava
ninguém (h)a via

Sandra Santos


Espelho

Não vou gritar
gosto do silêncio
do som ameno
Prefiro a música ao berro
o canto ao desespero
Sou desassossegada
embora não pareça
Meu avesso é a inquietude
que me move
Meu rosto comunica
tenho que cuidar do que não digo
Mãos falam melhor que minha voz
deixo que se expressem
À medida que me traduzem
eu me expando em mim


Sou decifrada
para alguns undecifrável
depende de quem me lê
além do olhar, além dos versos, além da palavra
Uma mulher muito menina
Uma menina um tanto mulher
Alguém que sonha
e se cansa
mas não deixa a batalha
Insiste em colher esperança
nas verdes folhas das árvores,
se perfumar com a fragãncia das rosas
e voar em pensamento com os pássaros.

Fátima Nascimento - 25/02/2010

http://www.verbosoltoblogse.com.br/
http://www.flickr.com/fatimanascimento

a rosa e o espinho

o que sai da tua língua não me basta
eu quero toda boca
o que sai da tua boca não me prende
eu quero toda língua
o que me prende em tua coisa
é isso tudo
aquilo que talvez não se entenda
ou se entendendo não se explique
está muito pra lá da tua casa
a chama do meu cio fogo e brasa
na boca mora a língua quando beijo
na língua a saliva quando goza
amor é poesia nunca prosa
na flora do teu sexo
eu quero a folha e o espinho
a pétala o pólen e a rosa

mesmo não oferecendo a ti
tudo no que desejo e quero
me vem da tua boca
a palavra que espero
roubado o beijo a língua cala
mesmo quando fala
girassóis e frutas
e tua coisa absoluta
em minha carne pulsa
e o beija-flor escuta
a voz do bem-te-vi

couro cru & carne viva

ainda que fosse faca
tatuagem em tuas coxas
não fosse tinto esse vinho
fosse o branco dos teus lábios
pedindo: beba-me
entaõ mordesse tua língua até sangrar
reteza-me o corpo os angue do teu cio.

espada dentro da noite
lua do teu espelho
lagarto por tuas pernas
um tigre uivando manso
depois da presa alcançada
não fosse o punhal de prata
dentro do quarto quebrado
o abajour apagado
a cama desfeita no escuro
eu re-m oendo o passado
entre os lençóis dos teus dedos

por mais que diga-me: obrigado
respondo: é de graça não tem preço
a boca, a língua, a carne, os músculos
linguagem lira delírio sangue sexo
não há dinheiro que pague
pelo mínimo que ofereço

arturgomes
http://courocrucarneviva.blogspot.com/


Tu Queres Sono: Despede-te dos Ruídos


Tu queres sonos: despedete dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito,
e roupas, choros, cordas e
e também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas e
que sobrevoam o cadáver do teu pai e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, e os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem ao sono

Ana Cristina César

Mapa de Anatomia: O Olho

O olho é uma espécie de globo
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areas, rochas, naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo
outras são inventadas.

O olho é um teatro por dentro.
E as vezs, sejam atrores, sejam cenas,
e as vezes, sejam imagens,s ejam ausências,
formam no Olho, lágrimas.

Cecília Meirelles

chato é o caralho
dá licença

deu não ser macho
deu não ser moço
nem pré-socrático

não gosto de funk
não gosto de Frank
não gsoto de fato

tira a cebola
tira a pessoa
tira o barulho infernal

tira o moleque
me tira da fila
não é nada pessoal

Sandra Santos

quinta-feira, 4 de março de 2010

canção para tatiana



a ciranda a roda
anda vai
que tua dança
avança em mim
em rotação contínua
roda viva
dessa maré/cidade
em liberdade canta
que o instante é pouco
e fosse inteira a vida
ainda seria pouca
por tanto mar que inda me revele
ou sendo ilha
tua flor da pele
me traz perfume
o mar em teu olhar
de tanta luz
me cega em noite clara
e a mansidão que vem de tua fala
é como brisa
que eu gosto de cantar
arturgomes

