quarta-feira, 17 de agosto de 2011

METRÓPOLE



somos viajantes do tempo gravado
nas esquinas de nossas avenidas
indiferentes ao concreto armado
nos lábios trêmulos dos homicidas

passamos simplesmente do passado
ao presente ignorando as feridas
abertas por um futuro exumado
da esperança tardia dos suicidas

a vida não é a vítima ou o bandido
nas garras da metrópole, vai além
do que existe entre o gatilho e o estampido

e sabe muito bem o que convém
ao destino do assassino perdido
na solidão de ser no outro, ninguém


RÉQUIEM


ver o pôr do sol
ver pela última vez
o que me resta de pôr do sol

me porei aos seus pés
- doce fim de tarde -
e me desnudarei

(as botas!, não  esqueça das botas...
cochicha-me o meu avô  falecido)

a brisa do fim do dia
a noite de olhares infinitos
o hálito quente da madrugada

desta vez não dormirei
silenciarei pirilampos
com brilhos do meu suor

amanhã estarei de pé
rígido feito um poste
a serviço dos cães

esquecerei luminosidades
para contemplar
os riscos dos mísseis no céu

e estenderei os braços
amparando a todos
na cegueira fértil

de um macaco que lança
ossos no ar
para recolher estrelas



Marco Aurélio Cremasco nasceu em Guaraci, Paraná. Professor na Faculdade de Engenharia Química da Unicamp, tem dois livros técnicos publicados: Fundamentos de transferência de massa (Editora da Unicamp, Campinas, 1998) e Vale a pena estudar engenharia química (Blucher, São Paulo, 2005). Foi um dos fundadores e coeditores da Babel, Revista de Poesia, Tradução e Crítica. Publicou os livros de poemas Vampisales (Editora da Universidade Estadual de Maringá, 1984), Viola Caipira (edição do autor, Campinas, 1995), A Criação (Cone Sul, São Paulo, 1997; Prêmio Xerox e Revista Livro Aberto de Literatura), fromIndiana (edição do autor, West Lafayette, EUA, 2000). Possui o romance Santo Reis da Luz Divina (2004; Prêmio Sesc de Literatura e finalista do Prêmio Jabuti de 2005), o livro de contos Histórias Prováveis (2007) editados pela Record (Rio de Janeiro) e a novela Oco do Mundo (Sereia Ca(n)tadora, Santos, 2011). Em 2010 foi contemplado com a Bolsa Funarte de Criação Literária para a escrita do romance Evangelho do Guayrá.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

mar amar ao mar



mar amar ao mar
derramar o líquido
no teu mar de dentro
e beber o líquido
do teu mar de fora
sugar tua língua
na maré crescente
com essa lua mansa
no teu corpo agora

meu sal meu sol meu sul
que re-invento
e tento não conter a lágrima
nem o cata/vento
a vela singra
a vela sangra
neste mar de angra
vou morrer de sede
ou vou morrer de fome

nas tuas pernas
quero o nome
tatuado em cima
no umbigo
quero a fonte
do teu leite embaixo
dos teus seios
quero tudo
do teu ventre
as costas que ao céu profano
e com os dentes rasgo
fosse pele mesmo ou fosse  pano
como se fosses mar
a transbordar marés
até gozar um oceano


artur gomes

sábado, 16 de julho de 2011

veraCidade


porque trancar as portas 
tentar proibir as entradas
se eu já habito os teus cinco sentidos
e as janelas estão escancaradas?

um beija flor risca no espaço
algumas letras de um alfabeto grego
signo de comunicação indecifrável

eu tenho fome de terra
e este asfalto sob a sola dos meus pés:
agulha nos meus dedos
quando piso na Augusta
o poema dá um tapa na cara da Paulista
flutuar na zona do perigo
entre o real e o imaginário:

João Guimarães Rosa Martins Fontes Caio Prado
um bacanal de ruas tortas

eu não sou flor que se cheire
nem mofo de língua morta
o correto deixei na cacomanga
matagal onde nasci

com os seus dentes de concreto
São Paulo é quem me devora
e selvagem devolvo a dentada 
na carne da rua aurora

arturgomes
http://carnavalhagumes.blogspot.com

quinta-feira, 14 de julho de 2011

cordel para Maradona, 1 (osso do sertão)

na foto: romério rômulo e manuelzão miguilim











1.


por tudo maradona é o mais santo
dos deuses argentinos de gardel
sua lavra seguida, seu tropel
fazem campos sair das evidências
se o fulano o abastece de premências
ele é o deus mais cantado do cordel.


