

Somos pessoas
estranhas
somos
pessoas estranhas
nem
sabemos
que sonhos
que somos
esses olhos
poucos
essas folhas
secas?
esqueçam
fiquem
calados
somos
estranhos
no entanto
esta noite
dormiremos
lado a lado
Peônias negras serenas
peônias negras
serenas
quase secas
pombos se aquecem
num resto
de sol
uma planta
luta para
romper a fenda
formigas dragam
uma abelha
ainda viva
o inverno furta
a flor a cor
da fruta
(gestos & acenos
de sombras
não consolam)
a tarde passa
arrasta e deixa
um rastro prata
Seu corpo é uma praia deserta
Seu corpo é uma praia deserta
onde uma música desperta
numa onda esperta e a deserda:
espumas a ferem como pétalas.
Desterra, em tradução infinita,
pérolas na orla do olhar,
ilha que ainda está por ser escrita.
América # 3
Os desertos respeitam o tempo.
Veja como meditam, as pedras.
As areias são discípulos discretos,
corroendo os ossos do mestre com insolência.
O clímax do artifício está no azul
– paisagem total sem pontos de fuga.
Uma ruga vira uma gravura.
Vire-a do avesso e tens um deserto.
Uma tela de Monet vista de perto, por trás
– mas sem cor, sem aguapés, sem antes.
Deixe que o coiote nos espreite,
deixe que se deite entre as pedras
que nunca nos perguntam nada,
deixe que os mapas se percam, se rasurem.
Perdemos o sentido de direção:
as estradas são todas.
Um cactus se distrai contando roadrunners.
Veja sua poeira cruzando o panorama.
Os ecos que soltamos não retornam.
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