quarta-feira, 20 de novembro de 2013

gomes & gumes

fotos: Aline de Oliveira na Oficina de Poesia e Produção
 de Vídeo em Sacramento - Manhuaçu-MG com  


Gomes & Gumes 


todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes
se um corta com palavras a outra com corte mesmo
se um é produto da fala a outra do ódio a esmo
todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
e um amor cego nas asas brilhante de vagalumes
se em um a linguagem é sacana
na outra o corte é estrume
todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
se em um peixe é palavra na outra o brilho é cardume
é fio estrela na lavra mal cheiro vício costume
de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes
se em um a coisa é sagrada ofício provindo das vísceras
na outra a fé é lacrada hóstia servida nas missas
se em um é cebola cortada aroma palavra carniça
na outra o ferro, é tempero fé cega - fome amolada
– poema é só desespero

Artur Gomes
www.arturgomes.blogspot.com
in 20 Poemas om Gosto de JardiNÓpolis & Uma Canção Com Sabor de Campos 






SampleAndo

o poema pode ser um beijo em tua boca

carne de maçã em maio
um tiro oculto sob o céu aberto
estrelas de néon em vênus
refletindo pregos no meu peito em cruz
na paulista consolação da na água branca barra funda

metal de prata desta lua que me inunda
num beijo sujo como a estação da luz
nos vídeosfilmes de TV eu quero um clip

em tuas coxas japa
uma cilada nos teus seios quentes
como uma flecha em tuas costas índia
ninja, gueixa eu quero a rota teu país ou mapa
teu território devastar inteiro
como uma vela ao mar de fevereiro
molhar teu cio e me esquecer na lapa

Artur Gomes
www.pelegrafia.blogspot.com









Desdita

chegaram
de grito em punho
- incisivos -
fraturando o silêncio.

falaram que os companheiros
comiam do mesmo grude,
lambiam a caçarola
cheirando a sexo de esmola,
tremiam no mesmo frio
da mesma noite assassina,
gemiam no mesmo açoite
da mesma nau da chacina;
disseram que um companheiro
esfaqueou o amigo do peito
e foi lavar as mãos
no botequim da esquina.

mas não vou cantar desditas
de crimes passionais,
eu cá por dentro de mim
já trago umador tão grande
que não nem cabe nos jornais.

Salgado Maranhão
do Livro A Cor da Palavra

Prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011





may pasquetti musadaminhacanon



Galope


com espada
em riste
galopamos
pradarias
e lutamos
ferozmente
por dois segundos
e meio
tua fúria era louca
que agarrei-me
em tuas crinas
pra não cair na lama
mas o amor era tanto
e tanto era o prazer
que quando fomos pra cama
não tinha mais o que fazer.

Artur Gomes
IN Suor &  Cio

terça-feira, 19 de novembro de 2013

sentença



Tributo a Torquato Neto

hoje que você se foi
e ninguém pode negar
o que está feito:
as palavras guardadas no peito

são flores-navalhas
no chão do real;
e um poeta conhece
o tambor da fúria
capaz de gerar um furor.

hoje que você se foi,
o tempo de chorar
também já foi embora,
e um poeta conhece o tamanho do verso
capaz de abolir o acaso,
que as palavras são lances de dardos.

hoje que você se foi,
os bois que berravam na chapada
viraram sócios do açougue:
os néscios e os midas de sempre
sinlen$ifraram nossa dor.
e neste cenário de real pavor,
como num lance de touradas,
o troféu é entregue ao matador.

Salgado Maranhão
Do Livro A Cor da Palavra
Prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011



Aline de Oliveira na Oficina de Poesia e Produção de Vídeo



4º Circuito Cultural de Arte entre Povos
Oficina de Poesia e Produção de Vídeo 2
Sacramento – Manhuaçu-MG



esfinge


o amor 

não e apenas um nome 
que anda por sobre a pele 

um dia falo letra por letra 
no outro calo fome por fome 
é que a pele do teu nome 
consome a flor da minha pele 

cravado espinho na chaga 
como marca cicatriz 
eu sou ator ela esfinge 
ana alice/beatriz 

assim vivemos cantando 
fingindo que somos decentes 
para esconder o sagrado 
em nosso profanos segredos 

se um dia falta coragem 
a noite sobra do medo 

na sombra da tatuagem 
sinal enfim permanente 
ficou pregando uma peça 
em nosso passado presente 

o nome tem seus mistérios 
que se escondem sob panos 

o sol e claro quando não chove 
o sal e bom quando de leve 
para adoçar desenganos 
na língua na boca na neve 

o mar que vai e vem 
não tem volta 

o amor é a coisa mais torta 
que mora lá dentro de mim 
teu céu da boca e a porta 
onde o poema não tem fim 

artur gomes 








4º Circuito Cultural de Arte Entre Povos
Oficina de Poesia e Produção de Vídeo
Pedra Dourada-MG


EntreDentes 3

olhei a cara da do tempo ela estava fechada não me dizia nada pensei as sagaranagens que o tempo fazia comigo peguei  do tempo o umbigo cortei na ponta da faca e tua cara de vaca sangrei sem nenhum remorso porque isso o tempo não tem agora o tempo sorri me mostra os dentes da boca e a tua cara de louca é a minha cara também


Artur Gomes





4º Circuito Cultural de Arte Entre Povos
Oficina de Poesia e Produção de Vídeo 1
Pedra Dourada – MG

Sentença
para Salgado Maranhão

a cor da tua palavra me conforta
porta que se abre pra beleza absoluta
matéria bruta a vida que tivemos
sorte de nascer dentro do norte
na selvagem pantera felina
que nos deu  a nossa sina
de não morrer antes da morte

Artur Gomes

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

poéticas fulinaímicas



Retirante

quando ele apareceu por aqui
já trazia o coração mordido de balas:
marcas de insetos na  carne-morango.
e uma hora falava sobre mulheres
que secaram o leite dos peitos
amamentando a sanha dos fogões;
noutra, sobre homens que sangraram
o chão das costas saciando a sede
dos quartéis em pontaria. e foram
tantos os tintins, tantans, histórias,
os tangos e as guarânias, que nem
sei se ouvi direito: por cá, também,
tenho vivido a paz da boca da serpente
e o cio que açula as canções. dia desses,
ouvi dizer que ele desapareceu
na caravana dos enluarados, a uivar
litanias nas cordas de um charango.