2.
já o vi retomar abstinências
numas falas de santa criatura
só moldada a aço e angustura
pra deixar no troféu sua missão
ele é indio, estádio, perdição
um petardo suspeito de clemências
com uma bala de crua arquitetura
dom diego ferreira lampião.


3.


foi o dono dos pontos cardeais
quando em sul manobrou a sua mão
uma santa criatura em pedestais
alagados de tangos argentinos
viva zeus, maradona, esse menino
que ao mundo só trouxe redenção
um irmão, o mais moço, em virgulino
com a bala feroz de lampião.


4.


o pavão misterioso foi atado
maradona é o osso do sertão.


romério rômulo
visite:
romerioromulo

terça-feira, 12 de julho de 2011

Marçal Tupã



meu coração marçal tupã
sangra tupy & rock and roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola e guaraná

artur gomes/paulo ciranda

http://paulo-ciranda.blogspot.com

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A OUTRA HISTÓRIA DA ROSA (II)



A rosa tatuada,

ainda que posta ao alcance do nada,
sobrevive aos efeitos de seus espinhos,
quando se perde em pétala espalhada
por galhos secos da roseira em luto.
Cinzenta e violácea, tal figo em calda,
reveste-se de flor em fruto,
no que se assenta sobre o que respalda.
Diante do que se lhe avermelha
a rubor de paixão e sangue pisado,
ao pé do que se diz amado,
estende-se em jardim, insone e insistente,
inscrita a ferro e fogo em pele ardente,
na pressão do dedo – cravo em riste
que a transporta em trilha de caminho torto
quando se abre em rota insana e triste
– legenda de amor em perda e aborto.


MAR AMAR

A onda que chega e que some é espuma,
que se estende n’areia em toalha de bruma.
É teia se fazendo num sopro de vento
que alimenta e suspira meu último alento.

Depois que a luz se faz manhã de paz em dia,
como gota de sal ao temperar o peixe,
em milagre,distribuo pão e maresia,
antes que a paixão por aqui, então, me deixe.

E vou inventando cidade à beira-mar,
nos poros da terra em que enterrei tolos sonhos,
enquanto me inundo em dunas de azuis risonhos.

Navio e âncora, penso em te velejar,
afundar-te na maré que me experimenta,
indo e vindo na saudade e na tormenta.


O TIRO PELA CULATRA

Não, a mulher de verdade não sou eu.

Mas a abelha rainha

que se encontrou n´algum rei,
que se deu no que serei
de mar azul e noite de lua,
vindo-a-ser sereia.

Não, a mulher de verdade não sou eu.

Nem a que se virou, toda sua,
em dona de bordel,
no que será que se deu
por noite escura, claro céu.
E nuvem, manto em solidéu.
Não, a mulher de verdade não sou eu.

Abelha por mel e sol,
Solidão em dia que não transcorreu,
flor e feto lacrado em formol
da mulher que, de verdade,
não nasceu. Nem sou eu.


CILADA

Embaixo da escada, passei várias vezes,
por malquerer e sorte
— desavisada.
E depois, sem mais que nada,
por dor, paixão e morte,
inscrevi destino e sina — reveses.

Recebi do azar dotes e porte,
em primeira mão,
de sim em sim e não em não.
E fui seguindo, sem noite nem seita,
varando a madrugada,
embora sabendo de uivos e lobos, à espreita.


AÇÚCAR

é verde e veio
de cana caiana
sangrando
o suco operário
de muitos suores
e caldos
melados
fermentos
cachaça
melaço
e canaviais
roçados
de calos
nos pés e nas mãos
e bóia fria
marmita
— aceiros intermináveis
e joios e pedras
e foices
e folhas secas
estalando miséria.


DIÁSPORA

No útero da mãe África
fervilham seios que amamentam os filhos do amanhã
e costuram os tecidos da verdade temporã na América
de tantos escravos e navios negreiros aportados
na escuridão de brasis, jamaicas, cubas e haitis
– todos mortos pelas terras e serras maestras
de amanheceres construídos com baionetas e fuzis.

Em portos ricos e bahias, cantaremos a sorte
da sobrevivência sobre tanta morte.
No encontro com a terra te elegeremos – ilê-ayê,
e flutuaremos, como velas nascidas da renitência,
em aflitas razões, racismo e resistência,
ao som de atabaques, tambores e tamborins
e também assim faremos um samba na Mangueira
ou entoaremos um blues em New Orleans.

