
Tendal
Entre a terra e o céu está o outono
- asa ferida, agrimensor do sono
no delírio da queda estende estrelas
para proteger quem regressa da vida.
Ponho sobre os plátamos os cansaços
inefáveis. Perdoa-me o medo de sofrer
busquei novos rios de regresso
à casa de nomes apenas ornados
para a grinalda com raiva e tempo.
O poeta abre no poema o outono
e mede com seu rosto o abandono
das coisas amadas. O silêncio ajudou
a desatar o crepúsculo junto
à árvore na dureza agressiva
das raízes. Aqui está o vestígio estranho
da cantiga movida dos ninhos e
das flores. Não passes o outono
sem uma dádiva, celeiro ogival,
desigualdado templo de portas
abertas. Aqui está o longo outono
de todo em tuas mãos.
Velhice
Não é voltar que entristece – é não poder
reter nas mãos o sol o chão a lembrança,
sondo turvadoramente os próprios passos,
o caminho de reaver a sombra
durante horas a fio os velhos
cinamomos que não vemos mais.
O meu anjo da guarda banido de ternura
mais do que diante da morte
confunde a hera e o musgo, colhe
as rosas do amor e do vento.
De repente, o vento faz-se humano.
As sombras são sandálias
Portadoras de amplidão estendida
para dentro do nome. A aldeia
guardou intactas as coisas tímidas,
desde ontem a infância existe
só para querer revê-la novamente.
E há de ser o limiar de cada um que nos ouça
sem disfarces, quando a noite chegar
como quem folheia um livro de figuras.
Não é a volta que entristece... É pertencer
às lembranças sem poder atapetar
o silêncio de quem volta.
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