quarta-feira, 3 de março de 2010

bolero blue



beber desse conhaque
em tua boca
para matar a febre
nas entranhas
entre os dentes
indecente
é a forma que te bebo
como ou calo
e se não falo quando quero
na balada ou no bolero
não é por falta de desejo
é que a fome desse beijo
furta qualquer outra
palavra presa
como caça indefesa
dentro da carne que não sai.
Artur Gomes

certeza não cabe a ninguém

a natureza da dúvida e da fé
é o medo que a vida tem
que a morte acorde mais cedo
e seja eterna também.
asa à cobra
guiso
fácil riso
amor assim
preciso
raso
fluido sem sonhar
ser paraíso
leveassim mesmo
como se deve
amor de ave
e não de eva
amor de luz
amando a treva.
rodrigo mebs

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Artur: faca de vários gumes



Por Adriano Moura , em 23-11-2009
http://www.fmanha.com.br
ALGUMA POESIA

não. não bastaria a poesia deste bonde que despenca lua nos meus cílios
num trapézio de pingentes onde a lapa carregada de pivetes nos seus arcos
ferindo a fria noite como um tapa
vai fazendo amor por entre os trilhos.

não. não bastaria a poesia cristalina
se rasgando o corpo estão muitas meninas
tentando a sorte em cada porta de metrô.
e nós poetas desvendando palavrinhas
vamos dançando uma vertigem
no tal circo voador.

não. não bastaria todo riso pelas praças
nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
com os pardais despedaçando nas vidraças
e as mulheres cuidando dos seus filhos.

não bastaria delirar Copacabana
e esta coisa de sal que não me engana
a lua na carne navalhando um charme gay
e uma cheiro de fêmea no ar devorador

aparentando realismo hiper-moderno,
num corpo de anjo que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno
como provar do amor no posto seis
numa cósmica e profana poesia
entre as pedras e o mar do Arpoador
uma mistura de feitiço e fantasia
em altas ondas de mistérios que são vossos

não. não bastaria toda poesia
que eu trago em minha alma um tanto porca,
este postal com uma imagem meio Lorca:
um bondinho aterrizando lá na Urca
e esta cidade deitando água em meus destroços
pois se o cristo redentor deixasse a pedra
na certa nunca mais rezaria padre-nossos
e na certa só faria poesia com os meus ossos.

Artur Gomes
In Couro Cru & Carne Viva
Prêmio Internacional de Poesia – Quebec – Canadá 1987
Poeta, ator, produtor, compositor, agente cultural, inquieto “cachorro doido”. É impossível falar da poesia de Campos dos Goytacazes sem mencionar um de seus principais militantes. Artur é um tipo de poeta sem “papas”, mas com “farpas” na língua. Seu texto é cortante da vertente política à amorosa. Artur é musical, intertextual.
Seus poemas pertencem a uma classe específica: a dos que precisam também ser falados em voz alta. Não é um poeta apenas para estantes, mas para o palco, bares, ruas, etc. E assim faz o poeta, que freqüenta várias cidades do Brasil declamando seus textos, participando de mostras e festivais.
Em Campos, foram muitos os eventos e as performances produzidos por ele. Desde mostras visuais de poesia brasileira a happening em ônibus e bares.
O poema acima apresenta um eu-poético deslizando pelos prazeres e paisagens da urbana Rio de Janeiro dos anos 80. O verso conciso é também carregado de imagens sonoras seqüenciadas em rimas com aliterações e assonâncias como “porca” “Lorca” “Urca”. Esse recurso aparece com freqüência em outros textos do poeta. Será uma das razões de tantas parcerias de Artur Gomes com músicos como Paulo Ciranda e Luiz Ribeiro?