Vasculharemos tudo: instintos, sentimentos, religiões,
raízes indevassadas e meras intuições.
De onde nos tiraram as verdades,
sucumbiram saudades e lamentos.
E depois, ainda mais escravidão.

No ruir de tudo, memória e banzo.
O novo mundo é quando?

AMÉLIA ALVES

sábado, 23 de abril de 2011

Brisa - cinema possível


Brisa – um Filme de Jiddu Saldanha – Projeto Cinema Possível

Brisa é o primeiro filme do projeto Cinema Possível em HD, finalizado em Abril de 2011. No elenco: May Pasquetti, Artur Gomes e Jorge Ventura. Música de Marko Andrade, direção de Jiddu Saldanha. Poemas de Eliakin Rufino, Herbert Emanuel, Artur Gomes, etc... Este filme é dedicado àqueles que amam a poesia!

Jiddu Saldanha – Palavras do Diretor


meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia


por que te amo
e amor não tem pele nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo
no sol no sal no mar na neve

                           
saiba mais sobre Brisa aqui: http://curtabrisa.blogspot.com

sexta-feira, 25 de março de 2011

Visão

Foto: Fátima Nascimento



o olho que vê
espreita
o outro

somos vistos
nem sempre sentidos

humanos
desumanos

riso
pranto
choro

vida à deriva
ou não

leme na mão
(melhor)

somos como barcos
na imensidão das águas
ou ancorados no chão


fátima nascimento
http://fatimanascimento.blogspot.com/







Caminhos de Água
ROGERIO SANTOS

as escolhas que faço não pesam
se bobear, estão mais para flutuar

enluam, chovem, molham, escorrem
...
as minhas simples escolhas
seguem caminhos de água

lavam e levam coisas e pessoas
são de matar e matar a sede

não conheço aridez
que não seja pisar os pés
em beira de rio e de praia
ROGERIO SANTOS






BANZO



carrego em meu lombo
várias máculas onomásticas

sou Zé, filho de Edward
um desterro sem quilombo
e sobre meu nome
a Cruz

sou nenhum
mulato negro índio
ninguém tingido d’água
salgada vindo

mesmo depois de liberto
sapatos a luzir
— inédita condição —
um ilhéu
que o destino não quis
soteropolitano

um grapiúna no sul-
maravilha quase
impecável
sem marcas
cicatrizes
não ungido
sem excesso
de melanina

algo assim próximo à matéria
alva que se tinge o mundo
visão última
dos que erram o alvo
e encontram
a morte


[foto: Pierre Verger]

edson cruz
http://sambaquis.blogspot.com

quarta-feira, 16 de março de 2011

r e i m u d o (n)




eram milhões de vezes soçobrando
interstícios de universo centrífugo
do rei que emudecera
palavras amaldiçoadas degeneram
hipocrisia assolando singelezas
o rei senta elegantemente sobre seu trono
tentando abafar retratos incendiados
ultrajantes
engasgos preteridos incuráveis
oráculos invertidos pelas cinzas diminutas
sacudidas nas ampulhetas ilusórias
dos fenômenos descartados nos
jogos de azar
tabuleiro sem nuances desamados
castelo de amarguras desbotadas
ofegando sentenças renunciadas pela vítima
reinado de orquídeas prostradas no parapeito
contemplam escoadouro da dignidade e da descendência
louros reptilianos dourados de ofuscar distintivo
mascaram nitidezes na incidência das frutas
hipnotizadas pelo sopro
sim, havia livros nas estantes nos instantes
descalculados da potencialidade ansiada
e personagens dançando sobre prosas infindáveis
repousadas no colo da cortesã madrugada
apaixonados sobre pontes entre um caco de vidro e outro
houve voos partidos dentro de v i d a s
n
sementes brotando na festa, graças e améns murchados
entusiasmo acovardado por desencontros
enroscados em lençóis úmidos
lágrimas sobre línguas
cidades que caminharam dentro de nós
sinais indecifráveis de Tibiriçá
lampião se apaga sob angicos
como os olhos encerram a pétala decorada
no templo arruinado por hostilidades
pintura de abaetés na pele do amanhecer
tingindo beijos transtornados que se arredam
do marco zero aos pés de Paulo
mas o rei apressado pelas aniquilações
corre ao revés com cetro no verbo
reflexos de cordeiros encharcados
claridade desamparada pelas portas certas
angústia coçando os pés quebradiços
desligamento com a sacralidade do minuto perpétuo
mergulhado no girassol segredado em cada peito
ininterruptamente asfixiado
pingo indissolúvel na xícara de café
magoada pela queda
cai rei de copas por baixo da mesa
embriagado e coxo
recolhendo versos escorregadios
que se movem entre casas brancas e pretas
armaduras despertadas nas torres trepidantes
artifícios enxadristas para a desnutrição
oferecidos em banquete sensual
coroa de diamantes incrustados em ouro
velha velhíssima
que tomba em um xeque-mate
dentro do silêncio perturbável de todos os mesmos dias