Salgado Maranhão
Do livro A Cor da Palavra
Prêmio da Academia Brasileira de Letras - 2011





antLírica


eu não sou zen
muito menos zhô
nem tão pouco
zapa
nem ando na contra capa
do teu disquinho
digital
não alinho pela esquerda
nem à direita do fonema
vôo no centro/viagem
olho rasante/miragem
veia pulsante/poema

Artur Gomes 
na Feira do Livro de Brasília - de 20/11 a 1/12






Poética 68

era para ser assim como se foice
no papel de seda era língua e sangue
unhas muitos dedos dentes
nos teus céus de boca
era assim como se fosse
meus olhos no cinema
nos teus olhos presos
e o destino do poema teus lábios indefesos

artur gomes



artur gomes - poesia in concert no 27 Psiu Poético - Montes Claros-MG


Jura Secreta 34

te amo e amor não tem nome pele ou sobrenome não adianta chamar que ele não vem quando se quer porque tem seus próprios códigos e segredos mas não tenha medo pode doer pode sangrar e ferir fundo mas é razão de estar no mundo nem que seja por segundo por um beijo mesmo breve porque te amo no sol no sal no mar na neve

Artur Gomes




may pasquetti - musa da minha canon



4º Circuito Cultural de Arte entre Povos
Oficina de Produção de Vídeo
Pedra dourada-MG – Fernanda Dias – Pérola Dourada

Jura Secreta 115

esse teu olho que me olha azul safira ou mesmo verde esmeralda fosse pedra pétala rara carne da matéria doce ou mesmo apenas fosse esse teu olho que me molha quando me entregas do mar toda alga que me trouxe

Artur Gomes


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

poundianas


poundianas

torquato era um poeta
que amou a ana
leminski profeta
que amou a lice
um dia/pós
veio uilcon torto
e pegou a jóia diana
e junto na pereiralice

com o corpo &  alma
 das duas
foi Bouvoir assombradado
roendo o osso do mito
pra lá de frança ou bahia
pois tudo que o anjo dizia
Sartre jurou já ter dito


NONADA
- biúte : ria

Artur Gomes
In Brazilírica Pereira : A Traição das Metáforas







Eu dos Temporais
Reynaldo Bessa/Alexandra Lemos

Não há  nenhum sinal de mim no horizonte
Nem das garrafas que eu lancei de um outro mar
Pra te contar que me esqueci
E por onde foi que me perdi
E afinal desaprendi  como voltar
Não adianta esperar que o sol desponte
Eu não estou por perto nem já vou chegar
Rasguei as velas que eu mesmo abri
E em cada sonho que dormi
Eu era o mar e me engoli pra não voltar
Eu era o mar e me engoli pra não voltar
Tomei de volta o meu futuro que era seu
E o seu passado que era meu não quero mais
O dia ainda está escuro e já nasceu
Porque levei o sol comigo e muito mais
E se eu já nem sei olhar pra trás
Pra que saber onde é o cais
Até meu nome se perdeu
Hoje me chamo eu dos temporais
Quando eu achar o fim do mar e a sua fonte
O sol é seu porque não vou mais precisar
Vai parecer que nunca existi
Pois não há sinal de mim aqui
De tantos mares que eu bebi pra não voltar
De tantos mares que eu bebi pra não voltar
E se eu já nem sei olhar pra trás
Pra que saber onde é o cais
Até meu nome se perdeu
Hoje me chamo eu dos temporais

Faixa do CD O Som da Cabeça do Elefante





natureza morta

o passarinho sem pernas
olha de dentro da gaiola
pendurada no teto
dentro do quarto
da casa sem quintal
a tarde que brilha lá fora

o passarinho sem asas
olha o que o olho permite:
vôo inútil que a tarde inventa
a luz morna e provisória
que vai ser escuro daqui a pouco

o passarinho sem passarinho
só
a tarde abso
luta
sem pernas
sem asas
sem nada

Celso Borges
no livro BELLE EPOQUE





Sentença

faz muito tempo que eu venho
nos currais deste comício,
dando mingau de farinha
pra mesma dor que me alinha
ao lamaçal do hospício.
e quem me cansa as canelas
é quem me rouba a cadeira,
eu sou quem surfa no trilho
e ainda paga passagem,
eu sou um número ímpar
só pra sobrar na contagem.

por outro lado em meu corpo,
há uma parte que insiste,
feito um caju que apodrece
mas a castanha resiste,
eu tenho os olhos na espreita
e os bolsos cheios de pedras,
eu sou quem  não se conforma
com a sentença ou desfeita,
eu sou quem bagunça a norma,
eu sou quem morre e não deita.

Salgado Maranhão
Do Livro A Cor da Palavra


Prêmio da Academia Brasileira de Letras – 2011