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Pontal Foto.Grafia




Aqui,
redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe
convento
cabrálias esperas
relento
escamas secas no prato
e um cheiro podre no
AR

caranguejos explodem mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud - África virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
Jerusalém pagã visitada
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Jesus Cristo não passou por aqui

Miles Davis fisgou na agulha
Oscar no foco de palha
cobra de vidro sangue na fagulha
carne de peixe maracangalha
que mar eu bebo na telha
que a minha língua não tralha?
penúltima dose de pólvora
palmeira subindo a maralha
punhal trincheira na trilha
cortando o pano a navalha
fatal daqui Pernambuco
Atafona.Pontal.Grussaí
as crianças são testemunhas:
Mallarmè passou por aqui.

bebo teu fato em fogo
punhal na ova do bar
palhoças ao sol fevereiro
aluga-se teu brejo no mar
o preço nem Deus nem sabre
sementes de bagre no porto
a porca no sujo quintal
plástico de lixo nos mangues
que mar eu bebo afinal?

Artur Gomes
http://juras-secretas.blogspot.com/

Pontal

(a Ana Augusta Rodrigues)

Aqui
onde rio e mar
se beijam
aqui no fim do mundo
onde terra e céu
se abraçam
num ato sexual.

Aqui
no fim do dia
um barco preso na corda
um peixe preso no anzol
a terra varrida ao vento
casas varridas ao temporal…

Aqui
no mesmo teto
pássaros sobre os calcanhares
homens sobre os girassóis
onde rio e mar se beijam
re-nascem nossos filhos
quando terra e céu se abraçam
sem ter nem mães nem pais

Onde o seu refúgio
é nu / meu peito aflito
e a minha solidão
nu / teu corpo é
paz.

arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/
Um rio

Era uma vez…
Um rio

Que de tão vazio,
já não era rio
e nem riachão,
tão pouco riacho.

Não era regato,
nem era arroio,
muito menos corgo.

Era uma vez…
um rio
que, de tanta cheia,
já não era rio
e nem ribeirão.

Era mais que Negro,
era mais que Pomba,
era mais que Pedra,
era mais que Pardo,
era mais que Preto,
bem maior ainda
que um rio grande.

Era uma vez…
um rio

que de tão antigo
era temporário,
era obsequente,
era um rio tapado
e antecedente.

Que não tinha foz,
que não tinha leito,
que não tinha margem
e nem afluente,
tão pouco nascente.

Mas que era um rio.

Não era das Velhas,
não era das Almas,
não era das Mortes.

Era um Paraíba,
era um Paraná,
era um rio parado.

Rio de enchentes,
rio de vazantes,
rio de repentes:
Um rio calado:

Sem Pirá-bandeira,
Sem Piracajara,
Sem Piracanjuba.

Em suas águas
não havia Pira
não havia íba,
não havia jica,
não havia juba.

Nem Pirá-andira,
nem Piraiapeva,
nem Pirarucu.

Era um rio assim:
Sem pirá nenhum.

Mas que era um rio.

Era uma vez….
Um rio.

Que, de tão inerte,
Já não era rio.

Não desaguou no mar,
não desaguou num lago,
nem em outro rio.

É um rio antigo,
que de tão contido
não é natureza.

Um dia foi rio,
há muito é represa.

Antônio Roberto Góis Cavalcanti(Kapi)

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra,
e inspirou-lhe nas narinas um sopro de vida
e o homem se tornou um ser vivente”

gênesis (2.7)

epifania
(p/ euclides, yeats e soffiati)

guiava a picape pela montanha
entre curvas da estrada e do rio
que ambos seguiam à planície
na qual não nasci, mas habito
desde quando aprendi a pisar
e a montanha nas suas certezas
de subir e descer no caminho
falou-me na língua das pedras
de onde brotam as águas:
— decifra-me ou te desfaço!