beatriz bajo

sexta-feira, 11 de março de 2011

poema bíblico

http://arturgomes-fotografia.blogspot.com/

do barro a carne
da costela adão
do teu corpo eva
todo trigo pão


fosse a fruta
fruto farto
felicidade
tua voz seria
fogueira acesa
no teu corpo santo
como farol
de lua
pra espantar
quebranto


federico baudelaire
http://federicobaudelaire.blogspot.com/





Disforme


Perdi os meus modos
Rasguei os modismos
Quebrei a moldura
Que molestava meu rosto.
Esfarelei as moléculas
Me reverei em cubos
Cones, cilindros
Seios nos olhos
Olhos nas coxas
Boca no sexo
Céu na boca
Língua nos ares
Comendo as moscas,
Palavras na sopa
Da área do barulho.
As múmias se levantam
Das pinturas cubistas
Tropeçam nas formas
Com a cara no concreto,
Ossos por todos os lados
Almas a navegar no céu,
Batucada com ossos
Umbigada de vento
Beijo de sopro mordido
No perfume que veste
A caveira ambulante
A mulher de cubos
Encaixada nos fósforos
Que ascende a alma
Riscando a vida
Na chama que chama
A vida que ascende e apaga
Num sopro só.
Quero me virar em cubos
Tinta, fogo, chama
Na cama, no ventre
De frentre, pra trás.....
No cais do País do Navegar
Vejo o barco voando
No sopro do vento
Penetrando as nuvens
Despindo os mares
Na fúria das marés
Que batem nos meus pés....


Alcinéia Marcucci
http://artedafemea.blogspot.com/

A união azulada de nossas íris deixaram para a noite da estrada percorrer a saudade de cada intenso momento em que existes na minha vida (presente ou não). Quis as coxas anêmicas me dando apoio feito travesseiro... deixar o vinho confundir as pupilas... me permitir a paz que só tu me trouxeste em tão pouco tempo de convívio, em tantos anos de presença em mundo.
A felicidade de te rever iguala-se à tristeza de te ver partir.
"The scars of your love remind me of usThey keep me thinking that we almost had it all
The scars of your love they leave me breathlessI can’t help feeling" ("Rolling in the deep" - Adele)


ana luisa guerra

quarta-feira, 2 de março de 2011

terra de santa cruz





oh! my brazil ainda em alto mar cabral quando te viu foi logo gritando: terra à vista! e de bandeja te entregando pra união democrática ruralista.

ê fome negra incessante
febre voraz gigante
ê terra de tanta cruz

onde se deu primeira missa
índio rima com carniça
no pasto pros urubus

por aqui nem só beleza
nesses dias de paupéria
nação de tanta riqueza
país de tanta miséria

terra de santa cruz
ao batizarem-te
deram-te o nome:
posto que a tua profissão
é abrir-te em camas
dar-te em ferro
ouro
prata
rios
peixes
minas
mata
deixar que os abutres
devorem-te na carne
o derradeiro verme

salgado mar de fezes
batendo na muralhas
do meu sangue confidente
quem botou o branco
na bandeira de alfenas
só pode ser canalha
na certa se esqueceu
das orações dos penitentes
e da corda que estraçalha
com os culhões de tiradentes


salve lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança
dos rendez-vous de impérios atrás

meu coração
é tão hipócrita que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ou
viram no ipiranga às margens plácidas
uma bandeira arriada
num país que não levanta

só desfraldando a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha
com as chaves dos mistérios
dessa terra tão servil
tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza
com a pátria mãe que nos pariu

bem no centro do universo
te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada
do meu peito varonil
espanto todas estrelas
dos berços do eternamente
pra que acorde toda essa gente
deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante
esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo
robôs te enrabam ó mãe gentil

telefonaram-me
avisando-me que vinhas
na noite uma estrela
ainda brigava contra a escuridão
na rua sob patas
tombavam homens indefesos
esperei-te 20 anos
ate hoje não vieste à minha porta


o poeta estraçalha a bandeira
raia o sol marginal quarta feira
na geléia geral brasileira
o céu de abril não é de anil
nem general é my brazil
minha verde/amarela esperança
portugal já vendeu para frança
e coração latino balança
entre o mar do dólar do norte
e o chão dos cruzeiros do sul

o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal sexta feira
nesta porra estrangeira e azul
que há muito índio dizia:

meu coração marçal tupã
sangra tupy & rock and roll
meu sangue tupiniquim
em corpo tupinambá
samba jongo maculelê
maracatu boi bumbá
a veia de curumim
é coca cola & guaraná

o sangue rola no parque
o sonho ralo no tanque
nada a ver com tipo dark
e muito menos com punk
meu vício letal é baiafro
com ódio mortal de yank

ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema
espada continua a ser espada
poema continua a ser poema

neste país de fogo & palha
se falta lenha na fornalha
uma mordaz língua não falha
cospe grosso na panela
da imperial tropicanalha

não metam neste planos
verdes/amarelos
meus dentes vãos/armados
nem foices nem martelos
meus dentes encarnados
alvos brancos belos
já estão desenganados
desta sopa de farelos

meto meus dedos cínicos
no teu corpo em fossa
proclamando o eu ainda possa
vir a ser surpresa
porque meu amor não tem essa
de cumer na mesa
é caçador e caça mastigando na floresta
todo tesão que resta desta pátria indefesa

ponho meus dedos cínicos
sobre tuas costas
vou mastigando bostas
destas botas neoburguesas
porque meu amor não tem essa
de vir a ser supresa
é língua suja e grossa
visceral ilesa
pra lamber tudo que possa
vomitar na mesa
e me livrar da míngua
desta língua portuguesas

artur gomes
http://artur-gomes.blogspot.com/



terça-feira, 1 de março de 2011

Do amor e seus silêncios



No destempero e ardências
da fúria inaugural
a palavra sem proveito
(verbalização de corpos)

No rito já maturado
do caminho reconhecido
a muda comunhão
(frêmito de carne e espírito)

Urgências mitigadas
os silêncios primordiais
já agora interpretáveis
(epifania outonal)


O silêncio dos espelhos

(lembrando Borges)

Nus e silêncios
coabitam meus espelhos
(mergulho
e
espanto)
abismos refletidos
nova e (irre)conhecida
história


Memória


Em meu dedo
o teu dedal
(tento, mãe
costurar tua memória
prender-te ao que me resta)
Incertos pontos
que a vista embaçada
não deixa urdir


Pensamentos luxuriosos

Ver-te.Tocar-te. Que fulgor de máscaras.
Hilda Hilst


Pensava nele
quando a seda do vestido
tocou-lhe as coxas
eriçando-lhe os pêlos
(asas a roçar o espírito
tocha a incendiar a carne)

Pensava nele
quando a voz de Maria Callas
alcançou a nota mais aguda
- L’atra notte in fondo al mare –
invocando Mefistofele
(setas fálicas a zumbir junto aos ouvidos
aromas de sândalo a embebedar os sentidos)

De tanto nele pensar
Devorou a si própria
l u x u r i o s a m e n t e
(espírito só carne)


Dias de ira

Ira furor brevis est
Horácio

No furor mais insano
dos ardores intensos
a marca da traição
: revoltos sentidos

Nos braços da ira
a lava das palavras
tatua impropérios
: inesperada queimadura

(por fim)
Compaixão e ungüentos
compressas frias
gestos de paz
: ardências já cinzas

Extraídos de RETRATOS FALHADOS (São Paulo: Escrituras, 2008).
Exemplar doado por Aricy Curvello para a Biblioteca Nacional de Brasília.