feito do barro massapê
sobre o qual caminhei a vida
tendo o plano por destino e partida
consultei as cores do crepúsculo
que, melancólicas, se riram de mim:
— de onde vens? — indagaram-me as cores
— de cambuci, refúgio dos puris!
— para onde vais?
— aos campos dos goitacás!
— o que corre ao seu lado?
— o rio!
— e para onde corre o rio?
— ao mar!
e riram-se de novo as cores:
— pois então!

a montanha, descontente pela ajuda
escondeu o sol e exilou as cores
antes que se voltasse a mim, respondi:
— não te decifro, sou você
sou teu barro, que o rio lava,
carreia e forma a planície
sou o que deságua no mar e o escurece
meu templo não se ergue na pedra
mas no que nela colide e desprende
não me desfaço, transformo!

atafona, 04/06/2000

closer
(p/ branca)

ao volante da picape,
um naufrágio de torpedo
atravessa damien rice,
à imagem do seu canto.

o hermético, dos ventos,
dita planos diferentes,
à longitude dos destinos
entre a foz e o afluente.

um coração em déjà vu,
quando partido, se areja
pelo sopro da janela
no motorista que acelera
e, de leveza, até sorri,

ao notar entre seus dedos
— acaso do tato no ato final —
aquele fio longo de cabelo,
só e sangue como o sol.

passa a musa e o chapéu:
“i can’t take my mind…
my mind… my mind…
til i find somebody new”.

atafona, 05/07/08

angelical

as ondas, o grilo, o galo
dão vozes ao frio
esgueirado nas frestas

do mantra oculto no crânio
o eco do nome dela, banido
escapa da boca no grito

a furo, da alma
esse pus aquece o corpo
mais que o edredom

atafona, 17/07/06

elenismo

onde começa a planície
à margem direita da foz
reflete à míngua um egeu
de sede da sua língua
maresia dos corpos jogados
oxida entre dedos de dédalo
o cheiro dela que esvai
e volta à memória em marés

pelo sol imolado na praia
do sacrifício por afrodite
nos meus criem o credo
daqueles olhos oblíquos

atafona, 07/06/08

aurora

dia desses, madrugada alta
insone, acordei a mulher
para matar saudades do adolescente
ébrio, na beira da praia, à espera do sol,
que buscava ouvir o mar chiando ao parir brasa

acompanhado, reconstituí a cena
tendo como elemento novo, além da mulher,
a barricada baixa de nuvens no final do horizonte
deflorada lentamente pelos dedos róseos do poeta

ela olhou e disse que as nuvens pareciam algodão doce
pensei e a mim lembraram ilha grande
que quando avistada da ilha seguinte
vê-se não ilha, mas continente;
imaginei após a amurada interna do forte
dos que querem manter como está
e já saem à guerra vencidos;
recordaram-me também a serra do imbé
fazendo fundos com a planície dos extintos
lhe dando vértebras;
ou ainda a conseqüência do recife
no qual convergissem todas as ondas do atlântico
açoitando a pedra e espalhando espuma
como o cheiro do quarto no amor

o sol nasceu entre nuvens e metáforas
contemplei-o até a cegueira
beijei a mulher e me despedi de homero
que fez do ouro seu anel de noivado
e saiu comendo algodão doce

atafona, 15/04/2000

pacto

com a cadela nova na coleira
contei quatro saltos do peixe
à beira mar, sem ninguém

não vi o que viveu antes o peixe
ou o que viveu depois do quarto salto
na verdade, não o conhecia

com a cadela, se vivermos
sem cair nas redes nossas
talvez partilhe visões outras

tivemos os três aquele momento
com ninguém mais à beira da praia
e a cadela me seguiu sem a coleira
e quase entrou no mar do peixe

atafona, 14/05/2000

moinho

vento balança copa
nogueira
vento que venta mais
na beira
vento lá da maré
é cheia
vento que canta e chama
sereia
vento em lua nova
inteira
vento de céu aberto
esteia
vento que traz barulho
traineira
vento de maresia
permeia
vento que volta o cuspe
bobeira
vento transporta duna
carreia
vento que sopra à face
tonteia
vento na capoeira
volteia
vento que corre o rio
na veia
vento que traz o mar


atafona, 28/12/99

Aluisio Abreu Barbosa

Rio à míngua

Outrora, em tempos outros,
tudo que hoje é habite-se
pertenceu ao que se diz
ser a imensidão do mar.