Meu Pai – Retrato Falado

Da palavra escrita, tudo ignora
acha que ler demais faz mal
à saúde e aos olhos
(à semelhança de Caeiro
acredita apenas no que vê e vive
nas árvores, nos pássaros, na Tv)
Elegeu, durante oito décadas
algumas (poucas) verdades
imarcescíveis

Também à maneira de Caeiro
não acredita em metafísica
(aliás, ignora solenemente o termo)
mas vez ou outra, elege um Menino Jesus
que tanto pode ser o seu médico
(compreende suas dores – sábio para sempre)
alguém que lhe fale em espanhol
ou aquele que lhe diga apenas o que deseja ouvir

Na memória auditiva
preservou frases imutáveis
válidas para todas as ocasiões
(tantas vezes repetidas
até serem transformadas em verdade)

Não acredita em fantasmas
nem que o homem chegou à lua
Odeia políticos e política
(o Presidente é o culpado por tudo)

No plano dos afetos
os pais e os irmãos
a primeira namorada
a companheira definitiva
os filhos e os netos
dois ou três amigos de infância
(nenhum na velhice – já morreram todos)

Algumas (poucas) paixões
:
fotografar
conduzir automóveis
criar passarinhos
vangloriar-se de seus (ingênuos) feitos

Não aceita que lhe falem da velhice
(nenhuma de suas mazelas, acredita,
dela é decorrente)

Um homem frugal
de pensamento concreto
(o que nós vemos das cousas são as cousas)
O mundo resume-se
à sua ética particularista e particularíssima
(o mundo – e o corpo – como vontade)


10 de junho

Olhos e carne a beber o verde-rubro
bandeira escancarada à emoção.

Vinho
(será ele o luso símbolo
ou o sangue que ferve e incendeia
este pendão?).

Saudade
mordendo feito bicho
feito tempo, feito chama.

Orgulho
raça amálgama de raças
cravos de abril rasgando a história
língua pátria outra para milhões

Camões
nem é preciso que o digas
nem compêndios, calendários ou cantigas
apenas o sangue a rugir em campanário
rubro lembrete
mais do que nunca hoje é dia
de sentir-se português.


Dalila Teles Veras
dalilatv@alpharrabio.com.br

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

(Re)fluxo

Arte Fátima Queiroz



A palavra almeja, conquista
Ignora a lei da usura
Estampa nas caras, tritura
Apolos, apelos, a cura
A palavra mistura – recicla
Língua aguerrida
Curita
Traspassa o globo, cultu(r)a
Cega de um olho
Orbita
A palavra irrompe, esquerdista
(Des)conserta sob auspício
Saliva, veneno de cobra
Refaz-se soro ofídico
A palavra impõe-se laço
Margeia, forja Spaço
Mergulha, cabe-se abismo
Fogueia, cumpre-se ato
A palavra lambe (e-)mundos
(Re)fluxo, expande segundo
Corrompe flores de aço
Cavalga até moribundo
A palavra pppppulsa.



Lou Vilela
http://nudezpoetica.blogspot.com/

Leila Miccolis



PENA DE MORTE

Eram bastante bons
aqueles tempos de ódio,
em que planejávamos nossos assassinatos,
pelo simples prazer de nos vingarmos:
eu te via com os dedos na tomada,
tu me vias sufocada pelo gás.
Tempos em que sorrias ao atravessar a rua,
e eu achava graça em ser atropelada;
tempos em que queríamos fazer um filho,
para espancarmos juntos,
nos dias de ócio;
em que eu te servia de escarradeira,
em vez de cozinheira e passadeira.
Depois, veio o amor,
que é como um lenço em que se assoa,
ou mãe que chicoteia e nos perdoa.
Hoje afago-te as corcovas
e lustro-te as botas novas.


REFERENCIAL

"Solteira de aceso facho
precisa logo de macho;
se é nervosinha a casada
só pode ser mal trepada;
viúva cheia de enfado
tem saudade do finado;
puta metida a valente
quer cafetão que a esquente".
Mulher não vive sem homem.
A prova mais certa disto
é que até as castas freiras
são as esposas... de Cristo.
Tal regra é tão extremista
que não contém exceção:
quem sai dela é feminista,
fria, velha ou sapatão".

E é com essa bagagem de preconceitos adquiridos
que chega-se à conclusão,
na separação de amores doloridos,
de que não houve culpados.
Só feridos.


TRÊS NÚMEROS DE MÁGICA

O espetáculo começa:
faço sair da cartola
televisão a cores,
automóveis
e imóveis
em 180 prestações.
Depois te serro ao meio no caixão,
para salvar-te a seguir:
surges inteiro e pareces tão ileso
que nem dá para notar-se a castração.
Por último me cobres — abracadabra —
e tiras da vagina objetos contudentes
que fizeram a minha vida e o meu hímen
complacentes.

PACIÊNCIA
Hoje, não passei tua roupa,
não encerei o chão
não lavei a louça
não sacudi o capacho.
Olho pro teto
e espero
que a casa venha abaixo.

ATIRADOR DE FACAS

Arrancar as vendas
e acompanhar,
de olhos abertos,
a trajetória do punhal,
cravado em nosso corpo, em nosso peito,
a cada amor desfeito.

TENTATIVA DE SUICÍDIO

Foi ao toalete,
e cortou os sonhos
a gilete.


TOCAIA

Quando te encontro sem que te assustes,
sem que te encoste contra a parede,
sem que puxes o cabelo,
desesperado,
sem que peças o último pedido,
como um condenado desperto na madrugada da execução,
sem que te sintas sufocado e preso entre dois andares,
sem que te firam vidros e te cortem pulsos,
pressinto ser inútil a emboscada.

NOVO AMOR

Meu coração nunca pára
pra comparar, solta amarras,
vive seu tempo presente:
se ferido, em mim se ampara;
mas quando sara e se sente
contente, fica eloqüente,
feito algazarra de araras.
POEMA AO MAIS RECENTE AMOR
Estar entre teus pêlos e dedos,
entre tua densidade,
neste transpirar sob medida
aos teus gemidos.
Estar entre teus trópicos,
entre o teu desejo e o meu prazer,
beber parte de teus líquens e teus rios
percorrendo-te da foz até a origem,
e pura a cada amor partir mais virgem.


BONS TEMPOS ou
SAUDOSA MALOCA...


Namoro antigo: titia
na sala bordava um pano,
tomava conta, e ainda havia
entre nós dois... um piano...

Pra se mostrar, a vigia
tocava um rondó cigano,
tão mal, que ela enrubescia,
se rias de algum engano...

Por fim, como despedida,
a mais ousada bravata:
um beijo na minha tez.

E após a tua saída,
eu, titia e mais a gata,
surubávamos as três...

SEM DIVÃ

Você fala bonito
sobre fases sexuais
— orais, anais, vaginais —
mas,
cadê que as faz?...

DOS MALES O MENOR...

Se te chamo de putinha
sou machista e indecorosa.
No entanto, se não chamo,
você não goza...


COERÊNCIA

Sei que me fazes mal,
mas prefiro tal
à tua ausência.
Nesta loucura imensa
à lucidez me rendo:
na vida, eu aprendi, dose a dose,
que, neurose, é tudo o que não se aceita,
querendo...
BISSEXUALISMO
Teus pentelhos raspados
arranham
feito barba mal-feita.


FORA DE FORMA

De amor é fácil falar,
opinar, teorizar,
mas viver é que são elas...
Portanto não acredite
nesse povo tagarela
que somente dá palpites.
Nem agrida quem discorda
ou quem chama de calhorda
a nossa forma de vida,
só por ser controvertida.
Mais lúcidos somos nós:
eles se juntam somente
a uma multidão de gente
pra fingir que não estão sós.
DES CALÇA
para Glauco Mattoso

É tão fetichista,
que, ao ver meu pé nu,
berrou: — se vista!


SUPERHERÓTICOS

Enquanto o Incrível Hulk
cresce na parte de cima
verde que nem perereca,
a pobre parte de baixo,
vermelhinha de vergonha,
não rasga nem a cueca.
Já o Homem Invisível
tem um troço tão encolhido
que ganhou este apelido.
E o Homem Aranha? Coitado!
Dia e noite, noite e dia
só na luta contra o mal
deve ter teias no pau...
Êta turminha sem sal!
Não é ridículo?
Ninguém agüenta mais os Super Homens,
com seus cintos de utilidade
e estreitas mentalidades...
Homens com maiúsculos agás,
"gagás".
Chega dos valores desta escala:
muito falo e pouca fala.
Se afinal é preciso mudar tudo,
que se tire então, do homem, o H mudo.



galo gatos rede madrugada

césar castro - wermer além da alma




na varanda o varal vazio
o corpo rola na rede
em madrugada de frio

o galo canta no quintal ao lado
e o seu canto
atravessa as paredes da manhã
benvinda

os gatos trepam no muro
e gemem
como felinos no cio


fedra margarida
world of the woman
http://fedramargarida.blogspot.com

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

eu sou o teu avesso





sou a filha da vaca
mas não troco minha mãe
por diva nenhuma

eu sou a neta da puta
mas estou com a minha ave
em carne e unha

eu sou o teu avesso
a língua da morte
a ruptura do conforto
fedra margarida
negra como corvo
no lado escuro da vida
serei sempre seu estorvo

eu sou o teu avesso
as flores do mal-me-quer
o lado mundano da vida
de pagu a baudelaire

fedra margarida
world of the woman
http://fedramargarida.blogspot.com/



Poema inédito


Olá!