Até que um dia, o Paraíba,
buscando destino cumprir,
rasgou as entranhas da serra
para a planície formar.

E fez-se istmo primeiro,
entre golfos e brejais.
doces e feias lagoas,
d’uma beleza sem par.

Assim se fez a baixada.
Assim se fez São João,
do Açu a Atafona.
Do delta em pé de ganso
Fez-se um pontal de paixão.
De Gargaú, Guaxindiba,
às margens do Itabapoana,
dos goitacá, a nação.

Mas o rio que nos deu vida
o homem um dia sangrou
transformando-o em ferida,
cerceando-lhe a vazão.
Minando-lhe todas as forças
para os embates com o mar.

Transformaram em Guandu
o Paraíba do Sul
desviando-lhe as águas.
Semeando em seu leito,
do Egito, as sete pragas.
E no Pontal um lamento
Que traduz nosso tormento
em ver o rio minguar.

Antônio Roberto(Kapi)

travessuras
(em parceria com dora)

cana e açúcar no ar
chaminé fumando elegante
no horizonte da planície
que um dia foi
e um dia volta a ser
do mundo do silêncio de costeau

campos, 28/06/97

tempo

ver Deus olhando nuvens
do pôr do sol da praia
sopro do vento nordeste
virando terral
virando o mar
virando outro cheiro
virando o tempo
mas tempo é tempo
é nada mais
é só tempo
tempo da morte
tempo da vida
crediário duma
prestação doutra
território do ponteiro
demarcado por mijo monótono
comum lugar do tic
perseguido por tac
e amanhã tem que acordar cedo
pra trabaiá

atafona, 08/12/95

estiagem

depois da chuva são moscas
mosquitos obstinados à caça de sangue
depois da chuva são poças
cheiro de terra, ciclo de rastros
depois da chuva são sapos
corte a amantes dentro do mato
depois da chuva são cantos
folhas mais leves prenhes de pássaros
depois da chuva são vidas
formas moldadas no meio da lama
depois da chuva são gotas
pendendo em extinção da borda da telha
depois da chuva são cores
reflexos de luz na umidade do ar

depois da chuva?
a gratidão é verde depois da chuva

atafona, 05/12/2000

duas luas
(p/ lívia)

a nuvem escorre
pela lua cheia
como o tabaco
e o amor
entre os dedos

somem, consomem, secam,
vão
semeando cheiros
e lembranças
no álbum de retratos

à senha dos uivos
viro o corpo na cama
do quarto escuro

mas a lua me contorna
dobrada nos olhos dela

campos, 17/04/06

deriva

o navegador diz que liberdade
é diferente de estar à deriva
como sereia nunca me contou
se navegar é necessário
ou só demanda precisão
sigo a corrente
sem ver nisso prioridade
sentindo, roendo unha
pondo de lado as latitudes
ainda que as perceba

atafona, 14/11/95


muda

a memória sai da toca
sobe pela palafita
ainda escorrendo lama
e me fita
com olhos de caranguejo
entre as tábuas do piso
do bar do espanhol
quando o pontal era ponta
tinha fé de igreja
e luz de farol

na boca do mangue
passei minha rede de arrasto
mas só peguei filhotes de bagre
que me ferraram o pé
ao chutá-los de volta à água
até que pedro me ensinou
a pegar pitu de mão
entre raízes do mato
na beira do alagadiço

hoje passo no mangue
e não piso na lama
mas na asfixia lenta
dos aterros do homem
e do avanço do mar
perto das ilhas da convivência e pessanha
siamesas da mesma terra
onde ficou minha casca da muda
de caranguejo a espera-maré