Antes de tudo, quero agradecer-lhe por me aceitar
em seu endereço e até desculpar-me por fazê-lo
assim, de forma meio invasiva. Como dizia o poeta
Lindolfo Bell, o poema se completa no leitor.

Sem o leitor, o poema é apenas um início
ou o indício de algo que pode acontecer. Quando,
vez ou outra, esse encontro de poema e leitor
acontece, realiza-se essa coisa gratificante
que é a construção de um novo sentido ou,
quem sabe, a revitalização de uma idéia de vida,
um ânimo novo. Semanalmente tenho colocado
em minha página na Internet um poema inédito,
no único intuito de buscar novos sentidos
nesse contundente cotidiano pós-humano.

O que mais vale, por certo, não são as palavras
armadas no digital espaço. Mais importante
é o triunfo, mesmo que breve, da poesia.

Com carinho,

Alcides Buss
http://www.alcidesbuss.com/



"o meu verso é um estrago
na linha do meu pescoço
o meu dente, só um bago
o meu corpo, puro osso

minha boca de ariranha
minha mão atropelada
minha ferida medonha
a minha pele rasgada

renasço. a cara lamenta
pelo buraco em que vim
e a minha vida nojenta
explode dentro de mim."

("feio, sujo, maldito", romério rômulo)



arur gomes - pele grafia



fluxus - fátima queiroz

Retratos sem data






Em homenagem a La chambre claire,
de Roland Barthes



I/Rosto de menino

Podia retocá-lo
com o verde desta tarde,
com o verbo deste lápis,
com o vento na janela.

Eis o termo da linhagem:
monstro ou borboleta
arrastando nosso cadáver.

Há um ricto
escondido nessa catástrofe.
O rosto acolhe uma filiação incerta.


Serpente tudonada

Aos hóspedes não convém
senão desfazer as malas
e vigiar as nódoas na parede.

Esgotou-se o tempo
de arranjar a sintaxe
dos talheres,
de repetir o ricto
após o último verso,
de empilhar os jornais
sobre a escrivaninha,
de recolher no pires
o farelo de pão,
de calçar as meias do avesso,
de ajeitar a gravata
dos amigos, de adiar o jardim
para depois dos quarenta.
Aos hóspedes convém esquecer,
conquanto em mim distraídos.
O corpo e as cidades



Das cidades

em geral

De quantas cidades estive
(e não digo as que, de passagem,
guardei apenas uma rubrica
e o rumor do jornal dormido,
nem aquelas em livro escritas
ou contrabando dos amigos,
em cartões-postais e souvenirs)
poucas vestiram este corpo,
camisa feita de encomenda,
sem rugas, pences, rebordos.



De Diamantina

De quantas cidades estive,
Diamantina tem o tamanho
do corpo com que se ama e vive,
com folgas e bolsos largos
para acolher-nos no regaço.
Tem os olhos da altura do homem,
e ruas que arregaçam as mangas,
e pátios de pássaro destros,
e capelas que erguem as saias
para deixar fugir o céu.


Conversa na alfaiataria

Aos meus tios, alfaiates

Aviamento

- Em tal ofício, menos não se admite,
ainda que a obra seja para o cabide,
não descura a severa matemática.

Nem cós nem colarinho aqui se avia
como se fora rol de mercearia,
pois, à roda do metro (diz a prática),

um corpo recusa, menino e agreste,
a cifra com que confirme e ateste
a medida do homem e a sua hora.

- Pouca ou nenhuma serventia terá
o método que queira abolir o azar.
Trata-se de pôr o número à prova,

de repetirum gesto até a diferença,
da lei que todo labirinto ostenta,
até que o olho em horizontes desdobre-o.

Corpo é como ter o mar na gaveta,
um cômodo a cumular nossas perdas,
uma pausa conspirando o relógio.



Das palavras

e dos gestos

Palavras apenas as que contam.
Para histórias do começo,
quando homem falava.

Mesmo um gesto demora,
até que o músculo
substantiva.


De Deus

Quem diria que há?

Por mim ficava longe
que eu não tenho estatura.

O medo de quem vê
pela primeira vez
uma palavra doendo.

fernando fábio fiorese furtado

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