atafona, 06/2000

“vasto é o mar, espelho do céu, querida
belo é o jovem mergulhador na ida”
(tom jobim)

espelho
(p/ paulo, luís e jacques mayol)

acredito no céu
que quando morrer vou pra lá
num céu de einstein sem newton
onde os mares flutuam
sobre cada estrela por grão
e os anjos que descem
são golfinhos saltando

atafona, 13/05/2000

conversão a mais de uma atmosfera

quando estou lá embaixo
esbarro comigo mesmo
sem dar de ombro
é em mim o tiro que miro
do arpão que zune nas águas
e rasga escamas
e carnes de pouco sangue
não vejo Deus vendo acima
só abaixo
perdido em arquiteturas
e faço parte d’Ele
refém do fascínio
de quem habita a zona morta
do meio do esquadro

atafona, 20/03/96

Aluisio Abreu Barbosa

Manchete de jornal
(Mar atinge Caixa D’Água em Atafona)

Não bastava todo o concreto
debaixo d’água
agora o mar também
tem sede de água

Não bastava a nossa nostalgia
agora o mar também nos arrebenta
os matando de agonia

Não bastava não caber
em meus olhos
o rio beijando o mar
de pernas abertas
esculpindo de vazio
o pouco que nos resta

Não bastava ser
Quase do tamanho
Do Principado de Mônaco
agora o “Moinho de Ventos”
quer se fazer rei… e eu… um bobo da corte

não bastava os artistas plásticos
arquitetos, sambistas, cachaceiros
compositores, poetas, garçons, putas e cantores
camisa de Vênus… luau
sexo sem culpa… uau…!!!
violões de forca
agora nos colocam na parede
com camisa de força

Atafona é de enlouquecer
um dia, reduto da oposição.
No outro, eterna comunhão

Ainda tem Carlinhos Pisca-Pisca
Com seus olhos que não param
Malacacheta se foi…
Ruínas ruiu…
Mas Elvis continua
na briga com a sereia
entre pedras, vergalhões e árvores mortas
Terra de eternas Elisabetes
Aflitos Erenitos
Doidas Doras
Inseguros Aluysios
Inconstantes Caetanos
Apaixonadas Adrianas
Transcendentais “Lulus”
Musicais Nanis
Perdidas Cláudias

E dá-lhes São Jorge
João, Renatos
maresia, caju e cana
Esta saudade estrelada
sob o céu de nossas camas

não bastavam os caranguejos em procissão
marolas, pipas e pontal
A magia nos permite
fazer um ritual…
Apertar um bom
Ouvir histórias
Conviver na ilha
No beiral do rio
Juntar minhas viagens
No que foi e no que poderia ter sido

Atafona é cenário perfeito
para todas as misturas
para todas as tendências
Mar para todo braço
Rio para todas as possibilidades

E o Pontal
Quase que encolhidinho
Dentro do meu campo visual
Converte-se em proscênio
pro ato final

Não bastava ser assim
Agora resta no ar
Uma aura de pecado
Onde nem os peixes ficarão impunes
Ainda é costume
Se fazer de boto
Pra não ficar isolado

Ainda há meninos sãos
Pra todos os lados

Ainda freamos o mar
Como o nosso tesão molhado
Ainda sentimos frio lá na curva
Onde, hoje, habita Neivaldo

E ainda viveremos mais verões
Bastando-nos, apenas, entender
Que a natureza sempre teve, tem
E terá suas razões…

— Pode jogar a rede !!!

Adriana Medeiros


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

jura secreta 102




na subida alice
ela me gritou de susto
pedindo a todo custo que ficasse
assim como se fosse amante
do engenho de dentro ainda tenho
um coração que é arte
e nele leio os poemas
que pensei no parque
e agora escrevo o hoje
que ficou no ontem

arturgomes